Paulo Moreira Escritor

Entendendo George R. R. Martin: Conceitos para uma boa história interativa

Nesse texto eu trago um pouquinho de alguns conceitos que podem ser encontrados em As Crônicas de Gelo e Fogo (Asoiaf) pra quem se baseia no Martin pra escrever. Tem outros, vários outros, mas optei por trazer os menos abordados, uma vez que referenciam os mais conhecidos e estão interligados.

MacGuffin: Algo banal que é importante, ou não

O primeiro que lhes trago é o Conceito de MacGuffin, cunhado por Hitchcock, aquele cara dos filmes de suspense. E o que é um MacGuffin? Bom, trata-se de um evento, objeto, um lugar ou pessoa que motiva o andamento da história. Ele se mostra como relevante no começo (para os personagens), mas depois se percebe que ele poderia ser substituído por qualquer outra coisa e mesmo assim o desenvolvimento da história não seria prejudicado.

Embora o MacGuffin seja importante para os personagens, para o leitor ele não é tão essencial assim, porque é cadeia de eventos que ele desencadeará (ou nos faz achar que vai) que chamará nossa atenção.

Quando bem feito, um MacGuffin pode nos mostrar algo pessoal dos personagens. Sabe o show do Beatles que vai fazer o casalzinho romântico se conhecerem? O show é um MacGuffin. Sabe o Cálice Sagrado que vai fazer os cavaleiros atravessarem mundos em sua busca? O Cálice é um MacGuffin. Tanto o show quanto o Cálice podem ser substituídos por uma aula qualquer ou uma boneca de pano que dá imortalidade. A história continuará praticamente a mesma.

Em Asoiaf, temos a chegada dos lobos gigantes, que aparentemente cumprirão um papel maior na narrativa. Isso não acontece. Toda (ou quase toda) a história é focada nos acontecimentos políticos. Os lobos só estavam ali pra... Bom, enfeitar as coisas, mostrar algo sobre as personalidades dos Starks e Theon, e servir como foreshadowing.

Efeito Borboleta: Como assim eu sou a causa dos tornados no Japão?

O segundo conceito é o Efeito Borboleta, que não me estenderei muito pois o nome é autoexplicativo. Tudo tem uma consequência, tanto boas quanto ruins. Em Asoiaf, são as ações dos personagens.

Diabolus Ex Machina: O Universo gosta de uma boa trollagem

O próximo conceito, senão o mais conhecido em Asoiaf, é o Diabolus Ex Machina, ou "O Diabo que surgiu da Máquina", que é o oposto do Deus Ex Machina, ou "O Deus que surgiu da Máquina". Os dois termos se referem a eventos inesperados, mirabolantes, desligados dos personagens. O Deus Ex Machina é algo bom, como as águias salvando Frodo e Sam em O Senhor dos Anéis. Já o Diabolus Ex Machina é algo ruim, como o mundo literalmente pegando fogo em O Anel dos Nibelungos.

O Deus Ex Machina ultimamente não é tão bem visto, mesmo que haja dicas na narrativa indicando que vai acontecer. É tido como uma solução preguiçosa. Já o Diabolus muitas vezes nem precisa de dicas. O povo gosta de ver os personagens sofrerem - mas coloque dicas, por favor. Martin usa muito o Diabolus em suas várias cenas trágicas, justificando-o com o Efeito Borboleta. Geralmente, algum personagem ignorou alguma coisa e... morreu. Simples assim.

Red Herring: Tem certeza que tá indo pro lugar certo?

Nosso quarto conceito é o Red Herring, ou "arenque vermelho". É uma pista falsa, um peixe fedido que serve pra distrair os cães da caça. Muito usado em histórias de detetive e suspense, torna o personagem mais humano, expondo suas falhas - a menos que ele seja o Sherlock Holmes que acerta até quando erra.

O red herring puxa o leitor pra uma trilha errada, tornando o impacto da verdade mais agressivo. É o oposto da Arma de Tchekhov, que diz que "se você mostrou uma arma na parede, é porque alguém vai usá-la depois".

Sabe nos livros de Dan Brown quando tudo nos indica que o vilão é aquele cara, e na verdade não é. E não só você caiu nisso, mas o personagem também. Então, as pistas que te levaram a crer nisso foram um bom red herring.

Sabe quando a gente fica discutindo quem é Azor Ahai, se ele é filho dela, que ela vai aparecer em determinado momento por causa de profecias e dicas que estão ali te seduzindo, óbvias ou não? Então, pode ser um red herring te enganando, ou pra te fazer ignorar um fato importante, porque o personagem também ignorou, ou pra te impactar com a verdadeira verdade, porque o personagem também foi impactado. Em outras palavras, o red herring te coloca na pele do personagem. Se ele tá sendo trollado, você também está.

Ah, mais cuidado! Modere nos red herrings. Quando tem muito a gente abusa, e o autor pode ser confundido com um "cara que não sabe muito bem o que fazer da história".

Todos esses quatro conceitos são reunidos em um nível mais macro nos arcos dos personagens de Asoiaf. Claro, o Martin é roteirista, ele sabe unir as coisas pra formar uma história interessante. Mas se você for parar pra pensar, tais conceitos não renderiam uma história tão "positiva'" aos personagens. Como fazer o personagem evoluir com um Diabolus Ex Machina pronto pra tacar o terror? Ou guiar o personagem no caminho certo com tantos arenques fedidos pra distraí-lo?

Arcos Negativos: Indo de mal a pior

Acontece que Martin aproveita esses conceitos nos Arcos Negativos, pelos quais quase todos os seus personagens passam antes de irem para um positivo (se sobreviverem até lá). Basicamente, arcos negativos tratam de personagens que passarão de um patamar mais elevado ou normal para um menos elevado, ou pior. E por isso é bastante usado na criação de vilões e tragédias.

Há três arcos negativos: O da Desilusão, o da Queda, e o da Corrupção. Todos consistem em 3 atos. E o que separam esses atos? Escolhas dos personagens, que terão consequências. Essas consequências, por sua vez, vão carregá-los ainda mais para o mundo sombrio, até que estejam totalmente imersos nele e não possam mais resistir.

Sacou as duas palavrinhas mágicas? Escolhas e consequências, que estão relacionadas ao conceito de Efeito Borboleta. Como são arcos negativos, é natural que essas consequências sejam ruins, ou seja, Diabolus Ex Machina. E que tal usar vários red herrings para que o personagem ache que está sendo guiado a algo melhor, pra justificar suas ações? E um MacGuffin pra dar início ao arco? Perceba que Martin usou esses conceitos porque fazia sentido nos arcos de seus personagens, na sua história sombria, e não só por que quis usar.

E agora, após esse longo (e espero que útil) texto, vamos ver Asoiaf em um nível muito mais macro, ver Westeros lá de cima como o sol na abertura da série, ver os povos se movendo, castelos sendo construídos, pessoas se amando e se matando... Há um sentido em tudo isso? Alguma ordem?

Jornada Coletiva: Se a gente não se unir, a gente tá ferrado

Bom, talvez. E eu digo talvez porque é algo novo: A Jornada Coletiva. Esse é um termo cunhado por Jeff Gomez para uma modalidade nova de contar histórias, que surgiu com as plataformas de streaming, crises sociais/ambientais e a diversidade de espectadores/leitores. Trata-se de uma jornada que rompe com a Jornada do Herói, esta que não é muito adequada para as massas.

Enquanto a Jornada do Herói foca na evolução de um personagem, a Jornada Coletiva foca na evolução de um sistema, em como a pluralidade se relaciona. Na Jornada do Herói, o personagem é especial. Na Jornada Coletiva, ele é só mais um entre muitos. Na Jornada do Herói, o personagem vai ser ajudado por muitos. Na Jornada Coletiva, ele vai ter que se virar sozinho. Na Jornada do Herói, o mundo comum é perfeito. Na Jornada Coletiva, ele precisa ser reparado. E o processo de reparação é complexo, pois mexe com pessoas plurais.

Alguns conceitos da Jornada Coletiva podem ser vistos em The Walking Dead, Steven Universe, Westworld e Orange is the New Black. O Martin optou por focar na parte cruel dos relacionamentos entre pessoas diferentes, pois seu gênero é mais sombrio. Mais um motivo pra usar os conceitos vistos aqui.

Ah, dica final: Esses conceitos são ótimos para uma história interativa. Se bem usados, seu leitor vai ficar se coçando pra descobrir o que vai acontecer a cada página.

E não é assim que é As Crônicas de Gelo e Fogo?

#escrita #martin

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