Paulo Moreira Escritor

Mandrágora

xilogravura de mandrágora, uma planta com corpo de gente sendo puxada por um cão com uma corda

Abre os olhos, princesa. Tudo vai ficar bem. Não há luz aí, ainda. Só há trevas. Feias, pesadas trevas, tão pesadas para braços tão magrinhos… Consegues levantá-los? Dói, não dói? Tudo dói.

Escuta teu pai. Ele crocita lá em cima. Sempre esteve lá em cima. Queres ver, princesa? Saber de quem herdaste o nariz pontudo, os caroços do pescoço, os vermes que abocanham tuas mãozinhas? É bom esmagá-los logo, um por um, antes que estraguem ainda mais a tua carne tão calejada.

Teus dedos já estão crescidos, percebes? Longos, afiados, espinhosos dedos.

Mas teus pulmões vieram primeiro, inchados. Inchados de tanta terra, terra negra que acolheu a semente branca dos enforcados. Devias tossir. Vomitar todos os besouros de ferro de tua mãe. Escarrá-los enquanto cortam tua garganta de papel.

Tu és cria de coisa morta, princesa. Devias chorar. Por teus pais, por teu destino, por toda essa dor que te sangra.

Sem cão te arrancarei, portanto chora. Chora! Estremece os pilares da realidade com teu grito! Derruba os deuses da razão com tuas lágrimas! Prende-os com teus dedos, Penetre-os com teus espinhos! Deixa o ouro do seu sangue curar teu corpo homúnculo!

E quando a noite se for, Batizar-te-ei na luz nascente, princesa das trevas espinhosas. Enfim respirarás. Como uma coisa viva. Como uma coisa que merece viver.


Publicado primeiro no Medium em 29 jul. 2021.

Imagem: Autor desconhecido, século VI, via Wikimedia Commons.

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