Paulo Moreira Escritor

Capítulo 7 OSDD - O Viajante Solitário

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Antes de começar a narrar os perigos enfrentados por Glaudir e seus companheiros, é preciso contar o que houvera ao deixarem Tick na Cachoeira Ant, uma vez que ele quase morrera antes de completar a missão dada pelo amigo.

Era o dia 31 de março, o mesmo dia no qual Docus, Glaudir e Hargot haviam viajado para a Floresta das Grandes Árvores no dorso de Lúminar, a Luz. Embora ainda baixo, o sol matutino brilhava glorioso no céu enquanto Tick cavalgava em Saltador entre a Cordilheira de Andrus. Sombra e Raio, acostumados com seus montadores, pareciam sentirem a ausência de Glaudir e Docus. Iam cada um ao lado do ivirez, que não precisara amarrá-los para levá-los a Havis. Os animais eram bastante obedientes e seguiam o companheiro, paravam quando ele parava e prosseguiam quando ele prosseguia. Ao deixar as montanhas, Tick desejou que não precisasse desembainhar a espada no caminho que estava disposto a finalizar — o que não se realizou.

Próximo ao meio-dia, Tick observou colinas dominadas por pedras soltas que lhe trouxeram lembranças de dois dias atrás. Se não fosse Hargot que aparecera sem prenúncio algum, teriam sido mortos pelas armas dos Selvagens Uriarques, os quais quase lhes prepararam uma emboscada. Ver tudo aquilo à luz do sol era diferente. Arbustos cinzas e sem folhas cresciam entre as rochas, e a terra nua seguia adiante inalterada. Aos poucos, uma encosta escura e assombrosa se destacou entre as colinas. Não se assimilava a nenhuma delas vistas ali, mas sim a um grande rochedo preto, um ponto escuro na desolação melancólica. Pedras compridas de carvão espiavam as nuvens, todas em uma só posição. Algumas estavam caídas ou quebradas, e uma fumaça negríssima brotava de seu interior e traçava seu rumo ao céu azul.

Quando o vento mudou de direção e passou a vir da colina, Tick desviou o percurso assustado e cavalgou rápido com os outros pôneis ao redor. A brisa viera junto de um cheiro podre, muito parecido com o de carne chamuscada. Aquelas pedras escuras não eram rochas, mas cadáveres. Eram os uriarques que haviam brigado entre si, agora transformados em estátuas de carvão. O fogo misterioso ardera sobre a colina e queimara todos, pusera fim à sua vida de maldade e gravara uma marca de morte no ermo. Tick quase caiu em lágrimas, não por aquelas criaturas cruéis e sanguinárias, mas por perceber que o mundo era mais perigoso do que parecia, por perceber que sua terra não estava ilesa diante dos acontecimentos que haviam além das montanhas. A terra pacífica e calma de Haldom estava em transformação, e Tick sentiu que não era para melhor.

Ele não voltou mais os olhos para a colina e tentou respirar pouco para não sentir o ar de morte dentro dos pulmões. Com um longo desvio, reencontrou o rio após muitas horas, dando as costas à terra negra e ao medo que consumia seu ser. Concluiria a missão, pois isso não era só uma prova de amizade, mas também a única maneira de mostrar a sua coragem. Como Sombra e Raio estavam sem montadores, Tick frequentemente cavalgava neles quando Saltador ficava cansado. Dessa forma, prosseguiu no trajeto mais do que imaginava. Se a colina não houvesse lhe obrigado a fazer a curva, ele já estaria perto da união dos dois rios que se dirigiam a Umilzend.

Era a quinta noite de lua minguante, assim, grande parte do tempo se passou às escuras. Tick não conseguiu acender uma fogueira — os fósforos estavam com Glaudir — e o frio arrepiante do local o sufocou. Cobriu-se com o cobertor enquanto seus dentes tilintavam em sua boca. Ele tentava controlá-los, mas o vento noturno era muito mais forte. Aguardou o nascimento da lua no leste, quando supostamente seria meia-noite, para dormir durante a madrugada. Contava que não aparecesse nenhum inimigo nesse período. Entretanto, não foi capaz de vê-la, seus olhos exaustos se fecharam, e o ivirez acabou dormindo sentado, envolto no lençol com os pôneis ao redor.


Tick foi acordado pela respiração alta e forte de Saltador. A aurora ainda nascia e os raios dourados surgiam suaves no horizonte, mas, para os olhos cansados de Tick, estavam ofuscantes demais. Cheio de olheiras negras em seu rosto, o ivirez desejou dormir mais um pouquinho, porém sabia que não podia. Assim, andou cambaleante ao rio e lavou o rosto sonolento com a água fria que vagueava ao sul. Por mais que visse o que fazia, suas ações pareciam serem controladas por outra pessoa. Tudo era um sonho confuso, e quase nada se preservava em sua memória.

Tick montou o pônei outra vez e começou a viagem, sozinho como sempre. Seus únicos companheiros eram os animais que o carregavam e que, de quando em quando, resmungavam para ele quando tentava conversar.

— Estou ficando louco.

No dia anterior, Tick encontrara várias pegadas e objetos pequenos na relva, supostamente dos inimigos que havia marchado por ali. Mas agora, todos os sinais dos uriarques já haviam sumido. Sentindo-se mais seguro, ele cavalgou vagaroso para observar a paisagem. Algumas plantas rasteiras se enrolavam sobre o chão marrom. Flores silvestres desabrochavam, todas pequeninas e quase imperceptíveis, tingidas ao branco, ao roxo e, mais raramente, ao vermelho. Arbustos eram frequentes, uns espinhosos e secos, outros repletos de folhas verdes em seus galhos negros, todos cheios de areia. Sob a sombra das colinas, moitas claras enfeitadas com flores azuis se escondiam. Por serem altas, Tick podia ficar oculto entre elas se simplesmente se abaixasse.

Será que seus companheiros estariam num lugar parecido como esse? Não, estavam na Floresta das Grandes Árvores. Sabia muito pouco dela, mas tinha certeza de que não era perigosa. Em Haldom, haviam poucos locais ameaçadores que representassem risco aos andarilhos. Dois deles eram Atokuzi, a montanha onde Havar habitara, e o Lar dos Carniceiros, onde abutres, urubus e outras aves carniceiras voavam ao lado de Ant — por isso era chamado de O Carniceiro.

Pelos relatos dos angars, as Grandes Árvores se tratavam de uma mata de sequoias antigas e colossais. Tick nunca foi a ela. Os lugares para os quais costumava ir em viagem, raras no entanto, eram apenas Mankdrive e Ulincamp. Mankdrive tinha a melhor cerveja de Haldom e era uma cidade pacata e calma, um bom lugar para relaxar e esquecer os problemas. Ele não sabia, mas era nessa mesma cidade onde nasceria o Matador de Tibêrius e o Último Rei dos Bawians — o qual faz parte de uma outra história. Já Ulincamp se destacava pela sua produção de leite, possuía grandes rebanhos de ovelhas e vacas. Era uma planície repleta de gramíneas, o paraíso para esses animais, “um lindo campo”, como é a tradução do seu nome. Por ser bom para o rebanho, era ótimo para os pastores que moravam ali em pequenos vilarejos.

Com esses e outros pensamentos, o tempo prosseguiu mais rápido. A união dos dois rios logo se mostrou no cenário. Tick decidiu cortar caminho e mudou a direção para o leste, sabendo que, em linha reta, acabaria chegando em Umilzend. Conforme avançava, o brilho do sol crescia e as nuvens sumiam no horizonte. Poucas árvores apareciam, todas baixas, com cascas grossas e rugosas. Seus caules cinzas eram finos demais, e as folhas esverdeadas não conseguiam produzir uma boa sombra. Mesmo assim, Tick tentou descansar em baixo de uma delas. Relaxou as costas, sentado encostado na árvore fria. Comeu e bebeu pouco. Imaginou o percurso e constatou que não chegaria a Umilzend antes do anoitecer.

O sono lhe alcançou outra vez, e ele perdeu o equilíbrio. Esticou os olhos e levantou-se tonto, indo direto a Sombra, o corpo rígido como uma pedra. Montou o pônei e voltou à viagem.

— Tudo se repete — disse para si mesmo.

Seus olhos pesados viam imagens incompreensíveis. Tick sabia que seu pior inimigo era o sono, pois, por mais que tentasse, não era capaz de controlá-lo. Evitá-lo era cansativo, e só os pensamentos conseguiam manter seus olhos abertos. Com o tempo, todos acabaram sumindo, e Tick não suportou. O cansaço o atingiu com a força de uma lança, e o ivirez caiu no lombo de Sombra, agarrando-se a seu pescoço. As crinas eram macias como um travesseiro, e Tick descansou. “Nenhum uriarque anda durante o dia, afinal.” As patadas dos cascos cantavam em seus ouvidos, expulsavam sua dor. Tick entregou-se ao sono, mas os pôneis continuavam a viajar, carregando-o para casa.


Quando voltou a abrir os olhos, a noite já se aproximava. Às suas costas, um traço amarelado de luz cortava o céu. Os grilos começavam sua cantoria repetitiva e uma sombra sobrevoava a abóboda, envolvendo a terra erma com escuridão. Percebendo que devia descansar seus obedientes pôneis, Tick saltou de Sombra e parou. Os animais lhe imitaram e logo deitaram-se no chão. Estavam mortos de cansaço, mas confiavam no ivirez. Agora disposto, Tick sentou-se com a face ao horizonte violeta. Não conseguiu avistar o milharal de Umilzend e tampouco o rio ao sul, mas reparou a cor do céu a se aprofundar num azul negro e gelado.

A noite lhe alcançou solitária, melancólica. Tick sentiu-se sozinho e perdeu os motivos para continuar prosseguindo. Sabia que estava próximo da grande fazenda, mas algo o sussurrava para desistir. Para dormir. Para nunca mais viajar. Lembrou-se dos companheiros e do melhor amigo, estes que agora acampavam perto da Oestrada ao lado de Lúminar. Ouviu a voz de Glaudir em meio à solidão: “Proteger meu pai e mantê-lo a salvo é uma grande prova de amizade para mim.”

— Não! — disse ele para o desistir. Glaucor talvez estivesse correndo perigo, e Tick não largaria a missão assim, tão facilmente. Ela era simples, apenas ir a Havis e levar Glaucor a Umilzend, ele não podia renunciar. Não devia.

Resolveu deitar, não para dormir, mas sim para outra coisa importante. Foi desse modo que Docus descobrira que os uriarques se aproximariam. Ele não conhecia a técnica, porém imaginou que só era preciso pôr a orelha no chão e se concentrar, tentar prestar atenção nos sons mais inaudíveis da terra. Foi isso que ele fez. Nada. Apenas silêncio.

A escuridão se adensou como uma névoa sem cor e apagou o cenário ao longe. Embora não houvesse escutado nada, Tick permaneceu na mesma posição, mas de olhos abertos, já que não podia depositar toda a confiança em seus ouvidos. O tempo foi passando, e Tick começou a pensar em se levantar. Entretanto, se concentrar na visão e na audição ao mesmo tempo podia estar confundindo-o. Preferiu, então, fechar os olhos, até mesmo porque a noite não lhe permitia ver muita coisa. Ouvindo o silêncio da terra por um dos ouvidos e o barulho do vento por outro, aguçou os instintos e relaxou. Se não tivesse feito isso, talvez não sobrasse tempo para fugir.

Um som moveu a terra, tão minimamente que Tick pensou ser coisa de sua imaginação. Voltou a se repetir em pequenos tremores, aumentava a intensidade e ficava cada vez mais nítido. O ivirez permaneceu deitado no chão, atento aos misteriosos barulhos, até que o vento soprou na outra orelha. O som foi tão claro que Tick levantou-se apressado e correu para acordar os pôneis. Não os abandonaria por nada. Antes de alcançá-los, viu que já estavam erguidos e permaneciam agitados, assim como quando os uriarques apareceram, mas agora estavam bem mais inquietos. Se não fosse a aguda audição dos ivirezes, Tick jamais teria ouvido patadas repetidas e aceleradas. E não eram simples patadas, eram patadas de cascos.

Tick montou em Raio, pois ele era o pônei mais rápido, e ordenou-o a correr, seguido pelos outros dois pôneis. Nunca havia imaginado que aquele tipo de inimigo estivesse ali, jurava que apenas os Selvagens poderiam ser um obstáculo. Ao recordar as suposições de Glaudir e Hargot, ficou tremendo, não fazia ideia do destino que o aguardava. O pior que constatara era a clareza das patadas, confirmando que o inimigo estava muito próximo dele, e que não era só um.

Uma onda de frio atacou-lhe com uma sensação de pavor, trazidas pelo ar. Raio acelerou sem comando algum, e Tick segurou firme no seu pescoço. Sombra e Saltador desviaram, sumiram nas sombras e deixaram-no sozinho e amedrontado. O ivirez puxou a espada. Ela assobiou, pronta para defendê-lo. Tick sabia que estavam perto. Sentia que já tinham lhe encontrado nas trevas da noite.


Cascos avisaram a chegada. Relinchos doentes zombaram dos tremores de Tick. O ivirez respirou fundo e virou o rosto, observando a paisagem atrás. Ali, uma fina névoa se erguia do chão com uma luz fantasmagórica. O grito de um prisioneiro morto percorreu os ventos, cortou o silêncio da noite sem lua. Três cavaleiros, negros e apavorantes, emergiram das sombras. Seus cavalos magricelas machucavam a terra com a força de seus cascos. Aproximavam-se numa velocidade anormal com as espadas ameaçadoras erguidas ao céu. Suas lâminas afiadas sibilavam no ar enquanto os espectros avançavam destemidos. As trevas os seguiam em suas capas.

Tick olhou para a frente. Não havia nada onde pudesse se esconder. Não teria tempo de saltar do pônei e se esconder nas moitas. Estava perdido. Antes que conseguisse reagir, uma sombra alta e espantosa se ergueu ao seu lado. Uma espada assobiou. Tick não viu outra opção além de saltar. Caiu dolorido no chão, mas não soltou a arma. Raio fugiu, desaparecendo de vista. O cavalo esquelético e negro tentou pisoteá-lo com os cascos pesados. O ivirez se esquivou, rolando sem parar. Cada patada, um terremoto. Tick apontou a espada para o céu e mirou uma das pernas do animal sombrio. Não acertou, mas o cavaleiro deixou-o em paz por um tempo.

As outras duas sombras se aproximaram com as lâminas nas mãos. A respiração gélida dos cavalos era fumaça em suas narinas. Tick levantou-se e correu desesperado, sem olhar para trás. Os cavaleiros o seguiram, dispostos a torturá-lo para tirar preciosas informações e, depois, matá-lo, pensava o rapaz. Um deles se preparou para um ataque na horizontal e desceu a arma afiada a fim de decepar sua cabeça. O ivirez se abaixou e, por sorte talvez, apenas fios de cabelo foram cortados pela lâmina quente. Tick cambaleou, mas parou e manteve os pés firmes sobre o chão. Os espectros passaram ao seu redor com as capas pretas balançando como asas, exalavam uma brisa de arrepiar os cabelos. Tonto, Tick não pôde se defender. O último dos caçadores baixou a mão fantasmagórica e puxou o ivirez pelo pescoço, fazendo-o abandonar a espada.

Uma manopla de ferro feita para cavaleiros aquecia a mão com um calor abrasante. Tick sentiu uma dor descomunal no pescoço, não só por causa da luva, mas por causa das unhas afiadas que perfuraram-lhe na carne. Os cavalos continuaram a correr sem descanso. Em um instante, o ivirez recebeu uma pancada horrível por uma árvore e perdeu as forças, entretanto, ainda era capaz de manter os sentidos. A escuridão consumia seus olhos fracos, sem brilho. Tentavam encarar os cavaleiros no rosto, tentavam ser corajosos, mas só havia medo neles. Molhavam suas bochechas com lágrimas.

— Eu não vou falar nada!

A nuvem de trevas que o segurava jogou-o com força sobrenatural para o solo cheio de pedras cortantes. Do pescoço de Tick, finos traços escorriam e manchavam a camisa com um preto brilhante e quente. O cheiro de ferro o nauseou. As feridas causadas pelo inimigo ardiam como brasas acesas. Comparadas a elas, as pedras afiadas eram apenas picadas de insetos teimosos.

O cavaleiro saltou e pousou pesado no estômago da vítima. Tick berrou de dor. A sombra agarrou-o novamente pelo pescoço ferido e apontou a espada direto ao seu coração, encarou o indefeso ivirez com olhos de fogo.

— Onde está? — a voz parecia o sibilo de uma cobra, repetia-se em ecos sussurrantes.

Tick nunca falaria: — Não tenho medo de vocês! — gritou, aterrorizado.

— Então, por que choras?

O pior temor de Tick não era enfrentar aqueles cavaleiros malignos, era não salvar Glaucor, mas a chegada deles aniquilou todas as suas esperanças. Ele ainda tinha forças, podia ser forte, tinha que ser. Não falaria nada, não cairia nas armadilhas que sabia que a sombra iria lhe preparar.

— Sentimos o teu medo. A covardia te corrói como ácido!

O inimigo correu a espada no pescoço de Tick, e depois ao olho. A lâmina quente de aço tocou-o na pálpebra, transbordava uma energia estranha que tentava desmaiá-lo. — É possível sobreviver sem um dos olhos.

Os ossos de Tick gelaram. O cavaleiro sombrio levantou a arma, manteve-a apontada para o olho do ivirez. Tick os fechou, não veria a espada se aproximar, talvez assim doesse menos. Que fosse rápido, desejou. Mas, para o bem de Tick, o servo não chegou a executá-lo.

— Envycalma dicílir fronaren!

Uma voz sussurrava bem ao longe, frágil, sumia no vento sibilante. Qual uma grande estrela, um halo pálido disparou veloz em direção ao vulto. Encheu de luz o seu caminho, chamuscou o rosto do inimigo e arremessou sua espada com um ofuscante brilho azul. O inimigo saltou para trás e largou Tick. Subiu em seu cavalo como um gato assustado. Dolorido, o ivirez avistou um cavalo branco e robusto na paisagem noturna, mas não distinguiu seu cavaleiro.

— Quem ousa enfrentar os temidos Servos das Sombras? — gritou um dos servos, mostrando a espada longa e mortífera.

O outro não respondeu e ordenou que o cavalo branco corresse na direção dos três. Tick ouviu o soar de uma espada e tinidos agudos: as armas se chocavam. As sombras haviam partido para enfrentar o recém-chegado, assim, o ivirez arrumou forças para se levantar e andou cambaleante para se distanciar o mais rápido possível. Não conseguia correr e seus joelhos doíam. A noite devorava o cenário com sua escuridão aterradora e as estrelas pareciam ter diminuído o brilho. Sem enxergar quase nada, pois já perdia os sentidos, Tick tentava se afastar dos relinchos dos cavalos e de suas patadas esmagadoras.

E então, vários cascos apressados se aproximaram. Tick pensou em se abaixar de um suposto ataque mortal, mas não era um dos Servos das Sombras, ele sentia que não. Era o desconhecido. Sem parar um segundo, ele puxou Tick pela camisa e colocou-o na garupa do cavalo. Sua espada já estava embainhada e uma luz azulada resplandecia em seus olhos.

— Não olhe para trás, haja o que houver — ordenou ele.

Com um capuz azul a cobri-lo, o rosto rígido do cavaleiro guardava o olhar adiante. A barba acinzentada escondia seu queixo. Havia luz em alguns fios, Tick não deixou de notar. Possuía capa, presa por um broche sobre o peito, esvoaçando devido à velocidade do cavalo.

— Quem é você? — perguntou Tick, disposto a saber quem era o seu salvador.

— Ninguém. Ninguém é meu nome.

Vozes baixas e confusas vieram de trás em meio a patadas altas e ansiosas. Tick as conhecia; eram dos cavaleiros sombrios. Os Servos das Sombras vinham velozes, recitavam palavras de um idioma oculto. Tick virou o rosto para eles, mas logo o homem encapuzado o interrompeu.

— Não olhe, ouviu bem?

O ivirez não questionou, mesmo sem saber o porquê.

— Agora, feche os olhos!

Tick obedeceu. A voz do desconhecido começou a ressoar em uma outra língua, inundando o interior do ivirez com esperança. A visão negra em seus olhos fechados relampejou. Ouviu-se um estrondo. Os cavalos esqueléticos relincharam. Tick sentiu-se seguro na presença daquele cavaleiro. Uma brisa suave passou a arrodear seu corpo, acariciou seus cabelos, e o medo passou de uma hora para outra. Talvez conseguisse finalizar a missão que Hargot havia lhe dado.

— Pode abrir.

Tick acatou o pedido. Traços de luz ondulavam ao seu redor, todos azuis como o céu diurno. Perdiam cor com o tempo e dissolviam-se no ar vagarosamente. Lá atrás, uma fumaça subia, vagando ao céu. Uma névoa escondia o local num certo ponto, criava um círculo deformado e opaco. As sombras dos inimigos estavam ali, sem as espadas, imóveis enquanto observavam os dois fugitivos. Seus olhos vermelhos os fitavam como ferro incandescente. Pareciam estátuas macabras de cavaleiros mortos. Estátuas não eram. Cavaleiros mortos, sim.

Sem mais medo algum, Tick reparou que não podiam mais atacar, muito menos avançar em sua direção. Cansado e com as pernas doloridas, caiu no pescoço do cavalo branco e dormiu sobre suas crinas, entregando suas lembranças para o mundo dos sonhos, permitindo que seu salvador o levasse para onde quisesse.

O Viajante Solitário não estava mais sozinho. Agora, tinha alguém para conversar, e esse alguém era Ninguém.


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