Paulo Moreira Escritor

Mushishi: uma história ecológica sem heróis, e sem vilões

capa de mushishi

Faz um tempinho que eu assisti as duas temporadas de Mushishi, anime produzido pela Artland baseado no mangá de mesmo nome, criado pela Yuki Urushibara.

O anime se passa num Japão antigo dominado por floresta e montanhas, onde o espaço original foi pouco alterado pelo homem.

É composto por várias histórias, ou contos, unidas por um personagem em comum: Ginko, um médico que "cura" as alterações causadas pelos mushis.

Mas pera, o que é um mushi?

Então, eu não sei. O anime também não tem o pretensão de definir os mushis e classificá-los como animais de RPG. Afinal, a natureza é diversa demais para acharmos uma padronização perfeita, que só esconderia essa diversidade. A abertura nos fala que são criaturas ancestrais apenas vistas por poucas pessoas, sem forma específica. Visualmente podem ter forma de animais, fungos, vírus, bactérias, cristais, plantas... Qualquer coisa.

Não tão compreendidas pelo povo comum, a sua presença altera a natureza ao redor, até mesmo o ser humano. São as consequências desse contato com o ser humano que move o anime, que vão nos contar as histórias dos personagens, de como eles reagem à mudança.

Não é algo lovecraftiano em que as pessoas ficam loucas ao presenciar algo incompreensível. Em Mushishi, quando as pessoas têm contato com o sobrenatural, elas passam a pertencer ao sobrenatural. Comunicar-se mentalmente com uma amiga, dar à luz um filho de pele verde, escutar musgos, perder a sombra, ser perseguida pela chuva, atrair vendavais são alguns exemplos. E os mushis também se modificam com esse contato.

Na maioria dos episódios, as consequências são vistas como doenças, um parasitismo. Cabe a Ginko encontrar a cura para o personagem e para a ignorância do povo. O que diferencia Ginko dos outros médicos é que ele não pretende "matar" os mushis parasitas, mas salvá-los também. Mesmo sendo homem, sua narrativa não é focada em destruição, em se aproveitar dos conflitos para crescer como várias histórias "masculinas" que vemos por aí.

Eu o compararia com o Newt Scamander de Animais Fantásticos, que também tem uma masculinidade não tão bem vista nas telas, uma masculinidade focada na preservação. Talvez pelos dois personagens terem sido criados por mulheres? Aí eu estaria padronizando. O Newt é o Newt. O Ginko é o Ginko. Só assistindo para entender melhor.

Vale destacar: O ritmo do anime é bem lento, principalmente na segunda temporada. Parece um slice of life de fantasia contemplativa. Os cenários de natureza são lindos. As histórias não são tão complexas e você pode até achar tediosas se não aguardar o ponto de mudança (lembra do post de kishotenketsu?). A trilha sonora é suave até em cenas tensas. Relaxa. Apazigua. Como a natureza.

#anime

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