Paulo Moreira Escritor

Capítulo 2 OSDD - O Velho de Umilzend

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Era o fim do primeiro dia de viagem, sendo este 23 de março. A noite continuava cobrindo o céu e os ivirezes cavalgavam devagar. O dia fora difícil para Tick, bem cansativo, mas não para Docus e Glaudir que já eram acostumados a viagem a pé. Até os pôneis mostravam sinais de cansaço. Segundo a lua cheia, já eram dez horas da noite. Não estava escuro nem muito frio, mesmo assim, decidiram parar para dormir. Havia poucas árvores ali, então amarraram Raio, Saltador e Sombra em uma baixa mas com vários galhos grossos no alto. Ao norte, via-se um rio bem largo e de correnteza forte, onde o reflexo da lua brilhava nas águas. Estava bem próximo e os três viajantes passariam por ele no próximo dia.

— Dormir no chão — resmungou Tick. —, cheio de insetos, animaizinhos e grama. Grama coça!

— Cubra o chão com lençóis — sugeriu Glaudir. — Eles estão nas mochilas. Tick obedeceu e Docus e Glaudir fizeram o mesmo, o primeiro logo dormiu e os outros dois ficaram sentados conversando, pois Glaudir gostaria de saber mais sobre sua missão.

— Os issacerezes me disseram — falou Docus. — que a monveran Lúminar vai aparecer nas montanhas desde que contei para eles sobre um sonho que tive.

— E que sonho era esse?

— Um dragão branco e de asas de águia brilhava nas montanhas — respondeu Docus. — E um sol surgia na Cachoeira Ant. Eles acreditam que seja a monveran Lúminar, mas desconfio que não queiram só vê-la ou saber que ela está em Haldom.

— Você acha que querem mais alguma coisa? — indagou Glaudir.

— Sim. Meu irmão Dándus me contou que ouviu sem querer os issacerezes falarem de um “sangue de Lúminar” para dar a Havar, a Morte.

— Havar?! — assustou-se Glaudir, quase caindo no chão de medo. — Mas esse é o pior de todos, um sanguinário devorador de almas.

— E é isso que eu acho estranho. Por que os issacerezes fariam isso? Mas Dándus disse que não tinha ouvido direito, então, talvez esteja errado.

— Porém, pensando bem, o sangue de Lúminar pode ser a sua morte. Não dizem que Lúminar, a Luz, e Havar, a Morte, são inimigos, então os issacerezes querem matá-la?

— Não podemos permitir isso! — disse Docus. — Temos que voltar. Se Lúminar estiver mesmo lá, os issacerezes podem querer matá-la!

— Não posso voltar — afirmou Glaudir.

— Por que não?

— Meu pai esconde uns segredos e disse que eu iria descobri-los se eu fosse para a Cordilheira. Eu preciso saber sobre os seus mistérios. Por que um pai esconderia isso de um filho?

— Não sei — disse Docus, diminuindo o tom de voz e abaixando os olhos. — Não sei mesmo.

— Você sabe sobre os andarilhos das sombras? — perguntou Glaudir, com Ant na memória.

— Sim. Ao menos um pouco. São ladrões viajantes que preferem andar à noite e às escondidas.

— Há um amigo de meu pai que acho que é um. Eu o segui, na noite antes de ontem, e vi uns cavalos assustadores que o atacaram, mas prefiro não falar isso agora, sobre esses animais. Ant, como eu chamo o amigo do meu pai, pois não sei o nome dele, me perguntou se eu estava servindo os issacerezes, me ameaçando. Talvez ele seja mesmo um andarilho das sombras, mas se for assim, meu pai também tenha sido ou é, então os segredos dele tenham a ver com eles.

— Esses andarilhos são nossos inimigos e parece que fazem parte de uma sociedade ou algo do tipo.

— Então se são inimigos de vocês, issacerezes, são nossos amigos, pois pode ser que não queiram matar Lúminar, como os issacerezes querem.

— Ou simplesmente, os andarilhos querem matá-la e os issacerezes impedi-los.

— Ou devam esquecer isso e ir dormir! — disse uma voz. Era Tick, ainda acordado. — A nossa missão não envolve esses andarilhos e esse negócio de monverath e issacerezes. Eu vou para ver a Cachoeira, Glaudir para descobrir o mistério do pai e Docus só para nos vigiar e certificar que completamos a missão. Se virmos Lúminar, que bom ela está em Haldom, e se não querem a provável ou a improvável morte dela, é só mentirmos, dizendo que não está lá. E eles vão acreditar porque só nos mandaram para a Cordilheira dos Andrus por causa do sonho de Docus, o que pode não ser realidade. Agora vão dormir! Eu não consigo descansar com essa barulheira toda!

Glaudir riu um pouco mas obedeceu, deitando-se, e Docus também. Com a face virada para a lua branca e grande no céu noturno, Glaudir lembrou-se de Sólut. Ela parecia um grande olho a observar os viajantes solitários de Aragus. E foi sobre isso que o ivirez cantou uma pequena música, bem baixo, enquanto os grilos cantavam distantes.

Nas fronteiras terrenas, vou encontrar Verdosos campos e águas cristais A lua de prata nos faz descansar Eterna ajuda a andantes mortais.

Grande olho do céu, em meio a mil brilhos, Ficas triste ao ver os homens sozinhos? Sós aqui vagueiam os andarilhos, Somente a trilhar os próprios caminhos.

Oh lua…

— É uma bela música, mas eu quero dormir! — resmungou Tick, virando-se deitado. — Amanhã vamos atravessar o rio, deixando Havis e não havendo muitas estradas para seguirmos, o que vai dificultar o nosso trajeto.

— É só seguirmos o sol — disse Glaudir. —, que nos levará ao oeste, para as montanhas.

— Obrigado pelo conselho — disse o outro. — Mas eu tenho um pequeno desejo: uma boa noite, por favor. Dessa vez, Glaudir obedeceu.

Quando amanheceu, os três acordaram preparados para a viagem. O sol ainda estava baixo no momento em que montaram em seus pôneis fortes agora mais dispostos. Ao encontrarem o rio, fizeram uma curva para o sul, ao lado de suas águas, a fim de encontrarem uma ponte ou uma parte mais rasa, pois aquele rio era muito profundo e de águas turbulentas, podendo levar os pôneis e os ivirezes sem esforço algum. Sua correnteza era ouvida frequentemente, em chiados fortes, enquanto carregava gravetos e folhas. Preferiram não cavalgar perto do rio, uma vez que havia lodo nas beiradas e várias rochas escorregadias, o que era um perigo para eles e seus animais, além de a beirada ser íngreme.

Mais ou menos às oito horas encontraram uma estrada marcada por pedras nas bordas e que passava ao lado da torrente. Com certeza levaria a uma ponte ou a Mankdrive — um lugar simples mais ao sul, bastante conhecido pela tranquilidade e pela cerveja.

Passou-se uma hora e meia até encontrarem a tal ponte. Fora feita em uma parte mais rasa do rio — mas ainda não era tão raso para que pudessem atravessá-lo — em uma distante época de seca. Era chamada de Ponte de Varadrin, pois fora este o seu criador, quem a desenhara com a ajuda de um humano. A Ponte de Varadrin era longa devido à espessura do rio, e também um pouco alta. Colunas grossas e listradas lhe suspendiam sobre os reflexos, todas com musgos amarronzados por causa da água forte que as tocavam. Possuía várias colunas em cima, mas essas eram mais finas, que erguiam uma outra travessia, sem proteção alguma nas beiradas.

Assim que pisaram na ponte, repararam uma estátua branca ao lado da beirada. Não era tão alta, nem seu rosto tão definido. Parecia um ivirez. Esticava seu braço para a frente mantendo a palma da mão aberta. O outro curvava-se sobre a cintura numa posição séria. Docus se aproximou e observou a mão. Estava escrito:

— “Estás deixando Havis, que Lúminar te ilumine.”

— Esta é a Ponte de Varadrin — disse Tick. — A única travessia para sair de Havis em direção ao oeste. São duas pontes, uma na qual pisamos e a outra sobre nossas cabeças. A de cima foi construída para que, quando o rio enchesse e inundasse a de baixo, a travessia ainda pudesse ser usada. — Tick apontou para duas escadarias de pedra, bem curtas, na entrada da ponte. Os degraus levavam à parte alta. — Sorte nossa que não houve uma enchente. Se houvesse, teríamos que abandonar nossos pôneis para subirmos até lá em cima.

Deixaram a estátua e cavalgaram de novo. Os cascos de Sombra, Raio e Saltador batiam no solo duro, ploc-ploc, ploc-ploc. Tick ia na beirada, observando o rio se mover lá em baixo contra as colunas que seguravam a Ponte de Varadrin. Docus estava próximo a ele, já Glaudir, ia exatamente no meio da ponte, decidido a não olhar àquelas águas barulhentas. “Ao menos, não vamos pela de cima.”, pensava ele de olhos fechados. Por um momento, a travessia alta balançou, levada pela corrente, e ele arregalou os olhos. Era só uma ilusão. O ivirez respirou forte e tentou pensar em outra coisa, além de onde estavam. Apertou a bengala de seu pai e controlou o medo, vendo que já estavam saindo da Ponte de Varadrin.

— A correnteza está diminuindo — disse Docus, ao pisarem no solo de terra mais uma vez.

“Finalmente”, pensou Glaudir.

— Vamos seguir o rio — continuou o issacerez. — São cinco lêzis até a curva para o oeste. Se não pararmos, passarão mais ou menos nove horas até encontrá-la ao cair da noite.

— E depois? — perguntou Tick, meio indisposto. Olhou para Glaudir, pois confiava mais no amigo quando o assunto era viagens, mas o ivirez não respondeu, dirigindo a face voltada à alta ponte para o céu azul — ele ainda sentia o balanço…

— Depois, dormimos — respondeu Docus. — Amanhã, seguiremos a curva que nos levará à Cachoeira Ant.

— Então, voltemos para a nossa missão — disse Glaudir, ao recuperar o fôlego. — Sombra, vamos ao Sul!

A altura sempre deixou Glaudir enjoado e tonto, sendo um de seus medos. Talvez fosse esse o motivo para ele não ter ido às montanhas.

Exatamente como Docus previra, ao cair da noite alcançaram a curva bastante notável das águas. Havia ali o encontro do pequeno rio que vinha do lago Mankdrive com o maior que se dirigia ao lago Morgoly e, mesmo assim, as águas eram bem calmas. A penúltima lua cheia custaria a aparecer, surgindo do leste para brilhar entre as estrelas. Glaudir tirou de sua mochila o cachimbo que o pai, Glaucor, lhe dera. Observou o animal alado, cravado no objeto verde com as asas abertas, e notou que ele brilhava ao mexer o cachimbo sob os astros, ou seria apenas impressão… Logo percebeu que havia algo dourado, brilhando também, bem abaixo do monveran. Parecia ouro em meio a um desenho de prata pálida. Mas o brilho dourado, como ele pôde notar, não eram desenhos, mas runas bem definidas.

— I e a… — falou baixinho. Depois, disse para Docus, alteando a voz para que Tick também escutasse: — A monveran Lúminar é branca, não é?

— Sim — respondeu Docus. — É uma das monverath mais belas e dizem as histórias que sua pele brilhava à noite como uma estrela.

— Estranho… Meu pai me deu esse cachimbo e, acho que é ela que está gravada aqui. Tem as runas i e a também, sabe o que significam?

— Não faço a menor ideia — respondeu Docus. Glaudir olhou para Tick e este fez sinal de que, assim como eles, não sabia de nada.

— I e a… — murmurou Glaudir para si mesmo enquanto guardava o objeto intrigante.


No outro dia, não houve muitas mudanças, a não ser pelo surgimento de altas gramíneas e árvores compridas com folhagens tingidas de um verde-claro, mesmo assim, essas eram poucas. Havia nuvens, todas cor de leite, mas o sol ainda dominava, erguido disposto no céu. Pararam com frequência, principalmente para encherem seus cantis com a água do rio ao seu lado e deixarem seus pôneis beberem.

Em um desses momentos, Tick pediu emprestado a arhevajika de Glaudir para fumar e seu amigo concedeu. Já tinha um cachimbo, por isso não precisou pedir o do outro. Glaudir não deixou de reparar a testa enrugada de Docus enquanto Tick soprava anéis de fumaça pela boca. O issacerez também não gostava de fumar. À noite, um vento frio soprou por um longo período, não deixando ninguém dormir, e a última lua redonda e pálida se esgueirava nas nuvens finas. “Pelo visto”, pensou Glaudir, “vai chover amanhã.”

Embora estivesse realmente nublado, a chuva não os alcançou. A primeira visão da Cordilheira de Andrus surgia bem pequena no oeste. Também aparecera um terreno verde muito mais próximo, onde uma estrada passava pelo meio, cortando as plantas. Estas eram enfileiradas e compridas. O rio passava ao lado das plantações como uma cobra esguia.

— Estamos chegando a Umilzend, — disse Tick. — uma fazenda de milho, quer dizer, a maior de todo Haldom. Além disso, ali se produzem maçãs, feijão, e tem criação de gado pequena, se comparada ao Ulincamp do leste, pequenina. O velho Coris é dono desses cinco lêzis de milharal cercado. Boa parte da produção é enviada pelos carroceiros à Mankdrive, a Cidade de Pedra, Grane e Havis.

— Como sabe de tudo isso? — perguntou Docus.

— Sei muito sobre produção e comércio — disse Tick, com um sorriso de orgulho no rosto. — Minha família é Rauvos, não lembra?

— E o que são os carroceiros? — perguntou o issacerez novamente.

— Os carroceiros… — disse Glaudir, interrompendo Tick que já ia começar a falar de novo. — enviam os produtos. Mas me espanto em saber que um issacerez que costuma viajar não saiba disso.

— Já disse que ainda estou no início do treinamento — retrucou o issacerez, apontando para a insígnia. — E, além do mais, eu viajava pelo centro de Haldom, perto do nosso, como posso chamar, campo de treinamento: a Sociedade dos Issacerezes, que fica próximo às Grandes Árvores.

— Bom saber, — disse Tick. — Mas, sem querer puxar assunto, meu pai, Badiws, é o chefe de um grupo de Carroceiros, que, como chamamos, angars, em homenagem ao monveran Angar que era rápido, pois nossas entregas são velozes e os produtos chegam em boa…

— Não queremos saber sobre isso — disse Glaudir, deixando o amigo sem fala. — Queremos o mais importante, que sei que há.

— Tudo bem. Os angars levam mercadorias de Umilzend para Havis, e, além de o Velho Coris ser muito hospitaleiro, ele me conhece, o que quer dizer que ele pode nos hospedar em sua casa, se é que se pode chamá-la de casa.

— Como assim? — perguntou Glaudir, percebendo que Tick escondia alguma coisa.

— Você vai saber, meu amigo. Bem, — suspirou Tick. — não precisamos ir à estrada. Tem um atalho entre o milharal que conheço de olhos fechados. Sigam-me companheiros.

— Acho que já sei no que isso vai dar — suspirou Glaudir.

Tick guiou Saltador para a frente de Raio e Sombra. Glaudir ainda não descobrira um nome adequado para este último, na verdade, nem pensava mais nisso.

O verde daquela terra parecia aumentar conforme se aproximavam. Havia círculos em algumas partes do milharal com árvores bem ao centro, e as plantas estavam tão juntas que parecia não haver espaço para ser percorrido. Logo alcançaram uma cerca alta e farpada com arbustos trepadeiras e espinhosos escalando a maioria das estacas. Por um momento, Glaudir pensou ouvir latidos de cachorro distantes, do outro lado, mas não quis comentar.

— E então Tick, onde está o atalho? — perguntou Docus.

“Como se ele soubesse…”, pensou Glaudir, com um sorrisinho na boca.

— Ah, é óbvio! — disse Tick, observando a cerca. — As lembranças não estão muito boas, mas há uma pequena abertura entre a cerca que leva a um caminho esguio. Então, é só seguirmos a cerca para encontrá-la.

— Para qual lado? — disse Glaudir, olhando para os dois lados.

— É preciso perguntar? — disse o outro, colocando o cachimbo na boca. — Se formos à esquerda vamos ao rio, à direita, à estrada. Então, é à direita.

— Mas você disse que as lembranças não estavam muito boas… — falou Docus, suspeitando de algo. — Há quanto tempo você veio aqui?

— Bem, quando eu ainda era pequenino — disse o ivirez.

— O que?! — exclamou Glaudir. — O velho Coris não deve nem lhe conhecer, por que acha que ele nos hospedará?

— Ele vai me conhecer — disse Tick. — Todo mundo me conhece e não se preocupem, conheço bem Umilzend, não vou fazer com que nós nos percamos.

— Será? — suspirou o amigo, torcendo para que não acontecesse.

Os pôneis voltaram a cavalgar lentamente, seguindo para a direita com o milharal e a cerca ao seu lado. O sol os espiava do céu, fazendo suas sombras se esgueirarem para a fazenda, pois ainda era manhã, talvez nove horas. O vento agitava as folhas grossas das plantações, rugindo enquanto percorria os finos caules. Os vegetais eram tão altos que pareciam um muro verde se erguendo imponente para não deixá-los passar.

O tempo foi passando e aumentando as suspeitas de Glaudir de que seu amigo não tinha ideia de onde ficava a tal abertura. Felizmente, porém, ela foi encontrada. Não era muito larga, mas os pôneis conseguiram passar, pisando no caminho esguio, e era separada por duas estacas baixas. O percurso sumia no milharal ao fazer várias curvas ou subir algumas colinas e encostas. Definitivamente, não se via o fim daquela plantação, e tal fato deixou todos preocupados. Até os pôneis levantaram suas cabeças como se quisessem enxergar o fim do verde.

— Nossa! — exclamou Glaudir. — Você me surpreendeu, Tick. Pensei que não encontraríamos esse caminho. Infelizmente… — não conseguiu continuar, mas Docus o completou.

— Talvez não seja possível sair daqui.

— Relaxem! — disse Tick, não muito certo do que dissera. — É só seguir o caminho.

“Se ele nos levar a algum lugar…”, pensou o guia, confirmado pela expressão confusa em sua face.

A passagem era tão fina que os pôneis tiveram que ir um atrás do outro. O último deles era Raio, com Docus, o issacerez; o segundo, Sombra, com Glaudir, O Viajante, e na frente ia Saltador, com Tick, o apenas Tick.

Umilzend era grande, aparentemente uma terra de quatro léguas de oeste a leste, e de duas léguas e meia de norte a sul, e não era uma região perigosa. Mas o silêncio que os ivirezes sentiam, embora pareça impossível a nossos ouvidos, era perturbador. A única coisa que o quebrava eram o vento ao balançar o topo do milharal e as batidas abafadas dos cascos dos animais. Os dois muros ao lado, só com algumas brechas, impediam a visão do exterior. Os viajantes olhavam com frequência ao seu redor para se certificar de que não havia ninguém ali às escondidas. Mas com o tempo, os animais começaram a se acostumar com aquele local. De vez em quando, comiam as folhas compridas dos milheiros despreocupadamente. Os ivirezes não os censuraram, uma vez que o Velho Coris não poderia ser capaz de perceber aquilo naquela imensa plantação.

Não demorou para que Docus reparasse, enquanto descansavam vendo os pôneis se alimentarem.

— O Velho Coris — disse ele. — não deve bater muito bem da cabeça por deixar esse lugar sem guardas. É muito estranho ter essa fazenda sem nenhuma proteção além da cerca.

— É… Andei pensando isso também — disse Glaudir. — Quando estávamos lá fora, pensei ouvir latidos, mas acho que não eram nada de mais, pois se fossem cachorros, já teriam nos atacado.

— Droga! Eu esqueci — resmungou Tick, batendo a mão contra a cabeça.

— Por favor, não diga que há — implorou Glaudir, já prevendo o que ele ia falar.

— Claro que há — exclamou Tick. — O velho Coris tem uma criação de cachorros para vigiarem Umilzend. E ele não os mantém presos, todos estão soltos de noite e de dia.

— Mas eles têm a companhia de um guarda, não têm? — perguntou o issacerez. Infelizmente, Tick fez sinal afirmando que eles não tinham. — Mas se os cães atacarem, podem ferir os visitantes, então, precisam de um guia para impedir.

— Na verdade, — Tick ficou olhando para baixo. — os cachorros são treinados para não atacar aqueles que viajam pela estrada, mas sim aqueles que estão dentro da plantação.

— Boa ideia, Tick! — gritou Glaudir. — A melhor ideia de toda a sua vida. Nos levou para a boca dos cachorros! — Cale a boca! — ordenou Tick. — É melhor fazermos silêncio.

— Acho que já é tarde demais para isso — afirmou Docus.

Para o desespero dos ivirezes, latidos baixos foram se aproximando rapidamente. Os pôneis levantaram as cabeças e pararam de comer, atentos àqueles barulhos. Em uma parte, à esquerda, as plantações se mexeram, como se houvessem sido empurradas, e era dali que vinham os latidos e grunhidos.

— Estamos mortos — exclamaram os três ivirezes ao mesmo tempo.

Saltaram em cima de seus pôneis e bateram as rédeas. Os animais correram um atrás do outro com seus donos desesperados. De repente, dois cachorros pularam de dentro da plantação para o caminho e, por sorte, Glaudir, que era o último, não foi mordido. Eram musculosos e escuros, fazendo-o lembrar dos cães do guarda Tomín em sua cidade. Grunhiam e latiam como feras, e os ivirezes eram a sua caça.

Aos poucos, foram os alcançando, quase tocando a cauda de carvão de Sombra. O mais forte, com uma cicatriz no olho, grunhiu e mordeu o rabo do pônei. O animal relinchou. Alguns corvos da fazenda voaram assustados. Em resposta, Sombra deu um forte coice com suas pernas traseiras na boca do cão. O perseguidor caiu rolando para trás. Glaudir quase caiu também, mas permaneceu fixo nas costas do pônei. Com tudo isso, Sombra não continuou a seguir os outros. Fez uma curva rápida para a esquerda e entrou na plantação, penetrou o muro verde enquanto era seguido por um outro guarda animal de Umilzend. Não era à toa que o nome do pônei de Docus era Raio; ele estava na frente, distanciando-se de Saltador. Este último corria apressado, o suficiente para não ser mordido qual Sombra, seu parceiro sumido.

Inesperadamente, outro cão surgiu a frente de Raio, mas recuou ao perceber que poderia ser pisoteado. Tick puxou a rédea da direita e entrou no milharal, voltando ao caminho logo em seguida, para que o cachorro não o atacasse. Raio estava bem longe, protegido dos animais ferozes. Agora os latidos eram de três, o último deles mais fraco e bem atrás, pois o coice de Sombra na cara o deixara atordoado. “Vamos, Saltador!”, pensou Tick, “Vamos alcançar Docus. Mas onde estará Glaudir?”

Infelizmente, Tick logo se aproximaria de uma subida, o que diminuiria sua velocidade.

Docus, graças à rapidez de Raio, já alcançara o fim da elevação e, portanto, estava a salvo dos cães de guarda. Entretanto, como é óbvio, depois de uma subida há sempre uma descida, e aquela era bastante íngreme. Raio diminuiu os passos para não cair. Com cuidado, o issacerez guiou o pônei por lugares que sabia que eram seguros, descendo os dois assim sem nenhuma lesão. Parou o animal para ver onde estava Glaudir. Só havia reparado agora que o outro sumira. “Como vou supervisioná-lo se nem sei onde ele está?”, pensou o issacerez, “Tudo graças a Tick, e aí vem ele!”.

Era verdade. Seu companheiro surgira no topo da elevação com o apressado Saltador e, sem se importar com a inclinação do relevo, desceu como um esquilo com os cachorros no encalço. Docus chutou as ancas de Raio e voltou à corrida. O pônei de Tick escorregou algumas vezes e quase foi mordido pelas três feras. A passagem foi se tornando mais estreita, e as folhas e caules da plantação começaram a se chocar contra os ivirezes. Mas, antes de ela se fechar completamente, os fugitivos alcançaram um círculo limpo, com duas macieiras no centro. Docus parara de repente. Mais quatro cães vieram à frente, cercando-os enquanto latiam e grunhiam. Os ivirezes ficaram um ao lado do outro sem saberem o que fazer. A perseguição canina acabara. Agora estavam encurralados.

Um pouco antes do momento no qual Docus se distanciara de Tick, Glaudir resmungou um “muito obrigado, Tick” enquanto tentava fugir do monstro que o perseguia saltando com suas pernas fortes e compridas. Colocou o braço à frente dos olhos para se defender do milharal, sentindo as cacetadas dos galhos e os cortes das folhas. Sombra amassava a plantação com as patas, se importando mais com o cão de caça vermelho que o acompanhava do que com os ferimentos. Ao subir uma baixa elevação, deu um salto e caiu de pé no outro lado, economizando tempo. Porém, a fera era esperta e logo o alcançou, balançando sua cauda enquanto corria célere. Desviou para a esquerda, e o pônei teve que mudar sua direção para o oeste — a mesma direção do trajeto que seus companheiros tomavam. O cão sabia o que fazer. Glaudir notou aquilo, mas não podia fazer nada além de ceder ao perseguidor para evitar que seu animal fosse mordido mais uma vez. Em outro momento, o cão realizou um novo desvio, para a esquerda novamente, e levou Sombra para o lado, obrigando-o a mudar a direção. Quando saíram do milharal, Glaudir enfim percebeu para onde ele pretendia levá-lo. Sombra entrou no círculo de cães, encontrou os outros pôneis e parou no meio dos dois. Os grunhidos aumentaram. Glaudir olhou para Tick e Docus e suspirou, aflito:

— Caí na armadilha.


Os cachorros começaram a latir, se aproximando e mostrando seus dentes furiosos e amarelos. Porém, um chiado baixo, quase inaudível, percorreu o milharal, e os cães correram calmamente para longe, desaparecendo no mar verde. Mal houve tempo de notarem o que estava acontecendo e um ivirez forte saiu dentre a plantação.

— Ora, ora! O que temos aqui? — disse, espiando os três montadores. Segurava um arco na mão e na outra uma flecha, e não demorou a apontá-la aos ivirezes. Apressado, Tick começou a se defender.

— Meu nome é Tick Badiws Rauvos, filho do Chefe dos Carroceiros. Queremos falar com o dono dessa fazenda, o senhor Velho Coris. E que grande fazenda é esta, cheia de plantações férteis e verdes! Fomos perseguidos por cães de guarda, e que cães belos e fortes, parece-me pelo que percebi, que obedecem muito bem, mas acredito que dessa vez nos perseguiram por engano. O sr. Velho Coris não gostará de saber que seus cães me perseguiram, por isso, para o seu bem, vou omitir esse assunto quando falar com ele. Além do mais, estávamos passeando pela estrada. Acredito que os cachorros nos perseguiram devido a nossos pôneis.

— Cale a boca! — atacou o arqueiro. — Você fala demais. Acha que vou acreditar nisso? Meus bebês não atacam os viajantes de estradas, só os bisbilhoteiros que se atrevem a entrar na plantação às escondidas.

“Meus bebês? Essas coisas parecem mais feras comedoras de homens!”, pensou Tick.

O outro prosseguiu: — Quero ver se conseguem enganar Velho Coris. — Pegou um apito de madeira e assoprou, emitindo dois chiados abafados. Rápidos e silenciosos, dois cães de pelagem clara surgiram e pararam ao lado dos pôneis. — Venham! Ou meus bebês vão almoçar logo, logo. Pra falar a verdade, mal tiveram o desjejum.

Sem opções, os ivirezes o seguiram. O arqueiro guarda os levou para uma estrada de barro vermelho com matos aparados no meio. À frente, puderam ver uma casa grande e branca. O teto avermelhado e alto descia, cobrindo a casa, onde cinco colunas finas e retas seguravam as telhas da varanda. Havia várias janelas, todas abertas e compridas, nas quais era possível avistar cortinas brancas se movendo em seu interior. “Então não é uma casa mesmo,” pensou Glaudir, “é uma mansão!” Separados da plantação e um pouco longe da casa, os mugidos de vacas e bois dominavam o curral. Muitos ivirezes ainda trabalhavam e, pelo que Glaudir pôde notar, nenhum carroceiro estava entre eles e, mesmo assim, os trabalhadores depositavam milho, maçãs, feijões e outros alimentos em caixotes e sacos, para guardá-los até a sua chegada.

Na varanda, bem ao lado da porta, um velho de chapéu preto com bordas amassadas ia para lá e para cá numa cadeira de balanço. Soltava fumaça pelo cachimbo, todas sem forma, e observava os “visitantes” — era essa a forma de que gostava de chamar os bisbilhoteiros de Umilzend. O arqueiro guarda e os outros três ivirezes pararam à sua frente. O Velho Coris tirou o cachimbo com um sorriso irônico.

— Parece que temos visitantes.

— Os cães de caça encontraram eles no mei…

— Espere! — exclamou o velho. Ele parou de se balançar na cadeira para olhar nos olhos de Docus, ainda montado em Raio. — Temos um issacerez entre nós. A que devemos a honra?

— Apenas em missão de viagem, Velho Coris, se você for mesmo ele. — Docus desceu de Raio, sendo seguido por seus amigos. — Estou indo com meus companheiros para a Cordilheira dos Andrus.

— Discretos. Sempre discretos. — Em seguida, espiou os olhos de Tick, deixando-o constrangido e fazendo-o olhar para baixo. Coris deu um sorriso de novo, mas dessa vez não era irônico. — Como poderia não reconhecer esses olhos castanhos e medrosos, Lenuel?

— Como assim? — perguntou o arqueiro, já guardando a flecha.

— Este é o pequeno Tick, filho de Badiws, o Chefe dos Carroceiros. — Depois, voltou o rosto a Tick. — A que devemos a honra? Há algum problema?

— Não senhor — respondeu Tick. — Só estou de viagem e de passagem por Umilzend.

Coris olhou agora para Glaudir, a quem arregalou os olhos.

— Não acredito! — exclamou ele. — Os olhos de esmeralda da minha joia.

— O que disse, senhor? — indagou Glaudir, sem entendê-lo.

Velho Coris levantou-se desajeitado e deu-lhe um abraço.

— Minha pequena joia. Você é filho de Glaucor, claro que é! Eu sou seu avô. Sou o pai de sua mãe, Ahrozidir, a minha joia.

— O que?! — murmurou Glaudir, não entendendo direito — Você é meu avô? Como? Meu pai nunca me falou sobre você!

— Faz sentido, meu neto — sorriu Coris, tapeando suas costas. — Aquele ser misterioso, coberto de segredos. Ele sempre passava por aqui em direção às montanhas, como você está fazendo agora. Ele não iria contar muito sobre mim. Mas venham, meus futuros amigos e meu neto. O almoço está sendo preparado e podemos conversar na mesa, é melhor. Lenuel, leve os pôneis para o celeiro e dê-lhes feno.

Sem discordar, os ivirezes entraram. A sala era grande. Um tapete de bordas verdes e centro azulado cobria o piso e uma lareira apagada derramava cinzas na parede. Um ivirez sentava-se em uma das cadeiras grandes e marrons dali, com as pernas esticadas em cima de um banquinho. Ele dormia com a face virada para o teto. — Acorde Malveng! — Coris deu-lhe um pequeno puxão de orelha. — Olhe quem está aqui!

Malveng abriu um olho sonolento, mas logo depois fechou-o, como se pesasse uma tonelada. Disse com voz cansada, porém grossa:

— Visitantes. Mais visitantes.

— Sim, visitantes, mas não visitantes bisbilhoteiros, e sim visitantes de visita — disse Velho Coris. — E melhor, seu sobrinho Glaudir de Havis veio. Não reconhece os olhos de sua irmã?

— Ele é meu tio? — questionou Glaudir. O velho fez sinal de sim com a cabeça enquanto Malveng levantava-se alegre e, de repente, abraçou o sobrinho dando-lhe tapinhas nas costas.

— Mãe! Mãe! — gritou ao sair da sala. — Seu neto Glaudir está aqui. Venha ver! Finalmente ele teve coragem de viajar de Havis até aqui.

— Nossa! Eu não sabia que tinha parentes em Umilzend — exclamou Glaudir.

— Como assim? — perguntou Docus, com a sobrancelha levantada. — Se Coris é seu avô materno, então seu pai deveria ter contado sobre ele e Umilzend.

— Glaucor… — resmungou Coris. — Sinceramente, no começo eu não queria que ele se casasse com minha joia Ahrozidir.

Nem Glaudir, nem os outros, prestaram atenção naquilo.

— Minha mãe falava algumas vezes de uma fazenda quando eu era criança. Eu sabia que ela tinha nascido em uma, mas não sabia qual e nem imaginava que seria essa em que estou agora.

— Não dá pra acreditar! — disse uma voz bem calma e lenta. Uma senhora idosa e gorda vinha bem ao lado de Malveng. Seus cabelos grisalhos eram longos, e tinha uma pulseira grossa e esverdeada no pulso esquerdo, que chocalhava por se dividir no fim em minúsculas correntes. Como o Velho Coris, abraçou forte o neto e deu-lhe um beijo na bochecha: — Meu neto, meu netinho. Súmare está conosco, com certeza ela está! — e riu brincalhona com isso. — Lembra de mim? Eu te peguei nos braços antes mesmo da sua mãe. Eu sou a Edrina, mas para você eu sou a vovó, vó ou Velha Edrina, se quiser me chamar como todo mundo.

— Prazer em con… — tentou dizer o neto, mas foi sufocado novamente por outro abraço. A mulher estava alegre, muito alegre, e não fazia menção de esconder os sentimentos.

— Que bom que você está aqui — continuou Edrina. — Seus olhos são iguaizinhos aos dela, da minha filha. E o cabelo também, têm a mesma cor. Mas o nariz e as orelhas… — pensou ela, retirando e colocando de volta os fios que cobriam uma das duas. — Essas são de seu pai. Até que enfim uma visita! Bem, — Olhou para os outros visitantes, primeiro para Docus e depois para Tick. Soltou um grito de novo ao ver este último: — Tick, Tick, Tick. Os mesmos olhos medrosos e o mesmo corpinho fraco.

Tick resmungou algo que ninguém entendeu. Docus compreendeu o “corpinho fraco”, mas até agora não adivinhara o porquê dos “olhos medrosos”. O companheiro era magro e de braços finos, porém ter escolhido viajar à Cachoeira Ant não era algo que um medroso faria.

— E o outro é um issacerez, não é?

Docus reverenciou, abaixando a cabeça com a mão no peito, e encarou a velha: — Na verdade, ainda não sou um issacerez, estou treinando para ser. Meu nome é Docus, da família Harthyus.

— Por curiosidade, — sorriu Velho Coris. — qual seu segundo nome?

— Dandus. Meu irmão também se chama Dándus, em homenagem a nosso pai. Seu primeiro nome fora Themenus, mas ele quis trocá-lo.

“Por que ele quis trocá-lo?”, uma pulga atrás da orelha induziu Glaudir a perguntar, mas por educação não disse nada.

— Eu sabia. Dandus… — concordou Coris.

Malveng, o tio de Glaudir, interrompeu: — Bem, o almoço já está preparado, não o querem?

— Claro, vamos à mesa! — disse o velho.

Foram à sala de jantar, onde havia uma mesa de madeira coberta por uma toalha branca e sem enfeites. Oito cadeiras lhes aguardavam, uma em cada lado menor e três em cada um dos mais longos. Sentaram-se; Glaudir, Docus e Tick na parte mais comprida, ocupando todas as cadeiras deste lado; Coris e Edrina nas mais curtas, de frente um para o outro e Malveng do outro lado, de frente para Docus. Chegaram dois ivirezes, uma mulher e outro homem1, que se sentaram ao seu lado e, pelos cabelos escuros, eram irmãos, ou seja, também tios de Glaudir.

— Bom dia — disse a ivirez enquanto seu sobrinho colocava a bengala em pé, encostada na cadeira. — Meu nome é Úrian, e o seu?

O outro já ia responder quando Coris interrompeu: — Glaudir, seu sobrinho, Docus, ainda não issacerez, e Tick, filho de Badiws. Para vocês, visitantes, o desconhecido que lhes resta é Ruidom. Só pra pular as apresentações.

— Prazer em conhecê-los — disseram os visitantes, Úrian e Ruidom ao mesmo tempo.

— Súmarie! — chamou Coris e logo uma servente apareceu. Glaudir se assustou, pensando que veria a monveran Esperança, vermelha e quente. A ivirez surgiu com um jarro de vinho na mão branca e de dedos suaves, derramando o conteúdo na taça de Coris. Ela era bela, de tamanha beleza que Glaudir não acreditou que trabalhava como empregada. Parecia mais uma princesa alvânica, embora o ivirez não tivesse visto uma sequer. Seus cabelos, um pouco curtos, traziam um brilho proveniente da janela da cozinha por serem lisos e escuríssimos. Mas seus olhos eram de um castanho claro, de encantar qualquer um, e a sua pele, branquíssima e limpa. Glaudir a observava, segurando um copo.

Ela veio colocando vinho nas taças, uma de cada vez, e, chegando a Tick ao lado de Glaudir, percebeu os olhos verdes que a fitavam. O ivirez procurou olhar para a mesa enquanto a moça se aproximava. Súmarie derramou o líquido avermelhado na taça de Glaudir e deu um sorriso, mostrando os dentes brancos entre os lábios vermelhos e escuros. Glaudir olhou para ela e retribuiu o sorriso, acreditando tratar-se de um sorriso de simpatia, mas, ao passo que Súmarie colocava vinho na taça de Edrina, ele notou que, na verdade, o sorriso era de surpresa e… espanto. O ivirez quase rachara o copo de vidro com tanto nervosismo e a “princesa alvânica” havia percebido.

— Traga o almoço, Súmarie — ordenou Coris e Súmarie saiu, pondo o jarro de vidro no meio da mesa. Passou por uma porta aberta e desapareceu de vista, diminuindo o nervosismo de Glaudir. Edrina, a vó, piscou para ele e balançou a pulseira:

— Agora você sabe porque eu disse que com certeza Súmare estaria aqui.

Rapidamente, a bela Súmarie retornou com uma bandeja na mão, onde havia quatro pratos com comida, ajudada por uma ivirez mais velha, trazendo outra bandeja com a mesma quantidade de pratos. Serviram aos oito ivirezes da mesa, mas depois saíram para almoçarem em uma sala reservada aos empregados. No centro da mesa, ao lado do jarro de vinho, bolinhos e biscoitos de mel aguardavam, e Glaudir não resistiu ao desejo, tomando-os apressado enquanto bebia. Eram deliciosos e aumentaram seu apetite. Glaucor só comprava biscoitos de mel em dias especiais. Haviam saído de casa em 23 de março e, de lá, tinham se passado três dias, então, certamente, seria 26 de março. “A festa de Hávis!”, lembrou Glaudir, e era isso que já estava em preparação em Havis. O dia 26 de março correspondia a 10 de Hahvis no Calendário Ivirez, quando os ivirezes comemoravam o dia do monveran Dócil, aquele que, como dizia-se, foi o dia no qual nascera e por coincidência, no qual morrera.

— Aqui em Umilzend não se comemora o Dia de Hávis? — perguntou ele.

Coris quase engasgou e olhou fixo para o neto com um olhar sério: — Por que comemoraríamos? Ele foi um monveran bom, o primeiro a ter um vandoriel, e guiava os ivirezes nas viagens. Por que comemoraríamos o dia da sua morte? É algo triste de se lembrar.

— Sim, você tem razão, mas é que… — Então ali, biscoitos de mel não eram para comemorações. Glaudir pensou bem e resolveu mudar de assunto, percebendo que podia gerar discussões. — Vandoriel? O que é isso?

— Essa pergunta não deveria se dirigir a mim. O seu companheiro issacerez pode respondê-lo muito bem.

— Vandoriel é uma junção de duas palavras alvânicas, vandor que significa “cavaleiro”, e ariel, que significa “céu”. Cavaleiro Celeste é uma denominação dada aos montadores dos monverath — explicou Docus. — Dizem que possuem uma união especial entre suas mentes. Hamah foi um issacerez, e, além de inserir nossas runas, foi o primeiro vandoriel, que montava Hávis.

— Exatamente — prosseguiu Coris ao segurar a jarra de vinho e encher a taça novamente. — Dizem as lendas que o nascimento dos grandes vandorieth vai ocorrer no nascimento também de uma era perturbada. Outras já contam que se trata apenas um cálculo com números…

— Os issacerezes acreditam nessa segunda hipótese — acrescentou Docus. — Acreditamos que os monverath escolherão seus vandorieth em 1000 da Era dos Reinos, ou seja, ano que vem, pois este número marca um milênio ou uma era. Mas ainda há dificuldade em descobrir o ano certo, já que há a possibilidade de o resultado se alterar em cinco anos, para mais ou para menos.

— Pelo que eu acho, nosso ano é o certo — disse Coris, tomando um gole de vinho. — Há umas noites atrás, eu vi a monveran Lúminar vir do sul. Passou pelo céu para o leste e, no outro dia, voltou e seguiu para a Cordilheira dos Andrus.

Ao escutar aquilo, Docus percebeu algo importante, mas decidiu contar depois e quando estivesse a sós com Tick e Glaudir.

— Pelo que eu sei, ela abandonou esta terra e, para mim, só poderia ter voltado por ter escolhido um vandoriel — continuou o velho Coris. Em seguida, ergueu a taça: — Mas eu não quero falar sobre isso. Meu neto está aqui finalmente entre nós, e desejo um brinde em sua homenagem.

— Um brinde de boa sorte, — disse Edrina, levantando a sua taça já com pouco vinho. — um de esperança, e outro de luz para a pequena estrada que todos seguimos.

Como a vó de Glaudir sugerira, deram três brindes, tilintando os objetos de vidro esverdeado e com pequenas ondulações. A última frase de Edrina foi estranha aos ouvidos de Glaudir, pois era um pouco semelhante à última que seu pai, Glaucor, lhes falara quando haviam saído de casa: “Que Lúminar os ilumine nessa pequena estrada.”

— Pode falar como meu pai e minha mãe se conheceram? — perguntou Glaudir ao seu avô, mas o outro mostrou um olhar de “não estou com vontade”. Felizmente, Edrina, com sua voz lenta e suave, quis contar. De vez em quando, sua pulseira chocalhava, a lembrando dos detalhes.

— Glaucor sempre, quero dizer, frequentemente viajava para a Cordilheira de Andrus e passava por aqui, quando a nossa fazenda era apenas uma fazenda comum. Hospedamo-lo em um dia chuvoso. Ele estava encharcado, um verdadeiro rato molhado. Hesitou em se hospedar, mas, devido a uma grande tempestade que se aproximava, permaneceu aqui durante todo o dia e toda a noite. No começo, meu marido Coris acreditou que se tratasse de um ladrão ou algo do tipo, mas depois percebeu que o rapaz era sincero e de confiança. Nós oferecemos um emprego aqui em Umilzend para ele, pois sua moradia em Havis era pequena e humilde, e deixamos ficar aqui quando quisesse já que sempre ia, não sei por que, para as montanhas. Glaucor se tornou um grande amigo da nossa filha Ahrozidir, contando a ela histórias distantes de Homens, Alvanes, Huarts e Gigantes, e nós não fazíamos ideia se eram inventadas ou reais. Não importava, sua voz fazia os olhos da nossa amada filhinha brilharem de encanto. Glaucor era um bom ivirez, deixando-a feliz até o fim de seus dias. Vó Edrina parou ali e todos ficaram em silêncio. Docus recordou a tristeza ao ver o olhos sérios e abaixados de Glaudir. Preferiu não dizer nada. Às vezes, não falar é melhor que palavras de conforto.

A noite chegou rápida para eles. O cansaço da viagem já havia sumido e o desejo de voltarem a cavalgar renascera. Foi pouco após o jantar que Coris chamou os três para a sala, onde sentaram-se perto um do outro. Coris ficou bem ao lado da lareira, cujas chamas ardiam trêmulas e reluzentes. O lugar estava calado, como se não houvesse ninguém além deles. Os estalos do fogo misturavam-se com o vento balançando o milharal de sombras lá fora.

— Não lhes chamei para conversar sobre família, — disse Velho Coris. — mas sim para dar um aviso importante. Vocês disseram que estão indo para a Cordilheira de Andrus e devo lhes falar de um sério perigo que está à sua espera.

Glaudir tremeu. Os relinchos dos cavalos vistos em Havis perturbavam sua mente. Mas não era disso que o avô os alertaria.

— Pelo que eu sei, um grande número de Selvagens Uriarques apareceu nas primeiras montanhas do norte. Vieram de fora de Haldom e não faço ideia do que fazem aqui. Vocês precisam ter cuidado nessa viagem. Vai ser fácil encontrar um deles por aí. São muitos perigosos, comem carne podre ou fresca de homens e de animais. São cruéis, comemoram ao ver um ser vivo sentir dor ou sangrar, e têm uma agilidade fora do comum.

— Já sabemos sobre eles — disse Tick, arranhando os braços da cadeira diante da descrição de Coris. Todos os ivirezes tinham conhecimento daqueles seres da escuridão que não tinham lar e vagavam pelo mundo, às vezes em bando, para achar uma caça. Os Uriarques, os Trolls e os Nidrogs eram os piores inimigos dos viajantes, todos criaturas da noite.

— Então, vou pular a descrição. Se sabem sobre eles, sabem também que não devem andar desarmados.

— Bem, eu ia comprá-las, mas Glaucor disse que Glaudir não sabe usá-las e que Docus teria uma.

— Vou dar uma de grande importância para mim. — Levantou-se e foi à parede próxima da lareira. Lá estava pendurado um arco verde em cima de uma aljava preta, cheia de flechas azuis. — Gostaria de dá-la ao meu neto, mas o issacerez vai precisar mais.

Deu um olhar de desculpas a Glaudir e entregou os objetos para Docus.

O issacerez sentiu o arco com os dedos. Era bem resistente e sua coloração verde lhe dava um toque de nobreza. Velho Coris tirou uma flecha da aljava negra e mostrou-a, dizendo: — Sua ponta é bastante afiada, o que fará com que imobilize ou mate rapidamente os inimigos. — Passou os dedos no cabo e continuou: — É resistente, por isso poderá pegá-las de volta depois de atirar. São chamadas flecha-safira por causa de sua cor. Quando atiradas, rasgam os ventos sem terem o percurso prejudicado por eles e zarpam velozes ao alvo, perfurando facilmente o corpo. Dizem que têm algum tipo de mágica às escondidas e espero que essa mágica os proteja dos uriarques.

— Como ganhou? — perguntou Docus enquanto Coris colocava a flecha azul de volta na aljava e entregava-a a ele.

— De um alvane amigo meu, mas não vem mais para cá.

— Quem é ele? — indagou Glaudir, lembrando que seu pai, Glaucor, falara que Sólut havia sido feito pelos povos alvânicos. Talvez fosse o mesmo alvane.

Infelizmente, Velho Coris bochechou e, num fingimento forçado, falou: — Estou com muito sono. Já dei o presente e vou para cama. Boa noite a todos.

— Boa noite — disseram os três ao mesmo tempo.

Decepcionado, Glaudir viu seu avô sair da sala grande e alta com o brilho das lâmpadas penduradas na parede. Docus lembrou-se do que percebera na manhã e resolveu falar, já que estavam sozinhos.

— Lembram-se do que Coris disse na manhã? Que Lúminar foi para o leste e depois para a Cordilheira dos Andrus.

— Claro! — respondeu Glaudir, tomando a fala de Tick.

— Então, pode ser verdade que Lúminar esteja lá ainda. E se os issacerezes quiserem matá-la, o que vamos fazer?

Tick resmungou, olhando para o teto.

— De novo essa conversa! Mentir, será que não sabe o que é isso?

— Sim, eu sei o que é! Mas é que ela foi para o leste, dessa maneira os issacerezes podem tê-la visto lá, e também vindo à cordilheira. Não vão acreditar no que diremos. E ainda tem uma coisa estranha. Talvez tenham nos mandado para outra coisa e não para ver se Lúminar está lá.

— Para a Cachoeira Ant, na Cordilheira dos Andrus — disse Glaudir. — Foi o que seu irmão, Dándus, me disse. E eles não “podem tê-la visto”, eles “a viram”. Dándus me disse que eles a viram voar.

— O que? — Docus estava ainda mais confuso. — Então, eles nos mandaram por terem visto realmente a monveran e não por causa do meu sonho?

— Quase isso — exclamou Tick, com cara de sabe-tudo. — O sonho avisou-lhes sobre a cachoeira e o voo da monveran sobre a cordilheira. Simples, não?

Glaudir suspirou: — É… Mas há um grande problema: a incerteza. Não temos certeza de nossas suposições. Os issacerezes podem muito bem não querer matar Lúminar, o mesmo vale para os andarilhos sombrios. O melhor é continuarmos nossos rumos com os nossos desejos verdadeiros em mente. Eu vou por causa do meu pai, Tick, para ver a tal Ondorionen, e você, Docus, só para nos vigiar. Mas por que você disse que podem ter nos mandado para outra coisa?

— Isso é comum entre os issacerezes — disse o outro. — Mandam os principiantes para não obedecerem e fazerem a coisa certa a seus próprios olhos. Temos que pensar sozinhos e ter opiniões próprias diante de certos acontecimentos. Isso é importante entre nós.

— Então, está dizendo que tudo isso é apenas um teste? Para você?

— Não. Mas sim que pode ser.

Tick teve um lampejo rápido e quase caiu da cadeira com o súbito pensamento: — Você disse que teve um sonho mostrando uma luz na cachoeira. Disse essa manhã que os vandorieth são “unidos mentalmente” com os seus monverath. Demorou tanto para perceber?

— Perceber o que? — disseram o issacerez e Glaudir ao mesmo tempo.

— A luz é Lúminar. Lúminar, a Luz, todo mundo fala desse jeito. Que Lúminar os ilumine, é óbvio! Você é um vandoriel e a monveran está lhe chamando no sonho.

— Então, se o que diz é verdade… — exclamou Docus, alegre. — O cálculo está certo. A era vai terminar em 1000, ano que vem. Faz sentido.

— Ou o nascimento de uma era perturbada, não lembram? — notou Glaudir.

— O que está havendo aqui?! — alguém perguntou. Era impossível não reconhecer a voz e a pulseira tilintando. Edrina vinha andando com um castiçal apagado na mão — Vocês vão viajar amanhã?

— É… Acho que sim — respondeu Tick.

— Então, por que não estão dormindo? Precisam acordar dispostos para cavalgarem. Desculpem-me, mas vocês têm que dormir agora!

Deu uns empurrõezinhos leves em Glaudir para levantá-lo da cadeira: — Sigam-me! Vou levá-los a seus quartos.

Levantaram-se e Docus deixou sua arma na cadeira antes de segui-la.

Os outros obedeceram sem hesitar. Edrina os levou a um cômodo com quatro camas, pelo visto de hóspedes, pois não havia mais nada além delas. Todas estavam bem cobertas e arrumadas.

— Boa noite a todos — disse ela, e deixou um beijinho na bochecha do neto.

Em seguida, saiu dali. Glaudir sorriu vendo suas costas. O beijo era o mesmo de sua mãe, e os empurrõezinhos também.

Deitaram logo após, no entanto não dormiram por um bom tempo.

— Somos loucos — murmurou Tick para começo de conversa. — Nós vamos direto para a boca dos Selvagens!

— Então, que esperem as minhas flechas — disse Docus, confiante. — Se eu aprender a atirar.

— O que?! Você não sabe atirar? Estamos perdidos. Verdadeiramente, estamos perdidos. Não sei manejar direito a minha espada e Glaudir só tem uma bengala.

— Não estou nem aí para esses uriarques. — Glaudir estava certo do que dizia. — Quero descobrir os segredos de meu pai. Vocês não têm motivos para irem, podem voltar se quiserem.

— Está brincando, não? — riu Docus. — Agora que sei que posso ser um vandoriel, não deixarei essa viagem nunca.

— E você, Tick?

— Eu? Eu? — Tick fingiu não acreditar no que o outro falava. — Nunca que eu lutaria contra uriarques. Nunca que eu manusearia uma espada direito. Nunca que eu faria um arranhão sequer neles.

— Está dizendo que não vai? — perguntou Glaudir, percebendo que estava prestes a perder seu amigo por um tempo.

Entretanto, Tick não parecia desanimado, e muito menos sem estímulos. Ainda tinha um truque infalível na manga.

— Não. Estou dizendo que pernas servem para correr também!


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