Paulo Moreira Escritor

Capítulo 8 OSDD - Sangue Derramado

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Com o olhar para todos os lados da mata, Abidel fumava a caminhar entre as árvores. Ao vê-lo, Glaudir lembrou-se das runas “i” e “a” de seu cachimbo e percebeu que não eram um grande enigma, apenas significavam issocydeda alimúnida, cuja tradução era “Ordem Iluminada”, tendo uma relação clara com os Guerreiros Iluminados. Quem sabe os quatro não seriam uma nova versão dessa ordem?

Abidel, sempre com o arco na mão, lhes avisara que a viagem seria muito mais longa — eles não imaginavam o quanto, por isso, recomendou que Glaudir usasse um par dos sapatos de Hargot. Eram compridos, mas perfeitos, pois, mesmo para os ivirezes, os pés doíam em longas caminhadas. Sem arma alguma, o ivirez confiava na bengala dada pelo pai, que era de boa ajuda nas ladeiras. Docus, como era habitual, permanecia com a face calma e curiosa, reparando os mínimos detalhes da Floresta das Grandes Árvores, ao passo que suas flechas chocalhavam na aljava, bem ao lado do arco verde. Hargot permanecia atento ao chão, receava em pisar os cantos recobertos por folhas ou arbustos. Não explicara o porquê, mas Glaudir supunha que seu receio era devido a armadilhas, sem ter ideia de quem poderia ter as armado.

Era a manhã do dia 9 de abril e o céu estava envolto em nuvens densas e escuras, prenunciando uma tempestade. Como a certeza de chuva era grande, Abidel recomendou irem para o lago Huria, onde, nesse trajeto, supostamente haveria uma caverna na qual podiam se abrigar. Um falcão castanho voava bem ao alto em círculos vagarosos, perto das nuvens, para ver se havia algum perigo. Quase nunca gritou, e quando o fez, foi só para avisar que o caminho era seguro.

O vento frio agitava as copas e trazia fracas gotículas, molhando as folhas das árvores e a pele dos viajantes. Em nenhum momento, durante a manhã, o esplendor do sol conseguiu ultrapassar as nuvens azuis, carregadas de água. A tempestade era inevitável.

— Aumentem o passo! — ordenou Abidel, sem parar um minuto. — A chuva pode apodrecer os mantimentos.

Uma onda de vento se chocou contra a mata e empurrou as árvores de um lado a outro. Inicialmente fracos, clarões iluminaram o topo da floresta, tão trêmulos e velozes que pareciam ilusões. Como se um monstro gigante houvesse despertado de seu sono e gritasse, trovões rugiram, abalando o céu. O horizonte já desmoronava em águas límpidas e geladas, mas elas ainda não alcançavam aquela parte da floresta. Uma sombra cobriu o céu e se estendeu para a mata.

Foi mais ou menos ao meio-dia que o véu de pingos fustigou as enormes sequoias, estalando em suas folhas, saltando em seus galhos. As árvores tentavam proteger o solo com os seus braços erguidos e unidos, mas era uma luta vã. O esplendor dos relâmpagos clareava a floresta com seu brilho branco e veloz, estrondos de rochedos a desabarem explodiam nas nuvens pesadas. Travavam uma batalha nos céus, e a Floresta das Grandes Árvores chorava desesperada.

— Temos que correr! Vamos! — insistiu Abidel.

As sequoias aparavam os pingos grossos, mas não o suficiente. Em certos cantos, a água descia como uma cachoeira, ensopando o solo. As folhas retinham o líquido, mas, sem aguentar o peso, o lançavam em seguida. A caverna foi vista adiante, uma boca escancarada e negra no sopé de uma colina. A água formava uma cortina na entrada e criava um pequeno lago mais à frente. Um a um, os quatro foram saltando para dentro e se abrigaram, todos encharcados. Glaudir riu daquela situação. Eram ratos molhados, fugiam da chuva para guardar a comida e, além disso, correram para dentro de um buraco!

— Ótimo. Tirem as mochilas — disse Abidel. As mechas gotejavam em seu rosto brilhante, banhado pela tempestade. Glaudir e Hargot, que levava a mochila de Docus, obedeceram. — A chuva vai demorar muito, talvez a tarde inteira.

A cortina de água escondeu os quatro na caverna fria e molhada, assim como a Cachoeira Ant fizera com os Guerreiros Iluminados.

— Podemos dormir um pouco. Estamos seguros — aconselhou Abidel, já que haviam saído mais ou menos às duas da madrugada. Aproximou-se de Hargot e advertiu-o: — O falcão que voava não está mais aqui, consequentemente, não posso saber se um inimigo está se aproximando. Filho, você poderia ficar de vigia?

— Claro, sem problemas — respondeu o ivirez. Ao ver o semblante do feiticeiro, percebeu algo a perturbá-lo. — O que houve? Tem algo que precisa me contar?

Abidel virou o rosto para os ivirezes Glaudir e Docus que cobriam o chão um pouco ao fundo da caverna. — Eles são vítimas nessa história. Não sabem o que estão enfrentando, nem conseguem imaginar.

— Sei que não é isso que o perturba, Abidel. — Hargot quase nunca o chamava de pai.

— É verdade. É a destruição da ondori… Não sei se isso é o certo e, lá no fundo, não quero que isso aconteça.

— Pode me responder por quê?

— Infelizmente, não. Mas, meu filho, — Seus olhos cansados encararam os de Hargot. — haja o que houver, eu sempre vou cuidar de você, entendeu bem? E mesmo se tiver que fazer escolhas erradas, é tudo para o seu bem e o de meu povo.

— Por que está falando isso? Vai nos abandonar?

— Talvez. Vai depender do que acontecer e de como seguiremos nosso caminho. Estamos no fim de uma era e isso me preocupa muito.

— Novecentos e noventa e nove — Hargot recitou.

— Não, o certo é mil, ou um da Segunda Era. Há coisas terríveis prestes a ocorrer, e não só em Haldom. No exterior, vários conflitos estão acontecendo, e uma guerra horrorosa e sangrenta pode cair sobre nossas cabeças a qualquer instante. Se você soubesse o que pode acontecer nos Reinos-dos-Homens, o que acontece na grande Floresta-dos-Alvanes, iria se assustar bastante. E o distante País-dos-Huarts ao Norte está enfrentando problemas também. A ondori é só um pequeno desafio entre tantos outros. Tudo me indica que uma catástrofe vai acontecer, e eu tenho o poder para evitá-la. É um início de uma era perturbada. A Terra das Sombras pode renascer no Sul, e eu posso evitar isso. Eu quero evitar.

— E por que não evita?

— Porque isso custaria muitas coisas que amo. — Abidel respirou fundo e observou os dois ivirezes a dormirem na escuridão da caverna. Tentou tranquilizar-se. — São duas crianças que não sabem de nada.

— Mas têm sonhos e querem que nossa terra permaneça como sempre esteve: em paz.

— Paz… É o que todos queremos lá no fundo. Não conte para eles o que lhe disse. Devemos focar em uma missão: destruí-la. — A última palavra pareceu doer como uma ferida aberta. — Preciso descansar um pouco. Fique de guarda, Hargot, e me acorde se reparar algo suspeito.


Na verdade, Docus ainda não dormia. Com um olho aberto, observava os dois conversarem, mas não conseguiu ouvir o que haviam dito por causa do barulho da chuva na entrada. Sentiu o ar de preocupação de Abidel quando este deitou-se para dormir, e o de tensão que, de repente, dominou Hargot. Ficou curioso em saber o que o fez ficar daquele jeito, entretanto, já que haviam conversado longe dos dois, refletiu que não era para ele saber. Decidiu dormir e relaxar, sem imaginar que um sonho perturbaria sua cabeça logo depois de fechar os olhos.

No mundo dos sonhos tudo é confuso e qualquer coisa pode surgir inesperadamente, assim, o sonho de Docus era tão esquisito e pavoroso que suas pálpebras tremiam desesperadas. Já Glaudir dormia sem perturbação alguma, como um troll petrificado. O sussurro da chuva o relaxava entre os trovões explosivos e barulhentos. De quando em quando, a floresta clareava com os alvos relâmpagos, revelando as sombras gordas das árvores a chorar, molhadas pela tempestade. No chão enlameado, as águas turvas corriam e formavam poças fundas e escorregadias, para depois serem absorvidas pelo solo e pelas raízes das sequoias e vegetais que ali haviam.

De uma hora para outra, um pássaro começou a sua cantoria, bem baixo no começo e repetindo-se três vezes. Glaudir abriu os olhos cansados, estranhando o ocorrido, pois nenhuma ave podia cantar na chuva, a não ser que fosse mandada por Abidel. Meio tonto e sem distinguir com clareza as imagens, percebeu que continuava abrigado na caverna. Hargot abaixava-se e esquivava-se para trás aos poucos. Era ele quem assobiava, tão semelhante ao pássaro que cantara na noite na qual os Selvagens apareceram. “Então, era ele, afinal!”, percebeu Glaudir.

Hargot desembainhou a espada enquanto Abidel levantava Docus, este ainda sonolento.

— Para o fundo da caverna! — ordenou Abidel, baixinho. Armava o arco com uma flecha.

Glaudir, sem entender absolutamente nada, ergueu-se e correu para a parede ao lado de Docus, os dois silenciosos.

— O que houve? — perguntou, enquanto os dois se abaixavam. Esconderam-se atrás de uma rocha escura e úmida.

— Não sei. Mas fique calado.

Abidel e Hargot chegaram mais perto, encarando a entrada. O primeiro sequer recuava a mira, nem piscava os olhos, atento a qualquer movimento. O segundo permanecia com a espada fixa na mão, pronto para um ataque inesperado.

Uma sombra engoliu a cortina de água na entrada. Glaudir espiou sobre a pedra e olhou o inimigo, o qual parecia não vê-los. Tratava-se de um cavaleiro obscuro, tentando enxergar o interior da gruta. Abidel e Hargot não tiravam os olhos dele, imóveis como estátuas. O cavaleiro mexia a cabeça para lá e para cá em cima de seu cavalo magrelo. Dois vaga-lumes cor de sangue resplandeciam na cabeça do cavalo.

Ashen adren karir shedoro ir.

A frase gelou a espinha dos ivirezes e fez as pedras pequenas da caverna saltarem de medo. O vento assaltou o local, assobiando e trazendo uma sombra gelada consigo. Abidel e Hargot foram consumidos pela névoa preta, como se uma enchente forte e apressada os carregasse. Docus se despedaçou em cinzas enegrecidas. Todos ficaram cegos, não se via nada além da escuridão. Só havia sombras. Glaudir achou que estava morto, que, repentinamente, todos haviam sido mortos.

Na escuridão, patadas de cascos foram se aproximando tranquilamente. Uma espada sussurrou, desembainhada sem pressa. Não havia nada ali, a não ser o vento forte e quase inaudível a se chocar contra Glaudir. O ivirez não podia enxergar nem seu próprio corpo, contudo, reparou que alguma coisa resplandecia em seu peito. Minúsculas estrelas giravam uma ao redor da outra como poeira luminosa. Tentou pegá-las, e o calor das luzes afastou seu medo. Era a ondori.

Ela é nossa — Ecos ressoaram nas paredes da caverna.

Glaudir apertou a ondori no peito e, mesmo sem saber como, o objeto começou a clarear num relâmpago vagaroso. Um raio azulado cortou a caverna, deixando-a pálida e consumindo a enchente de sombras com seu clarão. O cavaleiro se afastou enquanto gritava assustado. Ao perceber que era Glaudir quem possuía a ondori, correu em sua direção e apontou sua arma. O ivirez recuou num pulo, sentindo-se leve, e rolou no chão para não ser pisoteado. Com velocidade anormal, esgueirou-se para fora da caverna sem olhar para trás, fugindo do inimigo que não mais o perseguia.

Hargot atacou o Servo das Sombras, mas este esquivou-se para perto de Docus. A luz misteriosa sumira levando consigo a escuridão, e agora conseguiam ver claramente o cavaleiro obscuro tentando acalmar seu cavalo de olhos de fogo. Docus ficou quieto, sem saber o que fazer. Glaudir havia sumido e ele não fazia ideia de para onde fora.

Abidel atirou. O espectro se defendeu com a espada longa e ardente, e a seta ricocheteou no ar. Avançou em direção ao bruxo para pisoteá-lo, contudo, Abidel deslizou para o lado com a espada erguida para o ombro do cavaleiro. A sombra desviou, mas caiu do cavalo.

— Deixe-nos em paz! Lutar não é necessário — disse Abidel, largando o arco no chão.

O Servo das Sombras o atacou novamente, dessa vez com uma força avassaladora. Abidel se defendeu com a espada, foi lançado para trás pela brutalidade do ataque e caiu de costas contra o solo molhado. Docus, ao perceber o sumiço de Glaudir e que devia fazer alguma coisa, puxou a corda do seu arco, armando-o com uma flecha-safira. Não pensou em mirar, apenas atirou, determinado. A seta zarpou, zunindo acelerada, e acertou o ombro negro do inimigo. Pareceu brilhar, deixando um fino rastro de luz, e imobilizou o braço atingido, obrigando-o a soltar a espada. Hargot aproveitou o momento e correu para feri-lo, mas o Servo das Sombras deu-lhe uma pancada com o braço sadio, jogando-o para trás do mesmo modo que fizera com Abidel.

Onde está ele? — gritou o cavaleiro. Arrancou a flecha azul e arremessou-a furioso contra o chão de pedra.

Docus sabia que ele se referia a Glaudir, mesmo assim, se escondeu na rocha, mantendo uma flecha no arco enquanto encolhia-se.

— Nunca vai encontrá-lo — respondeu Abidel, apontando a arma. — Saia daqui e nunca mais volte!

Não me interrompas, bruxo! — gritou o inimigo, avançando em sua direção.

Para o azar do Servo, Abidel guardava um truque na manga.

Abaron enéritha! — dito isso, fincou a espada na terra e executou seu feitiço.

Um raio rubro percorreu a caverna na direção do cavaleiro, ardendo em chamas. O clarão chamuscou o solo e saltou faíscas tremeluzentes, como se uma fogueira de repente se acendesse. Espantados e admirados, Docus e Hargot observaram o Servo cair de joelhos.

Acreditas que podes vencer-me com essa magia? — riu o espectro. Apoiou-se na espada com a mão direita e levantou-se. — Sou muito mais poderoso do que pensas.

Mas Abidel era esperto e sábio, já tinha certeza de sua própria vitória.

— Tolo! Todo esse tempo, eu só estava distraindo-o.

Distraindo-me? — o fantasma o encurralou no fundo da caverna, colocou-o contra a parede. — Esses ivirezes não podem ajudar-te. A morte é inevitável.

— Não, espectro. Só estava distraindo-o até que a chuva parasse.

O Servo das Sombras não olhou para trás, temendo que Abidel o atacasse quando o fizesse, por isso, não viu de início o que lhe sobreveio. Uma nuvem planou sobre ele e desceu em rasante, cortando-o com garras afiadas e gritando vitória. Os Guardas de Abidel ouviram o seu chamado e chegaram logo após a chuva, preparados para defender seu mestre. O espectro correu adiante, mas os pássaros o seguiram, ferindo seus olhos avermelhados.

O cavalo retornou e o cavaleiro saltou na sua garupa. Fugiu apressado para fora da gruta, deixando pegadas no solo enlameado. Os pássaros guardas não precisaram segui-lo e permaneceram na caverna. Glaudir, que ficara ao lado da entrada, viu a sombra passar por ele com um ar mortífero e sumir nas árvores da floresta. Sentindo-se aliviado, seguiu de volta e observou seus companheiros na escuridão da caverna.


Abidel acariciava o bico de uma de suas aves, um falcão acinzentado e salpicado de manchas pretas. Docus saía de trás da rocha úmida, recolocando a flecha na aljava com o olhar admirado para o velho. Quando estava fora da caverna, Glaudir não sabia o que se passava lá dentro. Apenas ouvira os tinidos das espadas e um estrondo, seguido por um clarão avermelhado. Avistando as aves que se aproximavam, abaixara-se para não ser atingido e esperara o cavaleiro sair.

Ao aproximar-se dos três, percebeu que seus companheiros não olhavam para ele e nem demonstravam sinais de que ele estivesse ali. Lembrou-se de ter tocado na ondori quando a escuridão havia devorado a caverna e reparou que fizera uso da sua magia. Abidel falara que ela podia deixar seu portador invisível sempre que ele quisesse, e isso realmente acontecera. Após o clarão relampejante, o qual expulsara a sombra, Glaudir desaparecera num piscar de olhos e correra para a saída. “Então, é isso o que ela faz!”, pensou o ivirez, espantado. Mas fazer seu dono desaparecer era apenas uma das mágicas que a ondori era capaz de realizar. Ainda haviam outras mais ameaçadoras, cujo poder Glaudir não desejaria usar se soubesse da existência delas.

Tocando outra vez na ondori, ela emitiu um fino traço de luz e os companheiros deram um salto para trás assustados, armando-se outra vez. Abidel soltou uma risada. Glaudir tremia de frio, encharcado por ter ficado fora da caverna, onde a chuva caíra impetuosa. No chão da gruta, uma marca de fogo formara um círculo, no mesmo lugar onde o inimigo havia sido atacado pelo raio do velho. Abidel enfiou a longa espada na bainha, seus olhos no peito de Glaudir, para a ondori.

Pode trazer a luz, cujo brilho, um dia, trará o dia na mais eterna noite — relembrou ele.

Docus se aproximou do companheiro, curioso pelo desaparecimento. — Para onde você foi depois de ter sumido?

— Fugi para fora da caverna. Foi a primeira coisa que pensei e, quando me dei conta, já estava escondido ao lado da entrada.

— E bem escondido, não estava? — exclamou Hargot, olhando-o com espanto. Abidel se dirigiu a seu arco, ainda caído, e manteve-o na mão. O semblante preocupado agora era um misto de dúvida.

— Como ele nos encontrou?

— É quase impossível — refletiu Hargot. — A última vez que os vi foi em Havis, e eram três.

— Talvez tenham seguido Lúminar — questionou-se o feiticeiro enquanto tentava ver para onde o Servo das Sombras havia partido.

— Também impossível. Tomamos cuidado, ficando o mais longe que podíamos das estradas. A única que sobrevoamos foi a Oestrada, mas por muito pouco tempo. Além do mais, não podem segui-la por causa de Aradon.

— Aradon? Quem é Aradon? — perguntou Glaudir. Hargot já havia o mencionado na Cachoeira Ant, mas o ivirez não fazia ideia de quem era.

— Aradon é um grande cavaleiro que protege parte da Oestrada, quando esta cruza a Cordilheira de Andrus. Pelo que contam as histórias alvânicas, é um verith que vive escondido nas montanhas. Seu cavalo é o mais veloz do mundo, sendo Aradon o guerreiro mais forte de Aragus, imortal e mensageiro dos verith, os Grandes Celestes. Por ali, ele não permite a entrada de nenhuma criatura espectral em Haldom. Mas uriarques, trolls e vargires são permitidos, uma vez que não é seu dever lutar contra os seres de Aragus, mas contra os Seres da Sombra.

Abidel dirigiu-se para a saída da caverna, onde o solo estava escorregadio e coberto de lama. Poças e córregos sujos corriam colina abaixo.

— Peguem as mochilas e tirem um pouco de comida. Precisamos sair daqui o mais rápido possível. Depois de comermos, vamos viajar sem parar e com passos largos, entenderam bem?

— Sim, mas por quê? — indagou Hargot, correndo para a mochila ao lado de Glaudir. Docus se aproximou de Abidel e passou a observar a terra.

— Vamos conversar enquanto andamos. É arriscado permanecer nessa caverna. Docus se assustou ao perceber que as marcas do cavalo sumiam aos poucos, não por causa da água e tampouco por causa da lama: — As pegadas estão sumindo.

— Não é nenhuma surpresa — disse-lhe Abidel. — Os Servos das Sombras não são dessa terra. Deixam rastros só temporariamente, por isso, quase ninguém consegue caçá-los.

— A sua terra é a terra dos espectros, a Terra da Sombra, não é? Então como vieram para Aragus?

— Sireyg é um necromante. Sabe o que faz um necromante? Invoca espíritos.

— Mas não era tão poderoso quanto pensei — exclamou Docus.

— Quem? Sireyg ou o Servo? Se for o Servo, não caia na ilusão que passam. São mais poderosos à noite, quando não há luz e, portanto, a Terra da Sombra se aproxima melhor espiritualmente de Aragus. Não é à toa que os uriarques perambulam às escuras. Já Sireyg, nem tente pensar sobre seu poder, pois sempre será maior e pior.

— Mas, então, por que vamos andar agora? — Docus virou os olhos para uma clareira, avistando o céu. — Já vai anoitecer!

— Exatamente. Com certeza o Servo das Sombras vai retornar e estaríamos encurralados aqui. E se vier com ajuda? O melhor é enfrentar a floresta e fugir o mais rápido que pudermos. Qualquer um se perderia à noite se não estivesse com a minha presença. Vá comer, Docus, e deixe o arco armado. Acredito que o tiro no Servo não será seu último hoje.

Comeram apressados e, logo em seguida, Glaudir e Hargot puseram as mochilas sobre as costas. Ao saírem da caverna, quase escorregando no solo de lama, deram de cara com a noite da Floresta das Grandes Árvores.


Era a primeira noite de lua crescente, mas esta não era vista devido ao arvoredo que cobria a abóbada celeste. As árvores haviam se metamorfoseado em monstros gigantes, agora úmidos e molhados. Com frequência, Abidel aconselhava para não deixarem pegadas, mas era impossível; quase caíam escorregando nos musgos e no barro cheio de água. Sombras passeavam nos recantos da floresta e alguns animais noturnos fugiam ao verem os quatro aventureiros. Seguindo uma trilha repleta de poças, os viajantes temiam que os inimigos conseguissem encontrá-los. Para falar a verdade, ela não se assemelhava em nada com uma trilha, com tantos matos compridos, musgos e plantas rasteiras, tudo encharcado graças ao véu que a nuvem derrubara.

Atrás de Docus, Glaudir estava seguro em relação a não bater o rosto em uma árvore, mesmo com a escuridão ocultando e unindo-as, transformando-as em paredes altas e deformadas. O frio pairava como um manto de sono, carregando uma fina névoa para dentro da mata. Glaudir tinha medo de olhar para a neblina. Como um grupo de fantasmas brilhantes, ela o observava, assobiando num ritmo monótono e fúnebre enquanto se aproximava.

Haviam lugares assustadores na floresta com um solo mais elevado, remexido. Glaudir começou a pensar que abrigavam mortos. Essas baixas e malfeitas colinas lhe traziam à mente uma antiga tradição dos ivirezes, especialmente da família Ahapozi — uma das famílias mais velhas de Haldom. Era seu costume plantar uma árvore sobre o parente falecido, na qual, acreditavam, seu espírito renasceria. Berind foi quem lhe contara isso por pertencer à família Ahapozi, sendo um dos seus últimos descendentes. Ainda, dissera que em Haldom havia pequenos bosques que, na verdade, se tratavam de cemitérios arcaicos. Tal costume já estava desaparecendo, mas permanecia guardado por vários ubarezes da Floresta Talpek. Tornara-se lenda para assustar crianças e impedi-las de entrar nas florestas. Entretanto, Glaudir já presenciara desafios tão aterrorizantes que começava a acreditar na sua veracidade. Quem sabe aquela região da floresta não fosse mesmo um cemitério?

O ivirez reparou o brilho das estrelas da ondori esquentar em seu peito. Docus parou de repente, e Glaudir bateu em suas costas. Abidel estava mais à frente, imóvel como uma rocha entre as árvores, com o olhar fixo no caminho.

— Está escuro demais aqui — disse ele. Desembainhou a espada, produzindo um ruído igual a um sussurro agudo. Apontando-a ao céu, pronunciou palavras mágicas. — Envycalma dicílir. Faça-se luz!

A arma tiniu e empalideceu-se como se estivesse refletindo o brilho da lua. Na cor de um relâmpago, iluminou fracamente o local com sua luz trêmula, criando um círculo branco ao redor de Abidel. Usando-a como uma tocha, o feiticeiro voltou a andar entre as árvores gigantescas.

— Não devemos parar por muito tempo! — advertiu, seguindo em frente com a espada na mão.

Iluminando o percurso, Abidel clareava as árvores molhadas com pouca luz para não chamar atenção. O brilho não trazia mariposas, o que era ótimo para os ivirezes que permaneciam hostis àqueles seres pequenos e voadores. Ao bater as asas entre os galhos negros, uma coruja piou, seus grandes olhos redondos brilhavam diante do clarão da espada. Docus aguardava ansioso o próximo truque do feiticeiro que, embora parecesse um urso voraz, demonstrava no rosto a sabedoria incalculável que alcançara ao longo do tempo.

Sem mais pios, o silêncio os envolveu enquanto a escuridão continuava a consumir as árvores ao seu redor A névoa havia partido sem deixar rastros, entretanto, não levara o medo consigo. Os passos dos ivirezes chocalhavam no chão, bem fracos, inaudíveis se comparados aos passos fortes e pesados de Abidel. Sem perceberem, a trilha sumiu de seus pés e, sem parar para pensar, Abidel desviou e seguiu um outro rumo entre o negrume da noite, acompanhado pelos três ivirezes.

Arbustos que alcançavam até mesmo os ombros de Abidel esconderam o terreno, suas muitas folhas faiscavam com a luz da espada a cintilar solitária naquele trajeto sem fim. O feiticeiro estava preocupado, as sobrancelhas curvavam-se qual um cicatriz. Parou sem aviso algum por um tempo curto, apenas para colocar o arco nas costas e cobrir a cabeça com o capuz. Sua capa se prendia nos arbustos e as bordas douradas ficavam quase brancas ao toque do brilho mágico.


As pernas começaram a doer. Glaudir pensou já terem passado horas naquele percurso sem chegar a lugar algum. Abidel continuava a andar apressado, traçando vários desvios sob a sombra da floresta. Nenhum animal se via, nem era ouvido. A escuridão dominava com um silêncio aterrador. Docus diminuiu o passo, ficando ao lado de Glaudir para conversar com ele por um tempo.

— Tive um sonho esquisito essa tarde. — Com a bengala na mão, Glaudir não precisou pedir para ele contar, apenas mostrou um olhar de curiosidade. — Eu estava sozinho em um ermo, chamando por vocês, mas a voz não saía de minha boca. Então, apareceu um velho, vestido de trazes azuis, que tinha na mão uma bengala também azul, com uma pedra safira na cabeça do objeto. Pensei ser Abidel, mas não era por causa da roupa diferente. O velho olhou para mim e me encarou com os olhos brilhando, pareciam me procurar.

— Os sonhos são confusos — disse Glaudir. — Podem estar pregando uma peça em você.

— Assim espero. Você conseguiu ouvir o que eles falaram a sós?

Docus não havia falado seus nomes, mas Glaudir sabiam de quem eram.

— Infelizmente, não. Tomara que não seja má coisa.

O frio deu uma pancada em suas costas, e Glaudir virou o rosto para trás, temendo um provável inimigo. Não havia nada lá, apenas a névoa cor de prata sobre as raízes. Respirou fundo e sentiu a mesma sensação que sentira ao passar pelo suposto cemitério. “Outro cemitério?” Olhou para a ondori, e o medo perdeu força. “Não é nada. Nada.”

— Essa floresta é tão estranha, não é? — declarou Docus.

— Pavorosa — corrigiu o companheiro.

— Veja! — o issacerez apontou para a frente.

Um salgueiro terminava o trajeto, morto, apodrecido. Era oco por dentro e sua casca se desmanchava em pó. De seus galhos quebradiços, pingos escorriam e caíam sobre um círculo de pedras em torno da árvore. O salgueiro gritava com um grande buraco em seu tronco. Havia crescido numa clareira, mas a escuridão da primeira lua crescente o afogava. Docus correu para vê-lo mais de perto, entretanto, Abidel o puxou pelo braço.

— Não pise dentro do círculo! É uma armadilha.

— Armadilha? De quem? — questionou Docus, recuando um passo.

— De quem mais senão do inimigo?

— Mas como soube que estamos aqui?

Abidel se aproximou da árvore, iluminando-a com a espada. O salgueiro observava os quatro, imóvel. — Não foi feita para nós. Foi feita para uma outra coisa. Olhem!

Apontou com a arma para o meio do círculo, bem próximo da árvore morta. Manchas molhavam o solo sem vida e um líquido, ainda fresco, descia como corredeira às raízes do chorão. Graças à luz de Abidel, o líquido — que parecia água naquela escuridão — revelou sua natureza.

— Sangue — suspirou Hargot, enojado com a palavra.

— Exato. E com isso, sei por que não consigo ir a lugar algum. Estávamos andando em círculos o tempo todo. Executaram um feitiço aqui, num lugar perfeito. E a criatura usada, felizmente, conseguiu escapar. — Mostrou que o sangue cobria boa parte das pedras, mas haviam rastros avançando floresta adentro. — Vamos! Temos que seguir os rastros. Por sorte, a criatura deve ter sabido que os cavaleiros estavam voltando e fugiu. Não parem um segundo sequer!

Abidel saltou para dentro dos matos e sumiu, e se não fosse por sua espada, ninguém conseguiria segui-lo. Tão rápido quanto ele, Hargot e Docus correram em silêncio atrás do velho, esquecendo de Glaudir e desaparecendo na floresta.


Glaudir tampouco ouvira os companheiros. Desde que havia avistado o velho salgueiro, caíra em encanto e paralisara-se à sua frente. A madeira quebradiça rangia e a boca escancarada da árvore vomitava escuridão. Uma voz suave sussurrava em meio ao som do vento. Glaudir não sabia nada do que estava acontecendo. Esquecera os companheiros, esquecera a missão, esquecera tudo. Só havia ele e aquela árvore morta, os dois sozinhos e perdidos na noite. Começou a percorrer a borda do círculo, seus olhos presos no salgueiro. A voz o chamava.

Não havia mais medo, só a certeza. Alguém lhe dizia para entrar no círculo. Se avançasse, Glaudir saberia o porquê.

Venha. Venha para mim, Último Guardião.

Era apenas um passo. A névoa cadavérica rastejava em suas costas, empurrando-o.

Patadas de cascos. Cada vez mais perto.


Os arbustos arranhavam os braços de Docus em sua corrida. Hargot e Abidel permaneciam à sua frente, guiados pelos rastros de sangue a brilharem no percurso. Ofegante, Docus se voltou para Glaudir. O amigo não estava ali. Parou, esperando que ele o acompanhasse. Nenhum movimento entre as árvores. Nada. A escuridão cobria a floresta e os outros dois sumiram desesperados, deixando Docus sozinho nas sombras. Ao perceber que Glaudir não viria, o issacerez correu para encontrá-lo, armando o arco verde com uma flecha-safira. “Não acredito que nos esquecemos dele!”


Os sussurros distantes soavam mais alto conforme os cascos estrondavam como os trovões da tempestade. Um assobio chamou por Glaudir. Ele respondeu erguendo o pé para dentro do círculo. O salgueiro o incitava, lhe dava forças. Os pingos dos galhos podres salpicavam no chão em monótona harmonia. Ploc, ploc, ploc.

Docus saltou para cima de Glaudir e os dois caíram rolando num barranco enlameado. Tonto, o ivirez arregalou os olhos ao se dar conta do que estava fazendo.

— Faça silêncio e se esconda! — disse Docus, encolhendo-se. Glaudir fez o mesmo e olhou para o topo, para perto do salgueiro assombrado.

Ecos de relinchos cortaram a neblina sobre o barranco. Cavalos pretos pararam ao lado da árvore e espiaram cuidadosamente o local, sem perder um detalhe. Glaudir e Docus se encolheram ainda mais para não serem vistos. Prenderam a respiração. Fumaça saía das narinas dos cavalos, como se elas produzissem a névoa da floresta. Em um piscar de olhos, os Servos da Sombras cavalgaram para longe, ocultos pelas árvores negras.

— Vamos! — sugeriu Glaudir, levantando-se com pressa.

Sem direção, os ivirezes correram o mais distante possível dos inimigos espectrais. O arvoredo passava como um vulto; os viajantes olhavam para todos os lados para não serem pegos de surpresa. Com o arco armado, Docus ia na frente, aguçando os ouvidos e a visão. Mais barrancos e encostas dificultaram a corrida, entretanto, conseguiram uma boa distância dos dois cavaleiros. Exaustos, pararam para respirar, e Glaudir se apoiou nos joelhos.

— Onde estão os outros? — aproveitou para perguntar.

— Estávamos seguindo aquele rastro de sangue — ofegou Docus. — E aí, eu voltei para procurar você.

— Não pode ser! — gritou o outro.

O salgueiro morto estava bem à sua frente, sussurrando como um espírito vagante. Do mesmo modo que Abidel falara, perceberam que não importava para onde fossem, estavam andando em círculos no fim das contas. A árvore demoníaca continuava ali, parada, chamando-os! Jorrava sangue, assobiando enquanto seus galhos gotejavam.

— Não somos bobos para cairmos nisso outra vez! — exclamou Docus.

Dito isso, com um estranho desejo de vingança, puxou a corda do arco e atirou. A flecha brilhou azul, atravessando o círculo de pedra e acertando em cheio o tronco da árvore assombrada. Na mesma hora, um relâmpago iluminou o espaço, e um grito de dor quase estourou seus ouvidos. Os ivirezes caíram para trás com as mãos nas orelhas. Viram o salgueiro chorar e queimar, murchando devido às chamas que a flecha-safira deixara.

— Temos que seguir o rastro — lembrou Docus, pegando o arco de volta.

Tirando os olhos do incêndio aterrador, os dois fugiram em disparada através da vegetação. As sombras tremiam diante da grande fogueira. O rastro de sangue seguia sempre em frente e os ivirezes não tinham outra opção além de segui-los. Para dificultar o trajeto, a noite escondia pedras soltas, e a lama deslizava sob seus calçados. Sem poder ver quase nada, continuaram seguindo adiante sem parar, nem olhar para trás. Estalos e um brilho trêmulo vinham da direção do salgueiro enfeitiçado, marcas das chamas da flecha-safira. A casca chiava e ardia naquele fogo mortal. Os galhos se precipitavam no círculo. Faíscas douradas voavam ansiosas rumo ao céu negro para brilharem entre as estrelas.


Exaustos e amedrontados, os ivirezes temiam que suas pernas parassem de correr devido ao cansaço. Algo os dizia que estavam sendo seguidos, mas nenhum barulho de cascos soava na floresta. Ao passarem pelo que parecia ser uma faia, um brilho de esperança cintilou em seus olhos. Uma lâmina prateada vinha em sua direção, iluminando o caminho. Apressaram-se ainda mais para alcançá-la e a silhueta de Abidel ganhou nitidez. Ele parou para enfiar a espada mágica na bainha. Com isso, a escuridão retornou, cegando Glaudir e Docus. Apenas a sombra disforme do feiticeiro era vista.

Abidel retirou o arco das costas e armou-se. Apontou para os dois, pronto para atirar.

— Abaixem-se! — ordenou.

Sem entender muito bem, Glaudir e Docus rolaram no chão e quase foram pisoteados por um cavalo obscuro. Abidel atirou e acertou em cheio o peito do inimigo, porém o tiro não foi forte o suficiente para derrubá-lo do animal. O Servo das Sombras recuou e ficou ao lado do segundo, fitando os quatro viajantes entre as árvores gigantescas.

Logo, um vento forte arremessou as folhas caídas e uma voz esquisita começou a falar, bem baixa, distante. O som gelou os ossos de todos, assobiava dentre a brisa da noite.

Deixem-nos em paz por um tempo. Encontrem a voadora!

Dito isso, os Servos das Sombras desapareceram no bosque, cavalgando nos cavalos espectrais e levando o vento consigo. Apavorado, Docus levantou-se e se aproximou de Abidel. Glaudir se certificou de que os inimigos não voltariam, olhando cuidadosamente o percurso que eles haviam tomado.

— Por que vocês não vieram? — reclamou Hargot.

— O salgueiro. Não sei o que houve, mas ele…

— Temos que acender uma fogueira e descansar aqui — interrompeu Abidel, parecia não querer que o ivirez prosseguisse com a justificativa. — Não podemos andar com o risco de nos esbarramos neles na nossa frente. Hargot, ajude-me a encontrar lenha aqui por perto.

— Não vai adiantar, Abidel. Tudo está molhado por causa da chuva.

— Tolice minha! — riu o feiticeiro. — Então, vamos descansar. Vou ficar de vigia. Vão, durmam! Não desperdicem essa chance que nos deram.

Já era madrugada e o seu frio chegava sorrateiro, por isso, foi difícil dormir. Deitados, os ivirezes observavam as folhas e galhos a cobrirem o céu noturno enquanto o silêncio se arrastava na Floresta das Grandes Árvores. Não queriam dormir, nem pensavam nisso, pois o medo de os Servos das Sombras aparecerem os inquietava. Aquela havia sido a noite mais misteriosa de todas; o salgueiro, o estranho aparecimento dos inimigos e a flecha-safira que incendiara a árvore enfeitiçada os intrigavam. Sem falar que os Servos das Sombras haviam lhes deixado em paz sem nenhum motivo aparente. Isso tudo junto nunca os permitiria dormir.

— Eu olhei para o salgueiro — respondeu Glaudir para Hargot, deitado ao seu lado. — E, depois, não era capaz de me controlar.

— Talvez o feitiço tenha sido preparado só para o portador da ondori. Isso explica por que não fomos encantados por ele.

— “Venha para mim, Último Guardião”, foi o que ele disse. Então, já sabem quem está com a ondori. Sabem que sou eu e vão me perseguir.

— Vamos protegê-lo, não se preocupe — disse Hargot com um olhar fraternal.

— E eles queriam encontrar outra coisa. Não estavam à nossa procura.

— Pode ser que seja a mesma criatura que deixara o sangue no círculo e aquele rastro. Deve estar ferida.

— Qual será o pobre animal? Se for um, é claro.

Docus interrompeu a conversa.

— Não é um animal. A criatura é um monveran. A monveran Húria, A Voadora.


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