Paulo Moreira Escritor

Filho de Khalur

um rato comendo um pedaço da lua

Em Damah, jogamos os bebês brancos no rio.

Mas maam não me jogou. Maam cuidou de mim. Por causa de Khalur, teve leite até um ano e meio. E dava tudo pra mim.

Maam me amarrou em suas costas e me levou de Damah até Gaim, de Gaim até Lakhah, de Lakhah até Balaer. De açude a açude, os pés encardidos de barro. Descansava na sombra das algarobas e me dava o peito cheio. Eu a secava, a deixava enrugada como a terra ao redor.

Foi justamente numa algaroba que paham me roubou dela. Amarrou um chocalho no meu tornozelo para que eu não fugisse. Deixou maaam sozinha ao som das hienas.

Ele me levou de volta a Damah, onde jogávamos os bebês brancos no rio, para devolver a fome e desgraça da aldeia. Desde então, estou preso a ele.

Esse paham não é meu paham de verdade. Nunca foi. Nunca será. Eu sou filho de Khalur, o rato que mordisca a lua, porque seus filhotes são vermes brancos como eu, com olhos vermelhos e zarolhos como eu. Porque Khalur destrói a lua, seca as plantações, mata os recém-nascidos pretos. Porque Khalur traz fome e desgraça.

Porque Khalur encheu os peitos de maaam, a minha piedosa maaam.


Esse texto é uma tentativa minha em escrever algo com a estrutura Kishotenketsu, ou Estrutura Oriental de Quatro Atos, que pode ser usada em textos que não focam em um conflito claro ou definido, mas na exposição de acontecimentos e ideias. Não sei se saí muito bem, nem se entendi muito bem os conceitos.

Detalhes para os curiosos:

Ki: Introdução, apresentação (parágrafos 1 e 2);

Sho: Detalhes dos personagens, preparo para a complicação (parágrafo 3);

Ten: Informação nova e "estranha", complicação (parágrafo 4);

Ketsu: Conclusão que une informações do Ki, Sho e Ten (parágrafo 5 e 6).

#poema

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