Paulo Moreira Escritor

Capítulo 6 OSDD - Abidel

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Hargot havia dito que tinha certeza de que Abidel não demoraria muito para abrir o caminho, mas a tarde já estava quase terminando e nenhum sinal da presença do Mestre aparecera. Docus, sentado no chão, tentava esconder a raiva e Glaudir, sem o mínimo de paciência, andava apressado de um lado a outro. Pelo visto, Hargot era o único a não estar irritado, demonstrando-se paciente e certo de que seu pai de criação logo abriria os arbustos.

Não podiam avistar o sol por causa das árvores altas que cobriam o céu com seus galhos e folhas compridas, mas conseguiam notar que o astro já estava descendo para ceder seu lugar à lua, pois as sombras se esticavam e a mata começava a escurecer. A paisagem não mudava, uma das razões para aumentar a impaciência no semblante de Glaudir. Ao ir de um lado a outro, sempre havia a mesma coisa: árvore, árvore e mais árvore! Em um momento, ele ficara surpreso ao ver um esquilo correr nos galhos e tentara passar o tempo observando o pequeno animal. Entretanto, como se a criatura não desejasse extinguir seu tédio, ela sumiu nas plantas baixas depois de uma célere corrida.

— É melhor parar de andar de um lado a outro, se não as pernas vão ficar doloridas — sugeriu Hargot.

— Já vai anoitecer, e ele ainda não nos deixou entrar — exclamou Glaudir. Soltou um berro em seguida: — Estamos com seu filho aqui! Deixe-nos entrar ou valos matá-lo.

— Com o que? Com uma bengala? — riu o outro e aconselhou: — É melhor não ameaçar um Mestre. Ele pode fazer muita coisa.

— Menos tirar esses arbustos — resmungou Glaudir.

A escuridão se adensava na Floresta das Grandes Árvores e os cipós e trepadeiras das sequoias jovens se transformavam em serpentes finas e sombrias. Pássaros começaram a se deitar em seus ninhos ou a ficar empoleirados, e o silêncio do vento imóvel permaneceu no local, passando a impressão de que algo muito estranho aconteceria em seguida. Mas, na verdade, não acontecera absolutamente nada.

Deitaram-se para dormir, e Hargot ficou de vigia no primeiro turno para ver se o caminho seria aberto. Haviam decidido não acender nenhuma fogueira por causa daqueles animaizinhos irritantes enfrentados na noite anterior: os mosquitos, os pernilongos, os grilos e as mariposas, estas últimas adoradoras fanáticas das luzes ardentes. A coruja misteriosa continuava a piar lá em cima, mas agora os seus olhos grandes e curiosos podiam ser vistos entre os galhos negros, piscando de quando em quando e fixos nos viajantes. A impaciência de Glaudir era tão grande que ele não aguentou ouvir os pios do pássaro que agora dizia:

— Pobres ivirezes. Não sabem que Adraner não está em casa.

Levantou-se rápido, pegou uma pedra qualquer e arremessou-a com toda a força para cima do animal, tudo em vão, pois, na escuridão, havia errado a mira. Teve que dormir com as risadas da coruja:

— Jogou pro lado errado! Jogou pro lado errado!

Quando a meia-noite chegou, Docus ficou de vigia e Hargot foi deitar-se. As clareiras ao longe emitiam um fino traço de luz — ainda era lua nova — e, pelas brechas das folhas, era possível ver as estrelas e até nuvens enevoadas. As árvores se transformaram em vultos gordos com braços compridos. Os olhos do issacerez avistaram poucos animais noturnos, a maioria pequena e silenciosa. Raposas curiosas quiseram ver os visitantes, mas ao perceberem um deles acordado, desapareceram quase ao mesmo tempo no qual apareceram. Patadas de cervos correndo sussurravam na relva, e se Docus se concentrasse bem, podia ouvir sua respiração forte e seus dentes mastigando os matos. Uivos foram bastantes nítidos para que ele tremesse e recuasse para trás, embora estivessem longe. Tirou uma flecha da aljava e armou o arco, pronto para atirar caso aparecesse um lobo faminto por perto. Não aconteceu, assim como os arbustos não se separaram.

A luz dourada do sol nascente alcançou a Floresta das Grandes Árvores enquanto uma brisa gelada soprava entre as suas copas. As clareiras se iluminaram com o brilho amarelo e as plantas clarearam-se, deixando à mostra seu orvalho pequeno e transparente. As gotículas enchiam de estrelas as folhas verdes da vegetação. Aranhas reconstruíam suas teias de prata. Os pássaros iniciaram a sua cantoria baixinho, saltando de galho em galho. Canários amarelos vieram cantando, e beija-flores de todas as cores bateram as asas aceleradas e começaram a dar voltas uns nos outros, como se estivessem brincando. Várias aves surgiram, todas pequeninas e coloridas.

Docus acordou seus companheiros para vislumbrarem aquele estranho acontecimento. Os pássaros vinham rápidos de um mesmo local e paravam em seguida nas sequoias. Glaudir, mesmo sem entender direito, podia jurar que diziam alguns:

— Ele está de volta! Viva! O mestre está voltando!

Talvez fosse o poder da ondori que o tornava capaz de ouvir as vozes, mas ele não pensou nisso naquele momento. Uma voz baixa a cantarolar se aproximou dos ivirezes, e era possível perceber a alegria de quem estava cantando pelo tom de suas palavras. Glaudir a conhecia, era a de Abidel. Olhou para a ondori, para certificar-se de que não estava à mostra junto da corrente de ouro que a segurava.

Surgindo entre as árvores, o homem cantarolava baixinho com um sorriso no rosto. Sua roupa vermelha de bordas douradas brilhava com a luz do sol. Atrás da roupa, uma capa rubra com capuz balançava ao toque da brisa matutina, prendida na frente do pescoço por um broche circular de ouro. As botas marrons e sujas de terra eram grossas e compridas, sumindo em suas vestes. Como um caçador Abidel trazia um arco vermelho na mão e uma aljava negra nas costas. Além dessa arma, tinha prendida ao cinto encrustado de pedras parecidas com rubis, uma espada longa e afiada. A barba com pinceladas grisalhas era curta e bem cortada, e os cabelos velhos e longos formavam duas mechas na frente do rosto, que desciam ao peito qual tranças. Seus olhos fundos mas alegres davam-lhe um caráter rígido, e suas olheiras revelavam as várias noites que passara sem dormir. Não havia nada de ivirez nele. Parecia um guerreiro bravo e sábio, cuja experiência de vida havia lhe dado profundos conhecimentos e lhe tornado merecedor de enorme respeito. Aquele não era Abidel, era Adraner, O Rubro, o terceiro Mestre da Magia, um dos Sábios. Se Glaudir o acompanhasse em sua viagem, a sorte o acompanharia. Carregava a sabedoria de um Rei-Alvane, a bravura de um homem de guerra e a coragem de um huart aventureiro.

Abidel parou à frente dos três com um olhar curioso para todos, principalmente para Docus que ainda não conhecia.

— Hargot! Devia ter me avisado que viria de Havis. — Sua voz era vibrante e forte. — O que lhe fez vir até aqui?

— Coisas de seu interesse que acabei descobrindo — respondeu Hargot.

— E você, Glaudir? Faz muito tempo que não vem me visitar!

— Essas coisas de seu interesse têm envolvimento comigo e Docus, o issacerez — disse Glaudir, apresentando o companheiro ao mesmo tempo, o qual reverenciou para o recém-chegado.

Apressado, Hargot tomou a palavra enquanto os pássaros atravessavam as árvores, sumindo nas folhas.

— Estamos lhe esperando aqui desde ontem à tarde. Não seria melhor que entrássemos na sua casa para conversarmos melhor.

— Claro, claro — disse ele, sorrindo de orelha a orelha.

— Por que está tão alegre, Abidel?

— Bem, posso dizer que algo muito importante, o qual fez nascer a esperança que eu não tinha, acabou acontecendo. Uns amigos meus estavam em perigo, mas descobriram algo que pode salvá-los. No entanto, como sabe, não gosto de falar sobre essas coisas. Vamos! Entrem comigo, companheiros.

Abidel seguiu em direção aos arbustos espinhosos e as sequoias jovens e altas. Observou atentamente todos os lados e parou no caminho que sumia no muro de plantas. Ergueu o braço, abrindo e mostrando a palma da mão para o local. A trilha se abriu com sussurros e estalos enquanto os arbustos se retorciam, se separando e abrindo a passagem. Os cipós e trepadeiras se esgueiraram e foram afastados como uma cortina, ao passo que os galhos das sequoias diminuíam para mostrar o outro lado do cenário.

Ali havia uma casa simples de teto vermelho. Suas janelas estavam fechadas como se a casa estivesse dormindo. Não havia muro, nem cerca, era apenas um local aberto e dominado por plantas rasteiras e flores silvestres. Alguns arbustos cresciam sobre pedras redondas, e uma pequena plantação de margaridas enfeitava a frente da casa, todas abertas e borrifadas com o orvalho cristalino. Uma curta varanda com três degraus, num nível mais elevado do que o chão, cobria a porta de madeira da entrada. As árvores antes existentes na clareira haviam sido cortadas, não deixando vestígios além dos tocos grossos e sem vida acima do solo.

Mas Docus, que nunca havia entrado ali, não prestou o mínimo de atenção à casa. Gaviões, falcões, harpias e até mesmo algumas águias pousavam nos galhos compridos das sequoias e lá, nas alturas, observavam os três ivirezes com a sua visão aguçada. Os bicos, afiados qual um punhal amarelo, eram negros nas pontas, como se um pincel houvesse os tingido com tinta preta, e as garras penetravam a casca espessa das árvores, desenhando cicatrizes verdes. As sombras triangulares e imóveis encaravam-nos do círculo, esperando só um aviso de seu Mestre para atacarem. Poucos voavam, mas logo voltavam ao seu lugar de origem.

— Não precisa temer meus guardas — disse Abidel para Docus com um olhar às aves de rapina. — Eles me obedecem e só vão atacar se eu pedir. Os pássaros protegem a minha casa e me avisam de inimigos que se aproximam. A sua visão é muito aguçada, a velocidade de voo é impressionante e seus bicos e unhas tão afiados que não vejo razão para não usá-los.

Ao falar que tais pássaros protegiam a sua casa, Docus lembrou-se de vários ataques de falcões que haviam acontecido nas proximidades das Grandes Árvores. A Sociedade dos Issacerezes ficava a dois dias de viagem dali e era comum os ivirezes tentarem adentrar aquela região da floresta a fim de saber o que havia naquela misteriosa parte. Agora Docus sabia por que os que entravam não encontravam nada ou fugiam atacados pelas aves guerreiras.

Depois de passarem pelas margaridas, pararam à frente da porta sob a varanda e aguardaram Abidel para abri-la. No círculo desmatado, não havia nada que impedisse o brilho matutino de alcançá-los, no entanto, as sombras ainda estavam compridas o suficiente para cobrir boa parte da região. Desse modo, quando uma brisa correu entre o arvoredo, ela gelou os ossos dos viajantes facilmente. Como o piso era de madeira (o que era frequente nas moradas dos ivirezes), de vez em quando soltava grunhidos, mesmo resistente. Logo quando a luz do sol alcançou as vigas que seguravam o telhado do alpendre, Abidel abriu a porta, revelando o interior repleto de sombras. Alguns poucos buracos nas telhas desenhavam linhas douradas de luz onde flocos de poeira dançavam e brilhavam como vaga-lumes.

— Entrem e não notem a bagunça. Faz muitos dias que não volto para cá — explicou ele.

Apressado, Abidel foi na frente em direção às janelas cerradas. Quando as abriu, uma por uma, a claridade inundou o cômodo. Uma lareira de pedra mostrava em sua boca carvões velhos misturados com cinzas e brasas mortas. Cadeiras altas de braços largos ocupavam o centro da sala, ao redor de uma mesa nua e retangular. Coberta por um lençol de pó, uma estante repousava ao lado da parede com livros espessos de folhas amareladas, algumas lançadas no chão, outras sobre a mesa. Em seu topo, pergaminhos de aparência antiga deitavam-se enrolados e desarrumados. Um deles, aberto na mesa, mostrava um mapa com regiões desconhecidas, preso por um livro mais fino e menor que os outros, cujas folhas recentes balançavam com o vento a penetrar as janelas. Abidel cerrou-o com um baque, liberando uma onda de poeira, e puxou o pergaminho, enrolando-o em seguida.

— Hargot, ajude-me a unir as folhas e a achá-las — disse ele colocando os objetos nos seus devidos lugares da estante.

Hargot abaixou-se e foi pegando, uma por uma, as folhas velhas e compridas do piso de madeira. Docus e Glaudir, decididos a ajudarem também, mesmo sem Abidel ter pedido, seguiram à mesa para arrumarem as páginas. Notaram que seus autores não eram ivirezes, pois os símbolos e runas não eram hamárinos e pouquíssimos ivirezes sabiam escrever ou falar em outros idiomas. O piso rangia a cada passo pesado e apressado de Abidel, passando a impressão de que ia ruir a qualquer momento.

Quando tudo já estava arrumado, decidiram fazer uma refeição. Glaudir limpou a mesa empoeirada enquanto Hargot e Abidel preparavam o desjejum perfeito para viajantes. Disseram que demorariam um pouco, assim Docus e Glaudir não pensaram em interromper seu trabalho, sabendo também que Hargot estaria falando sobre a ondori ou fazendo perguntas essenciais para a viagem. O Mestre permitiu que os dois lessem uns de seus livros, se conseguissem entender um, desde que não olhassem os mapas e pergaminhos do topo da estante. Sem terem outra opção, obedeceram, além do mais, não conseguiam alcançar os rolos por causa da altura do armário, e todos estavam depositados de um modo que, se tirassem um, todos os outros cairiam — e nenhum dos dois estava com disposição para arrumar de novo.


Docus encontrou um livro pesado com uma pequena parte em hamárinos e ficou lendo na mesa. Glaudir caiu exausto em uma das cadeiras, observando o exterior. O arvoredo parecia um muro e as aves continuavam a observá-los, tentando prever qualquer movimento perigoso que tomassem contra seu Mestre. Muitos dirigiam o olhar para a janela da cozinha, onde Hargot e Abidel conversavam, e permaneciam imóveis. Glaudir respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar da floresta a entrar no cômodo. Nesse exato momento, sentiu o frio do frasco e a corrente envolta do pescoço se mexer sob a camisa. Retirou o objeto e observou-o, intrigado como sempre.

— A corrente de ouro deve valer bem mais que o frasco — disse ele.

Docus desviou os olhos e a atenção focados no livro para o ivirez, indagando-o: — Não está pensando em vendê-la, está?

— Nem pensar! Gostaria de saber o que ela faz. Hargot disse que é um objeto mágico, então deve fazer algo de especial.

Docus tentou mudar de assunto: — Você disse que viu os tais Servos das Sombras em Havis e que estavam à procura da ondori, esta que por sua vez estava com Hargot. Agora que sabem que ela existe e que está em Haldom, o que acha que vão fazer? Temos que prever o movimento do inimigo.

— Tem razão, Docus. Mas eu não fui feito para as previsões, então só posso dar uma pequena suposição. Quando queremos encontrar alguma coisa, nada melhor do que pedir ajuda, principalmente se não fizermos ideia de onde a coisa está. Lembra-se de Hargot contando que os issacerezes antigos tinham convencido os Senhores a procurarem os Guerreiros Iluminados? Pois bem, talvez os Servos façam a mesma coisa de novo.

Glaudir levantou a ondori e alisou as suas bordas azuladas com os dedos. Esse foi um dos erros que cometera. Ao ver o objeto cintilante, as aves de rapina esticaram os bicos pontudos e gritaram assustadoramente. Glaudir quase caiu de medo da cadeira. Os falcões soltaram os galhos das sequoias e abriram as patas, suas garras escuras em posição de ataque. Desceram em rasante para as janelas abertas antes que os dois ivirezes pudessem reagir.

Sem querer, Glaudir deixou cair a ondori, e ela saiu rolando pelo piso de madeira para baixo da mesa. As sombras castanhas entraram na sala em um segundo e voaram para cima do ivirez. Ele correu abaixado a fim de se encolher sob a mesa. As batidas das asas soavam sem parar enquanto as garras atacavam arranhando o chão. Glaudir pegou a ondori de volta e escondeu-a novamente dentro da camisa. Por instinto, chutou o bico de uma das aves que o ameaçava com seus gritos agudos. A barulheira chamou a atenção de Hargot e Abidel, e estes vieram correndo em direção ao cômodo.

Os pássaros não atacavam Docus. Apenas Glaudir era o alvo de suas unhas e bicos, e o issacerez não sabia o porquê. Lembrou que Abidel dissera que os falcões só atacariam se ele mandasse. Rapidamente, puxou uma flecha azul da aljava e apontou para um dos animais, o qual se preparava para bicar seu companheiro. Atirou mais não chegou a acertar. O Mestre aparecera, mudando a direção da seta ao puxar seu arco. A flecha perfurou o teto e permaneceu fixa lá em cima.

— Fiquem calmos, meus guardas! — gritou ele. — Não são inimigos. Voltem para seus lugares e deixem-no em paz!

As aves tremeram as plumas e esticaram as asas, saltando para fora logo em seguida com um voo célere. Glaudir podia ver seus vultos nos galhos das árvores, o brilho de seus olhos aguçados ainda fixos no ivirez. Levantou-se com ajuda de Hargot e apoiou-se numa cadeira, continuando tonto e assustado. Por sorte, não se ferira muito. Apenas alguns arranhões nos braços eram provas do ocorrido.

— Perdoem-me por eles — disse Abidel com a confusão a dominar a sua face. Um brilho de curiosidade surgiu em seus olhos negros. Para Glaudir, eram de cobiça. — Não sei por que lhe atacaram, Glaudir. Eles nunca fizeram isso, a não ser com ivirezes bisbilhoteiros que tentaram entrar nesse território.

Docus deixou o arco sobre a mesa, agora com arranhões profundos causados pelas aves. Fitou a flecha azul no topo da casa e preferiu não perguntar por que o Mestre havia lhe impedido de atirar. Abidel dirigiu-se à porta de entrada sem nenhum aviso prévio e saiu, batendo a porta em seguida. Hargot encarou Glaudir:

— Os falcões não atacam pessoas obedientes.

— Eu não fiz nada — defendeu-se. — Nem tentei pegar os pergaminhos.

— Docus? — chamou Hargot, virando-se para o issacerez. Docus também estava confuso e ainda não entendia bem o que acontecera, mas defendeu o amigo.

— É verdade. Nós dois não fizemos nada.

Então, Hargot seguiu para a cozinha, pronto para servir o desjejum que tanto esperavam: — Espero que não tenham perdido a fome.

Glaudir sentou-se e o outro lhe imitou, afastando o arco verde dado pelo Velho Coris. Quando Hargot chegou com a refeição, Abidel apareceu abrindo a porta e fixou o brilho dos seus olhos nos três ivirezes, demorando-se em Glaudir. O rosto sério confessava a descoberta, a qual o deixava pensativo.

— Vão ter que me contar muita coisa depois da refeição — disse ele ao cerrar a porta de madeira. O velho parecia estar prestes a explodir de raiva e amedrontou os visitantes. Após a ordem, eles preferiram comer devagar para atrasar o momento da revelação.

Os barulhos dos talheres e das mordidas de pães duraram por um bom tempo, mas Abidel, percebendo o truque dos ivirezes, decidiu se acalmar para que o medo deles saísse. Acabando a refeição, o Mestre permitiu Docus levar os pratos e copos sujos e lavá-los em outro cômodo.

— Ufa! Escapei — suspirou o issacerez ao colocar os pratos na pia. Curioso, manteve um olho nos pratos e outro nos companheiros, aguardando o momento dos gritos. Tremeu ao ver três gaviões observando-o bem de perto, empoleirados na janela e prontos para atacarem. Queriam ver se Docus cumpriria a tarefa imposta, caso contrário…


— E então, podem começar — disse Abidel com o rosto rígido. As olheiras escuras embaixo dos olhos sugeriam a sua impaciência e as rugas sobre a testa mostravam a fúria próxima, por isso Hargot foi logo ao assunto central e mais importante, tirando as delongas.

— Precisamos saber para onde levar a ondori.

Surpreso, Glaudir arregalou os olhos verdes. De uma hora para outra, o companheiro decidira revelar os segredos para alguém que não sabia nada sobre o frasco, pondo em risco toda a missão. Entretanto, lembrou de Hargot falando que o Mestre poderia saber algo sobre a ondori e, portanto, ajudaria na viagem.

— Ondori? Como sabe sobre ela? — interrogou Abidel, com uma sobrancelha mais alta que a outra.

— Abidel, sei que é meio difícil de acreditar, mas… Eu faço parte dos Guerreiros Iluminados que guardavam o objeto.

— Era o que eu desconfiava. — O feiticeiro parecia abalado, contudo, sua voz soou mais calma. Massageou as duas têmporas e permaneceu com a vista abaixada. — Mas temia que fosse verdade.

— Como sabe sobre a ordem dos Guerreiros? — perguntou Glaudir, percebendo a aflição do velho. O outro mudou o olhar e foi capaz de encontrar o rosto atento de Docus virado para eles. O issacerez tentou disfarçar, voltando os olhos para os pratos.

— O issacerez é confiável? — disse Abidel. — Sabe de tudo?

— Até agora, sim — respondeu Hargot.

O homem levantou a mão com um aceno e chamou pelo nome de Docus.

— Venha! Junte-se a conversa.

Docus viu Hargot despreocupado e eliminou um pouco seu medo. Enxugou as mãos e se dirigiu à mesa. Quando sentou-se ao lado de Glaudir, Abidel retornou a fala: — Respondendo a sua pergunta, Glaudir, eu já procurei muitas vezes a ondori. Já perambulei pelos reinos sulistas à sua procura e, infelizmente, não a encontrei ainda. Sei muita coisa sobre ela, inclusive que, embora seja inofensiva à vista, retém escondido um grande poder, o qual prefiro chamar mais de uma maldição.

Glaudir arfou. O poder da ondori era uma maldição? Hargot não havia dito nada sobre isso.

— Pode nos contar sobre ela? — pediu Hargot. — Não sabemos muito.

— As informações que consegui são confusas demais para vocês, ivirezes. Vocês não conhecem lugares fora de Haldom e os mapas que possuem só revelam o que há a leste da Cordilheira de Andrus, e ainda nem mostram muita coisa. No entanto, tenho alguns mapas aqui que podem ajudá-los e esclarecer o que vou dizer.

Levantou-se e seguiu à estante. Lá, procurou alguns rolos e tirou três, tendo cuidado para não fazer os outros caírem. A espada longa ainda em seu cinto não prejudicava seus passos, e ele voltou com papéis na mão. Colocando os objetos sobre a mesa arranhada pelas aves de rapina, desenrolou um deles. O mapa mostrava uma floresta, um triângulo de montanhas, e um rio, pelo menos eram essas as coisas mais fáceis de serem distinguidas. A escrita não era a dos ivirezes, mas se assemelhava a ela.

— Tudo começou aqui — Abidel apontou para uma floresta na parte de baixo do mapa. Feitos de tinta, os desenhos das árvores eram grandes e triangulares, muito apertadas e em cima umas das outras. — Esta é a Floresta Escura dos alvanes mais rústicos de Aragus. Vivem na escuridão da mata, no extremo sul, bastante isolados dos outros povos. Qualquer aventureiro que se arrisca a entrar na floresta se perde facilmente ou é atacado por criaturas desconhecidas e maldosas que passeiam entre as árvores sombrias. Não há relatos de pessoas que foram e voltaram em seguida, a não ser o meu. Eu sabia sobre um objeto forjado pelos alvanes-escuros mas não tinha interesse por ele, uma vez que não possuía coragem de me aventurar e tinha a certeza de que me perderia lá dentro. No entanto, quando descobri que o objeto, a tal ondori, era poderosa o suficiente para fornecer o controle sobre a luz e o fogo, decidi investigar o tipo de magia que a cercava e me espantei com os relatos pavorosos a seu respeito.

“Há trilhas ocultas na Floresta Escura, a maioria criada pelos alvanes que ali habitam para passearem livremente e seguros. Mas não se deve acreditar em todas! Umas são formadas pelos seres da escuridão e levam a uma armadilha mortal, sei bem disso, pois enfrentei vários quando entrei na mata. Aquele povo pinta pedras de branco para guiá-los às suas cidades e foi essas que segui. Entrando no estado de Gorean, denominado Gorean-rer, encontrei valiosas informações das quais necessitava.”

— Onde está Gorean-rer no mapa? — questionou Hargot, sem achá-lo. Na verdade, não havia nada dentro da floresta além de árvores em de um rio que cortava o arvoredo negro.

— Nunca encontrei mapas que mostram o interior da Floresta Escura. Aquela região é totalmente desconhecida. Até o curso do rio que a atravessa trata-se apenas de uma suposição. Ele é chamado de Surimayva, o Grande Rio de Aragus. — O rio Surimayva também passava por Haldom, então não foi difícil de os ivirezes saberem qual era, o difícil foi acreditar que tal rio conseguia chegar àquela parte de Aragus no extremo sul. — Eu conversei com o líder dos habitantes de Gorean-rer e obtive alguns conhecimentos com ele. Contou-me que um dia, um monstro gigante de fogo atacou o seu estado e incendiou aquela parte da mata e as moradias dos alvanes. O monstro, chamado de Balor pelos habitantes, clamava e gritava pelo nome de um tal Sireyg e, pelo visto desejava vingar-se de algo. Descobri o motivo depois. Gorean disse que no momento do ataque, Sireyg era mantido prisioneiro em um local oculto, na Prisão das Torturas como chamam, e Balor o procurava, atravessando a cidade com suas chamas mortíferas.

— A Prisão das Torturas? — percebeu Glaudir. — Mas Sireyg era um rei, então como pôde ser preso?

— Sireyg foi rei muito antes de ter sido aprisionado. Devem se lembrar que os alvanes são imortais, ou seja, o tempo não é um problema para eles. A Prisão das Torturas não era uma prisão horrorosa e sanguinária como o nome supõe. Ela consistia em isolar o prisioneiro por um grande período de tempo, com pouquíssima comida e água disponível. A boca e os olhos ficavam vendados, impedindo que o encarcerado falasse ou ouvisse o que se passava. Não podiam se mover, porque seus braços e pernas eram acorrentados na parede e a força era diminuída devido à fome e à sede sentida todos os dias. Feri-los não era permitido, só o isolamento. Muitas vezes, os prisioneiros enlouqueciam, não raro entravam no Sono Eterno ou se suicidavam.

— Continua horrorosa — afirmou Glaudir.

— Gorean visitou Sireyg. De fato, os lideres eram os únicos permitidos a entrarem e conversarem com os prisioneiros. Ele queria saber por que Balor, o monstro de fogo, perseguia o alvane e desejava a morte daquele que outrora fora o rei. Infelizmente, Sireyg tivera contato com bruxaria e com o mundo das sombras, onde os espectros e criaturas das trevas vagam. Ele era capaz de invocar tais seres quando quisesse e a bruxaria que usava era extremamente poderosa, sendo uma magia negra jamais vista antes. Ele a aprendeu com um bruxo, o qual prefiro não dizer o nome.

“Os guardas cortaram a língua do alvane para que não invocasse e nem pronunciasse feitiços. Além de objetos de poder, palavras são uma fonte de magia para todos os feiticeiros, e foi esperteza dos guardas tirar o órgão falante. Sireyg não conseguiu responder nada, mas Gorean deu-lhe tinha e papel para escrever, e ele assim o fez. Talvez tenha sido a prisão que o fizera confessar, talvez a loucura já estivesse chegando à sua cabeça. Mesmo fraco, Sireyg foi capaz de escrever, depois de o líder ter desacorrentado seus braços, e preferiu não fugir. Não tinha forças e sabia que lá fora haviam vários guardas armados. Não obtive a folha para mim, mas Gorean me permitiu dar uma única leitura, o que foi suficiente para me deixar boquiaberto.”

Fitou os ivirezes por um momento e respirou fundo, lembrando-se de detalhes preciosos que haviam no papel. Mudou um pouco de assunto, decidido a não confundir os visitantes com a passagem do tempo, e disse uma frase importante, a qual lhes trouxe calafrios.

— Infelizmente, Sireyg escapou e deixou uma trilha de morte e assombro por onde passou.

— Como? Estava acorrentado e fraco! — indagou Docus. — Não podia recitar feitiços por causa da língua cortada.

— Há outra maneira de fazer bruxaria e se comunicar com fantasmas, ou invocar seres maléficos: por meio de inscrições mágicas. Pequenas coisas para uns podem ser grandes para outros. Gorean se esqueceu de pedir de volta o pincel que Sireyg usara, admirado com o conteúdo da folha, e, creio eu, o prisioneiro conseguiu escondê-lo na palma da mão, fechando-a e deixando-a longe da vista do líder. Quando um dos guardas foi vigiá-lo, presenciou o fim de uma magia macabra e pavorosa. Inscrições em sangue dominavam a parede, criadas, não sei como, pelo próprio Sireyg. Uma poça vermelha pulsava no piso de partes negras queimadas. E um corpo chamuscado estava pendurado nas correntes, magrelo e com os ossos chamuscados à mostra. Todo o local cheirava a ovo podre e, embora houvesse marcas de um incêndio, um estranho vento soprava, gelando as paredes do cômodo. Nunca souberam com certeza se o cadáver negro e a poça de sangue eram do alvane ou de um guarda qualquer. Apenas bruxos e magos sabem o que realmente houve ali, ao menos aqueles capazes de traduzir a inscrição demoníaca. Tratava-se de uma cerimônia suicida que nenhum feiticeiro deseja ter que recorrer a ela na sua vida de magia. Sireyg não só se matou, como também entregou seu espírito aos espectros e agora é um ser de ódio, sem corpo físico, dominado pela maldade e pelas Trevas. A imagem do corpo pendurado e chamuscado nas correntes relampejou na mente dos ivirezes, esfriando a espinha e fazendo-os tremer. Se já fosse noite, jamais dormiriam.

— Sireyg escreveu como havia criado o objeto denominado ondori, ou seja, “luz” na língua alvânica.

— Ele roubou a Sabedoria dos Verith, não roubou? — interferiu Docus outra vez.

— Mais ou menos. Prefiro dizer que roubou o conhecimento dos Senhores Celestes, mas não sem ajuda. Balor, o monstro de fogo, havia lhe ajudado nessa empreitada. Não é à toa que a primeira frase do pergaminho é, se me lembro bem: ‘Não a conseguiria sem meu companheiro Balor, eu não seria nada sem ele.’ Porém, ao ler essa frase, uma pergunta me ocorreu: se Balor era um companheiro, talvez amigo de Sireyg, então por que o monstro queria vingança? A resposta era: Sireyg o transformou em um gigante de fogo.

— Por que alguém faria isso? — indagou Docus.

— Alguém já lhe disse que você pergunta demais, Docus?

O ivirez ficou vermelho e decidiu não questionar mais.

— Com o conhecimento adquirido e a bruxaria de Sireyg, os dois forjaram juntos uma joia brilhante, a qual, segundo o alvane, permitia que seu dono desaparecesse num piscar de olhos e realizasse magia de luz e fogo sem o uso de palavras e inscrições. Era algo grandioso para os dois. Lembro-me de outra frase: ‘A joia pode destruir como o fogo e corroer corpos e espíritos, levando a pó inimigos e amigos, mas também pode trazer a luz, cujo brilho, um dia, trará o dia na mais eterna noite, tirando a vida da sombra que tomará os céus e que virá do centro da terra.’ Não sei se é uma profecia e nem quero saber, estou deixando a história mais comprida e o tempo é precioso.

“Balor e Sireyg encantaram-se com o objeto que haviam acabado de criar e esconderam-no dos outros alvanes-escuros. Entretanto, Sireyg era bem mais astuto do que o companheiro e, por meio de feitiços, lançou uma maldição na ondori, uma coisa que ele era capaz de realizar facilmente. Quando Balor, curioso por ver mais uma vez a joia criada, voltou os olhos para ela, o feitiço atacou, transformando-o em sombra e fogo por toda a sua vida imortal. Sireyg pediu suas sinceras desculpas ao amigo na carta, do jeito dele é claro: ‘Perdoe-me, meu companheiro, por tê-lo queimado e condenado a não tocar nem se aproximar de quem ama. Mas eu a queria para mim, só para mim e para mais ninguém.’ É curioso notar que traições fazem parte da saga da ondori. Sireyg, por sua vez, também foi traído, agora por um bruxo, o mesmo bruxo que lhe ensinara as mais diversas mágicas que podem ser realizadas por alguém vivo, e também por alguém morto.”

Falando isso, os ivirezes reviram na mente a imagem do cadáver em chamas e carvão no quarto da Prisão das Torturas. Agora tudo estava fazendo sentido. Sireyg não havia se suicidado simplesmente, sua morte pertencia a um plano bem mais diabólico do que a traição cometida contra seu amigo.

— Dois cavaleiros, servos do bruxo, assaltaram o alvane. Sireyg conseguiu matar um, mas o outro levou o objeto para o Norte, onde o seu mestre estava. Mas o objeto não conseguiu chegar nas mãos do feiticeiro. Por sua vez, o cavaleiro foi roubado por ivirezes destemidos que esconderam a ondori, esses são os chamados Guerreiros Iluminados. É a última coisa que sei. Depois disso, não sabia de mais nada, até agora há pouco quando minhas aves atacaram Glaudir.

— Nós sabemos — exclamou Hargot. — Mas a história é muito longa e prefiro não contá-la agora. Não sei como, mas os Servos das Sombras estão em Haldom à procura da ondori e têm a certeza de que ela está aqui, nessa região. A única coisa que precisamos que nos diga é como destruir a ondori.

— Quê?! — Abidel levantou-se da cadeira espantado. — Destruí-la? Não! Não pode destruí-la.

— É preciso, pai — disse Hargot, aumentando o tom da voz. Foi a primeira vez que havia lhe chamado de pai diante dos outros. — Temos versos proféticos que narram a destruição da joia.

— E onde estão esses tais versos? — berrou o feiticeiro com os olhos em chamas. — A ondori é um objeto criado por bruxaria e o conhecimento dos Verith, os Grandes Celestes. É impossível acabar com ela e, mesmo se você conseguisse, a sua magia continuaria a vagar até encontrar algo ou alguém forte o suficiente para manter o poder dentro de si. Sou um Mestre da Magia, um mago, um feiticeiro, sei muito bem como funcionam as coisas do ramo da mágica.

Abidel sentou-se novamente e acalmou-se com um profundo suspiro. Glaudir pôs a mão no bolso sem Hargot pedir e largou uma caixa de fósforos e o bilhete de seu pai em cima da mesa. O homem pegou-lhe com os dedos vagarosos e manteve os olhos para a folha pequena e úmida.

— Sabe ler hamarin, não sabe? — perguntou ele, sabendo a resposta ao ver os olhos do velho passearem na direção das linhas.

— Sim. Não há dúvidas de que isso narra o fim da ondori, mas não sabemos se a magia que a habita também vai ser destruída.

— Vamos arriscar — disse Hargot, certo de que Glaudir e Docus iriam com ele. — Acreditamos que as tais “chamas” onde a joia vai ser aniquilada é um local e precisamos da sua ajuda, pois não conhecemos nada fora de Haldom.

Abidel devolveu o bilhete a Glaudir, olhou cuidadosa e atentamente o mapa no centro da mesa. O sol subia no céu e encolhia as sombras da casa. Sua luz entrava pelas janelas e pelas frechas no telhado, iluminando todo o cômodo. As aves de rapina lá fora continuavam a observá-los, empoleirados nos galhos das jovens sequoias, tão imóveis a ponto de serem confundidas com bonecos de enfeite. Os arranhões do braço de Glaudir ardiam agora que não estava prestando mais atenção em outra coisa.

— Não sei onde é — confessou Abidel, como se um peso houvesse acabado de cair de suas costas. — Felizmente, sei quem sabe e posso levá-los até ele, se assim desejarem. Estou cansado de mais para pensar e refletir. Sei que ainda é manhã, mas preciso dormir um pouco. Depois continuamos a nossa conversa. — Encarou Glaudir, os olhos fundos e castanhos tentavam ler seus pensamentos. — Não precisa esconder a ondori de mim, garoto, pelo menos, não mais. Os pássaros já me contaram o que viram antes de lhe atacarem. E Hargot, por favor, arrume esses registros. Não vamos mais usá-los.

Dito isso, saiu, sumindo de vista, na direção do quarto.


Os outros dois papéis não foram necessários, posto que Abidel só havia analisado o mapa. Num deles, como Hargot foi capaz de notar enquanto arrumava as folhas, haviam frases em alvânico, algumas cortadas e aparentemente sem relação umas com as outras. Mas três delas eram semelhantes às faladas pelo Mestre, e não foi difícil perceber que o velho anotara as frases que conseguira lembrar após ter lido o pergaminho de Sireyg para não esquecê-las. O último papel mostrava um outro mapa, mas de uma região um pouco ao norte da Floresta Escura, revelando, pelo entendimento de Hargot, montanhas e cidades. Em seguida, guardou tudo no topo da estante de livros, com cuidado para não derrubar os outros rolos agrupados ali.

À tarde, Abidel estava curioso em ouvir os três contarem o que sabiam. Aparentemente, ele conhecia Dridah, sabendo tratar-se de um vidente isolado e escondido. Contara que, corrigindo a frase anterior, Dridah não era o vidente, mas sim Feliath. Dridah era o seu monveran e assim, Feliath era um vandoriel, o qual ficara na Cordilheira de Andrus. Ao falarem sobre os Guardiães, Abidel suspirou consigo mesmo:

— Por que não pensei nisso?

Após ter sido revelada toda a parte dos ivirezes, o outro aceitou levá-los em uma viagem ao sul, onde uma pessoa saberia respondê-los mais facilmente. Porém, em desacordo, os três visitantes decidiram viajar à tal Floresta Escura pois, já que Balor criara a ondori, com certeza saberia como destruí-la. E, além disso, “às chamas” poderia estar se referindo ao mesmo, uma vez que ele se tornara um monstro de fogo. Abidel não discordou, mas sugeriu passarem pela Garganta de Maldok e os ivirezes concordaram, percebendo a inexistência de vilas e florestas com moradores naquelas proximidades. Dessa forma, por ser uma região praticamente desabitada, seria de difícil alcance dos Servos das Sombras — pelo menos, contavam com isso. Os ivirezes costumavam morar na parte norte de Haldom, onde haviam lagos e estradas recentes, assim como um solo fértil. Tudo isso possibilitava seus meios de subsistência e o comércio agrícola. O único povo a habitar as montanhas próximas à Garganta de Maldok era um grupo alvânico de um local oculto, como veremos mais adiante.

Por estarem cansados, decidiram viajar só depois de três dias, começando na madrugada do dia 09 de abril. Não faziam ideia de que, nesse mesmo dia, os seus inimigos estariam bem próximos da Floresta das Grandes Árvores.

Mas, voltando ao dia 05… A noite envolveu a mata em sombras. Ali, o silêncio pairava sobre o círculo desmatado, pois nenhum animal noturno ousava entrar, a não ser os gaviões dos galhos das sequoias, escondidos entre os cipós e trepadeiras. No momento, pareciam estar dormindo. Naquela noite, não havia lua, e uma fina e quase imperceptível névoa de prata massageava os caules das árvores.

Glaudir estava a sós com Adraner, chamado por eles de Abidel. O Mestre sentava-se em uma cadeira ao lado da lareira crepitante. As sombras trêmulas dos dois se tornavam gigantes e pavorosas; a de Glaudir assemelhava-se a um corcunda baixo, enquanto a de Abidel, a um urso corpulento e negro. Glaudir sempre imaginava que quando a raiva de Abidel acendesse, ele se transformaria em um urso voraz, por isso a imagem daquelas duas sombras no cômodo pregou-se em sua memória. O bruxo era forte, apesar da idade, e a espada, a qual nunca tirava do cinto, era bastante afiada, mesmo não usando-a para ferir, mas sim para fazer feitiços e truques. O fogo da lareira transformava o rubro das vestes de Abidel em brasas ardentes.

— Você disse que a ondori guarda uma maldição — começou Glaudir.

— Sim. Ela transformou Balor em chamas, condenando-o na sua vida imortal.

— Eu estive pensando, será que ela pode fazer isso comigo? — ele temia a resposta, mas precisava saber.

— Acredito que não. O feitiço foi preparado para Balor e já deve ter acabado com o tempo. A maioria das mágicas são temporárias e, mesmo se ainda estivesse na ondori, seu poder seria mínimo. Não precisa se preocupar com ela. Não fará mal. Assim esperamos, não esperamos?

Levantou-se e foi direto ao seu quarto, não antes de deixar um conselho:

— Recomendo-lhe, só por precaução, não usar o seu poder em demasia. Alguns feitiços podem, como posso dizer, hibernar por um certo período de tempo e despertar num momento inoportuno. A chance é pequena de Sireyg ter usado um desses feitiços, mas não podemos descartá-la.

Dito isso, batidas de asas ecoaram vindo da janela aberta. Ali, uma coruja pousou com delicadeza e encarou os dois com seus grandes e redondos olhos.

— Não é estranho? — continuou Abidel, sorrindo um pouco. — Essa é a única ave que encontrei com a qual não posso conversar. E olhe que eu entendo até os pássaros mais tolos desse mundo. — Voltou a andar, desejando boa noite, e sumiu ao seu quarto para dormir.

Glaudir permaneceu em seu canto e observou a ave por um tempo. Sentindo que devia fechar a janela, dirigiu-se a ela e tentou assustar o pássaro. Ele nem sequer reagiu. Era a mesma coruja que o irritara nas outras noites. Não sabia se estava louco, mas o animal voltou a falar, como se quisesse avisá-lo de algo.

— Não confie nele. A traição faz parte da saga da ondori.

Em seguida, voou para longe, desaparecendo na sombra da noite. Sem entender muito bem o que a coruja queria dizer com aquilo, Glaudir trancou a janela e foi deitar-se com a ondori fria sobre o peito.


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