Paulo Moreira Escritor

Capítulo 10 OSDD - O Ermo Cinzento

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A noite enegrecera tudo. A água escura do rio gelava os ossos de Docus e Glaudir, fazendo-os tremer no líquido quieto e silencioso. Após alcançarem as margens, os dois escorregaram, mas conseguiram se manter firmes, saindo apressados do veio. O espelho visto por Glaudir não passava de sombras.

Encharcado, Glaudir virou-se para os companheiros do outro lado do rio. Uma sombra ondulante consumia a região e deixava-a às escuras. Uma voz grossa bradou imponente em meio às palavras tenebrosas da enchente de névoa.

Envycalma dicílir onthar! Dícil onthar, dícil lëmiden, binikeon dicíleonen, dwenuem liae!

Docus e Glaudir foram levados para trás por uma força poderosa. Caíram de costas com a imagem de um clarão a afastar a sombra maldita. Uma onda de tremor moveu a face das águas quietas e obrigou o inimigo a parar, devorando completamente o seu ataque negro. Os dois ivirezes viram Abidel e Hargot fugirem através da luz pálida e pura e logo os imitaram.

O bosque se aproximava com as suas árvores velhas, encarando o rio que passava ao lado.

— Venham! — gritou Docus. — Podem atravessar o rio.

Após correrem molhados, pararam para esperá-los, mas os companheiros continuaram a fugir, sem ao menos lhes darem uma olhada.

— Por que não estão me ouvindo?

— Estão, mas não podem obedecer — respondeu Glaudir. — Os Servos das Sombras estão muito rápidos. Não vão conseguir!

Um relincho cortou a profunda noite, tão claro e temível que balançou a terra fixa.

— Corra Docus! — ordenou Glaudir.

O vulto alto e tenebroso chegava em alta velocidade, a espada na mão assobiava ao vento enquanto lançava uma energia oculta. Haviam vários barrancos no percurso, por isso os ivirezes foram perdendo a rapidez. Rochas fizeram-lhes tombar e outras menores rolavam quando pisadas, quase derrubando-os. Foi numa dessas que Docus tropeçou e caiu na escuridão. A pancada assustou Glaudir, mesmo assim, ele seguiu adiante, enquanto o Servo das Sombras descia a espada e se encolhia para atacar o companheiro.

— Glaudir, me ajude!

O ivirez virou-se. Ele não tinha armas, como podia defendê-lo? A única maneira era pular entre ele e a espada, mas isso acarretaria na sua morte. “Ondori.”, pensou ele. Tocou forte o objeto e o cobriu com a mão. Um pequeno traço de luz, azulado e límpido, tingiu seus dedos de branco. O brilho sumiu quase no mesmo instante no qual aparecera.

De repente, um grito pavoroso de dor machucou os ouvidos dos ivirezes. A espada do Servo desceu mais, entretanto, o súbito clamor assustou o cavalo demoníaco e o inimigo perdeu o equilíbrio no animal. Caiu no chão coberto de rochas. O grito misterioso e agonizante viera do outro lado do rio. Glaudir chamou por Docus e este correu para o seu lado enquanto armava o arco com uma flecha-safira. O cavalo ficou imóvel, os olhos vermelhos e ensanguentados fixos num só ponto. O cavaleiro levantou-se, observando o pânico a sobrevoar todos os Servos. O mesmo terror o abismava.

Sem entender nada, os dois ivirezes partiram disparados e fugiram mais velozes do que antes. Não faziam barulho, pois temiam que o cavaleiro escapasse do seu devaneio. Mas aquele Servo das Sombras sabia o que estava acontecendo, já havia presenciado aquilo em um outro tempo, para ele, não tão distante do presente. O terror durou pouco; uma voz em sua mente lhe trouxe à realidade e ele voltou para matar os fugitivos. Saltou em cima do cavalo, agora pareciam um só.

— Rápido, Docus — gritou Glaudir.

Docus manteve os olhos no inimigo e atirou. A flecha-safira zuniu, mas foi ricocheteada pela espada maligna do espectro.

Ainda segurando a preciosa joia, Glaudir discerniu uma faixa de luz em seus olhos e, de uma hora para outra, o lugar não era mais o mesmo. O ermo se estendia em sua vista incólume até o horizonte onde as montanhas o abraçavam. Viu com clareza os picos gelados e brancos da Cordilheira de Andrus, a lua a se aproximar deles, um misto de azul e prata, rodeada de belíssimas estrelas. Divisou uma estrada comprida entre a terra desértica, gramíneas intermináveis vestiam de verde vívido o solo cinzento. Um cavaleiro vagava rápido pela estrada. Discerniu sua capa azul desfraldada, a bengala magnífica em sua mão. Seus braços escondiam alguém no lombo do cavalo. Glaudir percebeu o desejo da ondori em mostrar aquilo, mas não conseguiu saber o porquê.

Uma voz ecoou em murmúrios ali perto, chamando sua atenção. O inimigo apareceu. Sua espada estendida descia na horizontal, preparada para ferir e matar.

— Docus! — gritou, mas ninguém escutou sua voz.

O issacerez abaixou-se em vão. O Servo das Sombras saltou do cavalo esquelético e puxou-o para perto do rio. A espada tiniu em direção ao peito de Docus, veloz e certeira. O ar foi cortado com um assobio, quase inexistente de tão baixo. Porém, para Glaudir que ouvia e via tudo claramente, parecia o toque de uma flauta.

Percebeu que o cavaleiro não era tão rápido quanto pensava. O ivirez saltou, levíssimo, deslizou entre as pedras afiadas e parou para defender o companheiro. Não lhe deixaria morrer. Segurou firme a bengala e imobilizou a arma inimiga. A madeira deveria ruir no mesmo instante, mas permanecia sólida. Em um ataque rápido, Glaudir avançou contra a sombra e perfurou seu peito enevoado. A bengala feriu com poder de espada, um raio azulado cortando o coração negro do inimigo. Quando o ivirez puxou a arma, a cicatriz avermelhou-se, abrindo-se com o coração à mostra. Ele parecia um eclipse solar; um círculo preto rodeado por finos raios de luz vermelha. O fogo nos olhos do cavaleiro enfraqueceu, tornou-se negro e, depois, um cinza despedaçado e inútil. Mesmo com aquele ataque, o Servo das Sombras não morreu. Todavia, ainda teria mais um obstáculo a enfrentar.

Glaudir puxou Docus, mas não conseguiu senti-lo. Batidas altas entoaram numa sincronia repetida. O ivirez recuou, caindo no chão com medo do repentino barulho. Algo voou sob o céu repleto de estrelas e pousou ao lado do issacerez. Sua cauda enorme atacou o Servo das Sombras, e teria acertado em cheio a cabeça de Glaudir se este não estivesse caído. O vulto se esquivou, mas estava fraco demais para lutar contra o monstro. A visão de Glaudir sumia aos poucos e, assim, ele não conseguia entender o que presenciava. A única coisa que sabia era que Docus agora estava montado no ser alado que chegara inesperadamente. Tonto, levantou-se e observou o animal enquanto o cavalo corria para seu dono com as pernas magricelas. Ele conhecia aquilo, já tinha o visto, mas não sabia onde e o que era. Estava confuso demais para pensar. A mão decepada da criatura emitia um halo roxo, assim como vários ferimentos em seu corpo. O Servo das Sombras avançou e perfurou a barriga do monstro, o qual soltou um berro de dor.

Aos poucos, a escuridão da noite retornava, cedendo seu lugar ao ermo sombreado. A lua se punha, escondia-se nas altíssimas montanhas da Cordilheira de Andrus e esticava as sombras do leste. Quando elas o alcançaram, Glaudir ouviu vozes e chamados. A voz, ele tinha certeza de que era de Docus.

— Glaudir! Onde você está?

E então, a criatura ergueu as asas, carregando seu companheiro consigo. O Servo das Sombras cavalgou para feri-la outra vez, mas não foi rápido o suficiente. Uma rajada de vento empurrou os cabelos de Glaudir e, em um piscar de olhos, o ser misterioso não estava mais ali. Voou a seguir o percurso do rio. Ele correu, sem tirar os olhos do companheiro. Esquecera completamente do inimigo. Seu único pensamento era salvá-lo.

— Traga meu amigo de volta! — gritou ele.

A voz não saíra de sua boca, emudecida pela garganta seca. Continuou gritando enquanto vozes chocalhavam em ecos na sua mente. Depois que eu atirar, Hargot, corra. Eu irei atrás de você. Um clarão explodiu em suas costas e línguas de fogo salpicaram através das árvores secas do arvoredo. Mas Glaudir não quis olhar para trás.

— Traga meu amigo de volta! — gritou novamente.

A criatura sumia no céu noturno. As sombras abafavam o som de suas asas. Corujas! E todos os pássaros que estiverem acordados, voem e nos ajudem nessa hora! Uma nuvem sobrevoou o ivirez com garras afiadas, contudo, não foram capazes de tirar seu foco.

Viu que o ser alado desaparecera entre as estrelas. Viu que a noite já o alcançava e que não havia mais lua para iluminar e defendê-lo. Uma energia maléfica arrastava-se em seus calcanhares, mas não deu valor a isso. Precisava salvar seu companheiro. Já perdera Tick, não perderia Docus dessa vez.

— Traga meu amigo de volta! — gritou, ou sussurrou. Foi nesse terceiro grito que viu que estava sozinho, em um ermo mudo e cinzento.


O poder da ondori se dissipou e, com isso, a leveza sumira. As pernas doíam como se estivessem sendo pressionadas contra duas rochas, bombeavam e topavam nas pedras do caminho. Glaudir teve medo de cair e bater de cara no chão, mesmo assim, prosseguiu com o percurso. A lua desaparecida tingia o ermo de cinza enquanto o rio ao lado rastejava como uma serpente. Sabia que devia segui-lo, pois era por ele que a criatura levara Docus.

Glaudir não tinha armas, nada com o que pudesse atacar ou se defender, a não ser a joia prendida no seu pescoço. Teve um calafrio ao lembrar do conselho de Abidel. Alguns feitiços podem, como posso dizer, hibernar por um certo período de tempo e despertar num momento inoportuno. Respirou fundo para correr mais rápido, no entanto, a lembrança de Abidel e Hargot o parou. Eles podiam ajudá-lo a encontrar o issacerez.

Naquela escuridão, não conseguiu avistar o bosque. Apenas uma luz dourada se esticava no céu, arremessando uma fumaça preta que dava enjoos. Vislumbrou os uriarques a queimarem quando iam para a Cachoeira Ant e temeu o pior. Mas, talvez, aquilo fosse um dos truques de Abidel. Faíscas escalavam vagarosamente o firmamento estrelado, tremeluzindo sobre as chamas. “Estou tão longe…”, percebeu. Dali de onde estava, o fogaréu parecia apenas uma tocha cravada na terra. “Não dá tempo de voltar, se não Docus…”, interrompeu o pensamento. Não queria pensar no que podia acontecer ao companheiro de viagem.

Inspirou o máximo de ar que conseguia e voltou a correr à procura de Docus. Mal podia ver qualquer coisa no horizonte, muito menos se algo passasse pelo céu. O vento frio jogou uma fina nuvem de poeira contra seu rosto. Cada passo era uma tortura. Embora usasse sapatos, qualquer batida era uma martelada em seus dedos. As pernas começavam a tremer de tanto cansaço, e Glaudir cambaleava de vez em quando. “Não. Por favor, continuem a correr! É para o bem de Docus.” O ivirez já perdia o controle sobre elas, e o solo parecia ficar mais duro conforme andava.

Glaudir quis correr mais apressado, porém não pôde. As pernas desistiram de prosseguir com tamanha exaustão, e o ivirez caiu. Dobrou o joelho e se apoiou nele; o membro ardeu com as picadas dos pedregulhos.

— Droga! — grunhiu. Agora ouviu sua própria voz.

Sentou-se e tentou limpar os joelhos com os dedos. O direito estava cheio de sangue e areia. Sentiu ainda mais dor ao tocá-lo, mas o pensamento de salvar Docus era muito mais importante do que um joelho ralado. E, além do mais, ele tinha uma bengala.

Não pôde correr, porém andou sem muita dificuldade. Contudo, as pernas continuavam a tremer de cansaço. O ermo o matava de dor ao não revelar seu fim, talvez quisesse que Glaudir largasse a empreitada. Só os pensamentos acompanhavam o ivirez naquela escuridão desértica. “Onde estão Abidel e Hargot?” Eles já deviam ter chamado, gritado por seu nome. Mesmo se estivessem longe, o vento frio que vinha do norte iria trazer o grito aos seus ouvidos. Quem sabe não haviam procurado os dois companheiros por um tempo, e depois renunciado a busca? Não havia razão para procurar alguém que correra sem olhar para eles, como se quisesse fugir da sua presença. E foi justamente isso que Glaudir fizera. “Nos abandonaram! Me deixaram para eu destruir sozinho a ondori. E eu nem sei como chegar na Floresta Escura!” O ermo lhe sussurrava vários desses pensamentos depressivos e, assim, a face disposta a ajudar Docus se derreteu em tristeza.

Abidel e Hargot haviam lhe abandonado. “Por que? Ficaram com medo de andar com o portador da ondori?” Como se sua cabeça quisesse deixá-lo ainda mais triste, ela respondeu: “Com certeza. Quem não ficaria com medo ao andar com o Último Guardião? Você traz perigos para si mesmo e, consequentemente, para eles. Após presenciarem o poder dos Servos das Sombras, eles notaram o risco que corriam e decidiram abandoná-lo.”

Glaudir fraquejou. Teria caído de novo se a bengala não lhe desse forças. Recordou uma frase do pai, Glaucor, agora em Umilzend com Tick. “Quando fazemos inimigos, os nossos amigos correm perigo também.” O filho sorrira naquele momento: “Então, é melhor não termos amigos, não é?” E o pai o repreendera: “Mas que conclusão tola, meu filho! O melhor mesmo é não termos inimigos!” Fazia sentido. E o pior, seu inimigo era um bruxo, um necromante, um assassino, um monstro. Abidel e Hargot tinham feito a escolha certa.

Aos poucos, uma grama alta e grisalha à luz da noite foi surgindo, cobrindo os pés do ivirez e deixando o solo macio. Uma gota de sangue negro escorreu e molhou a perna de Glaudir. “Abidel…”, refletiu, “não pode ser verdade!” O feiticeiro havia lhe traído, e Glaudir foi mesmo um tolo por não dar a devida atenção ao que a coruja branca das Grandes Árvores advertira. A traição faz parte da saga da ondori.

— Tolo! Tolo! Não devia ter confiado nele.

Sentiu raiva, não de Abidel mas de si próprio. Irritava-se em saber que fora enganado e, principalmente, por ter permitido ser enganado. Hargot com certeza acompanharia o pai, afinal, é fácil persuadir parentes. “Mas ainda há Docus, ele não vai me trair.”


Glaudir parou para observar a região. Não havia nenhum sinal do issacerez. As estrelas continuavam a cintilar no céu, e apenas elas, mesmo distantes e imóveis, traziam luz à terra. Avistou o que supostamente eram colinas ao longe, mas por sorte não estavam em seu percurso. Abaixou a cabeça ao sentir o peso do abandono. Teve medo de não conseguir encontrar Docus. Seus olhos lacrimejaram. Não era capaz de destruir a ondori sozinho e sem ajuda; era uma missão grande demais para apenas um ivirez viajante.

“Que Lúminar os ilumine nessa pequena estrada”, dissera Glaucor, mas ele não imaginara os caminhos e encruzilhadas que surgiriam, ou será que imaginara? Talvez fosse por isso que lhe dera Sólut, para lembrá-lo do pai e da mãe. Entretanto, se tudo aquilo fosse mesmo a uma simples estrada, haveria também atalhos para percorrer. Esse pensamento esperançoso guiou as pernas de Glaudir. Apoiando-se na bengala, refletiu melhor sobre Abidel e Hargot. “Não me abandonaram! Eles tinham que lutar contra aqueles três Servos das Sombras ou distraí-los, a fim de que não tomassem a ondori de mim. Estavam me protegendo!”. Um límpido sorriso faiscou em seus lábios pesarosos, mas apagou-se na mesma velocidade em que nascera. Eram Servos das Sombras? Como escapariam?

Tentou dirigir os pensamentos para outro local. Como acabaria com a joia se não fazia ideia de para onde ir? Notou que Abidel os levava à Garganta de Maldok, onde alguém os ajudaria. Focou a missão nisso, levar a ondori para a Garganta de Maldok e, depois, planejaria o resto. Se não encontrasse os atalhos dessa estrada, ele a dividiria em partes menores, focando cada parte na sua vez. E ele havia feito isso o tempo todo afinal. Primeiro, só precisava ir à Cachoeira Ant, depois o objetivo foi à casa de Abidel, agora seria a garganta. Ele nunca andara por ali, porém sabia que o rio ao seu lado a atravessava. Dessa forma, só precisaria segui-lo. “Então, é isso. Vou voltar às montanhas!”

Ainda havia esperança, essa esperança o guiaria à luz e a luz afastaria as trevas. Glaudir contava com isso, que a luz realmente afastasse a escuridão. Faça bom uso da luz da ondori. Suas lembranças piscavam rápidas como relâmpagos e todas elas pareciam ajudá-lo, como se, mesmo ausentes, as pessoas ainda pudessem aconselhá-lo. A ondori era a luz, faria com que ele conseguisse ver o companheiro. Pensamentos atraíam mais pensamentos, e todos queriam que ele completasse sua missão.

— Farei bom uso — exclamou.

Mesmo se estivesse vagando no desconhecido, sem companheiros, sem destino algum, nunca estaria sozinho. O pai, Glaucor, contava com ele, assim como Tick, Hargot, os Guerreiros Iluminados e os Issacerezes de Lúminar. Todos esperaram por isso. Os Guardiães haviam escondido a ondori para que aquele momento chegasse. Estavam com ele, e Glaudir só podia percebê-los se parasse para escutar a si mesmo. E sempre estariam ali, nunca iriam abandoná-lo. O ivirez alegrou-se e, finalmente, sentiu-se privilegiado em ser o Último Guardião.

Tocou a ondori e suspirou: — Não estou sozinho e jamais estarei. — Ao ouvir aquela frase, o medo da solidão escapuliu como uma bolha embaixo d'água, subindo ao alto até desaparecer na superfície de onde nunca mais voltaria. Agora não era ele quem havia sido abandonado, mas sim o medo que tanto o atormentava. Pela primeira vez, o ivirez quis destruir a ondori.

É uma pena estragar esse momento, e eu poderia escrever mais sobre a sensação alegre e esperançosa que Glaudir sentia, se ela realmente houvesse durado por um bom tempo. Mas, como são os pensamentos, não durou nem um segundo. A felicidade não sumira, no entanto, fora esmagada por um sentimento destruidor, sombrio e aterrorizante. Glaudir transformou-se em estátua, se desse mais um passo, poderia morrer. Seus olhos arregalaram e o coração pulsou tão forte que quase saltou pela boca.

Tremores e mais tremores, bastantes nítidos e conhecidos. A cada casco contra o chão, Glaudir sentia uma flecha afiadíssima perfurar suas costas. Eram gélidas a ponto de sufocarem o ivirez. Ele ofegou como se águas o afogassem. As estrelas desapareceram, tomadas pelas trevas enquanto uma lâmina assobiava no ar, pronta para um novo embate, farejando a vitória. O Servo das Sombras havia lhe reencontrado.


Glaudir reagiu. Correu o mais apressado que conseguia. Não ousou olhar para trás. Sabia quem era e para que fora mandado. O joelho ardeu e o ivirez fraquejou novamente, segurando-se firme na bengala. Voltou a correr sem o apoio do objeto, e as pernas não doeram mais, agora deslizavam entre a grama alta como se estivesse patinando no gelo. Uma luz rubra chamuscava em suas costas. O ivirez sentiu uma fornalha a queimar, mas já conhecia aquela sensação, por isso, não ficou surpreso. Aparecera após ferir o Servo das Sombras, quando seu coração eclipsado ficou à mostra. Glaudir notou o cavalo a segui-lo, o que era impossível, pois ele estava oculto graças à luz da ondori. Perceber isso o fez tremer e mudar o semblante. Ao olhar para o chão, viu que deixava uma marca no solo amarelado, produzida por seus passos onde amassara a grama. Era essa pista que o Servo das Sombras seguia.

A espada sem brilho tiniu e Glaudir esquivou-se. Ficou face a face com o inimigo outra vez. Os olhos cinzentos e ferozes o encaravam como se o visse, mas, ao mesmo tempo, não acreditavam naquilo à sua frente. A capa faminta se esticava para engolir o vento ao seu redor.

Eu posso sentir…

Mais uma vez, a espada sibilou. Glaudir só pôde discernir uma listra no ar deixada pela lâmina. Em resposta, puxou a bengala para si e defendeu-se. Mas o assalto foi forte demais. Glaudir caiu com a mão latejando. Duas batidas céleres planaram sobre o gramado amarelo. O ivirez também as conhecia. Não eram os cascos malignos do animal esquelético, era o som da outra criatura. O cavaleiro olhou o céu, os olhos arregalados dirigidos a um só ponto. Glaudir o imitou, passando a enxergar o ser que raptara seu companheiro de viagem.

As asas do monstro se erguiam para cima e para baixo, ao passo que a cauda se alongava para um ataque. Uma luz intrigante tremeluzia no seu corpo esquisito. Ele pousou com um grito de estourar os tímpanos. Avançou em direção ao Servo das Sombras, e Glaudir se viu em meio a uma batalha sanguinária. O brilho vermelho do inimigo e o brilho roxo do monstro se entrelaçavam.

Glaudir percebeu que não havia razão de permanecer ali, então pensou em voltar a correr. Mas outro pensamento brotou em seu interior, nocivo como erva daninha. “Abidel, Hargot, Docus!”, pensou ele. “Mortos!” A criatura não largaria a refeição, tampouco os Servos das Sombras perderiam para Abidel e Hargot. Uma raiva crescente ascendeu, uma energia quente consumiu sua respiração. Os assassinos estavam ali, os dois juntos, a lutarem sem sequer notar o ivirez. Era sua única chance de vingar os três amigos, era sua única chance de matá-los.

Pegou a ondori que cintilava num brilho azulado e frio. Ela começou a arder. O ivirez gritou, mas ninguém pôde ouvir sua voz. Como ácido, a joia queimava seu peito e sua mão. Glaudir tentou largá-la, mas não conseguiu. Ela o controlava. A raiva chamuscou no corpo do ivirez e correu pelo solo para devorar o gramado amarelo. Rachaduras finas e vermelhas rastejaram na terra, expelindo fumaça e cinzas. A joia tornou-se sangue, sempre a queimar. Consumia Glaudir com seu brilho vermelho, cegava seus olhos.

— Socorro! — gritou.

Nesse mesmo instante, o cavaleiro e a criatura pararam. Um círculo de fogo os rodeou, carbonizando o gramado e trancando-os nas chamas.

Sozinho, incapaz de soltar a joia, Glaudir tentava conter as explosões de pensamentos que ardiam em seu crânio. Zumbiam, berravam, roubavam todas as suas forças. O ivirez caiu no chão desesperado; uma mão posta na orelha para não ouvir mais nada. Sua ira aumentou. Línguas de fogo saltaram das fendas do solo. “Abidel, Hargot, Docus! Onde estão vocês!?” Pensar doía, doía tanto.

Sim, pequeno ivirez — um sibilo, nefasto, ou quem sabe murmúrios, tenebrosos. Outra língua, mas… compreensível? — Use o poder do fogo que a ondori lhe oferece.

A criatura gritou. O fogo ainda não a queimava, no entanto, a espada do Servo das Sombras penetrara seu peito.

Mate aqueles que os mataram!

Sireyg. Era ele.

Raiva. Mais raiva. Redemoinhos de fogo dançaram no gramado. Seu brilho era sangue.

A criatura caiu. A cabeça era cinza. As patas estavam banhadas em sangue. Uma faixa de pano escondia a mão decepada.

Ódio. Só ódio. Ódio de si mesmo.

— Húria! — gritou.

A fúria se dissipou. Um vento suave apagou o local. As rachaduras se estreitaram e os redemoinhos foram carregados para longe, tragando as línguas de fogo.

— Húria! — clamou de novo.

Não era um monstro, nunca fora. Era Húria, e ela certamente havia salvado Docus. Ela nunca os faria mal.

A ondori luziu só mais uma vez e depois o brilho se esvaiu, tornando-a fria como gelo.


Um clarão dourado guiava os passos calmos da aurora. Mesmo assim, Glaudir não via direito o que estava acontecendo. Os olhos banhados em lágrimas estavam cansados demais. O Servo das Sombras desapareceu numa névoa preta no mesmo instante em que o brilho do sol nascente o alcançou. Seu animal cadavérico continuava ali, parado. Os olhos já não mais vermelhos eram negros, e ele parecia um animal faminto e abandonado. Era peludo e as únicas lembranças de seu dono eram a sela e as rédeas negras que possuía. As crinas pesadas de sujeira tentavam esconder as manchas em seu dorso, pelos verdes despontavam dos joelhos cortados. Tratava-se de um animal selvagem, fraco e doente. Glaudir não teve medo dele. Na verdade, teve pena.

Húria ofegava caída no solo chamuscado. Brasas ainda brilhavam entre o gramado seco. Glaudir percebeu que o fogo havia se espalhado e queimado tudo com agilidade, pois havia fogueiras mais ao longe. Foi em direção à monveran, mancando por causa do joelho ferido. Havia largado a bengala quando caíra com a voz do terrível Sireyg a entoar em sua mente. Tocou na cabeça do animal alado. As asas permaneciam esticadas e imóveis.

— Me perdoe. Não queria fazer isso — murmurou o ivirez.

As lágrimas escorreram pelas bochechas e pingaram sobre a pele enrugada de Húria. Glaudir sabia que as chamas produzidas não haviam tocado a monveran, mas, mesmo assim, se sentia culpado. Afinal, fora ele quem prendera o Servo das Sombras com ela no círculo de fogo.

— Eu não queria fazer isso — repetiu ele. — Não sabia que era você e tudo estava con… — parou e não conseguiu prosseguir.

Húria permaneceu imóvel, apenas tentando viver por mais um tempo.

— Docus — suspirou Glaudir. Todas as reflexões e pensamentos obtidos não passavam de engano. Devia ter percebido que eram teorias e suposições. Não devia ter as levado a sério. Docus estava vivo, contudo, não estava com Húria. — Sabe onde ele está?

A monveran virou a cabeça, encontrando uma posição na qual era mais fácil respirar. Permaneceu desse jeito por um bom tempo, sem olhar para o ivirez. Não o conhecia ou, então, não queria ter conhecido.

— Onde você o deixou? — Glaudir gaguejou um pouco, mas a voz continuou firme. Não devia perder tempo se lastimando, devia focar em Docus. O issacerez podia estar perdido, as chances de ter encontrado Abidel eram mínimas.

Húria se mexeu, mas foi um movimento pequeno. Estava cansada demais. Glaudir não sabia a língua dos monverath. Se Docus estivesse ali, conseguiria compreendê-la facilmente, mas o mesmo estava perdido em algum ponto ao longe. Glaudir precisava agir sozinho.

A força de Húria já sumia e sua respiração fraquejava. Os membros amoleceram. As grandes asas caíram e cobriram o ser alado como um cobertor. Glaudir enxugou as lágrimas com as mãos; a tristeza era tamanha e ele não podia escondê-la. Os olhos de Húria se arregalaram e a monveran perdeu a respiração. Com isso, o ivirez percebeu que ela havia morrido. Mantinha o olhar para o oeste, talvez por ser aquela a última visão que queria presenciar. Glaudir já vira as encostas na noite anterior, mas não achara nada de especial nelas. Selou os olhou de Húria e tentou encontrar o que a monveran enxergara. E então, percebeu que ela não queria ver. Queria mostrar.

Foi no raiar do dia 15 de abril que Húria, A Voadora, deitara-se para descansar. Era um dos primeiros a sentir a lâmina de Sireyg, e disso, Glaudir jamais esqueceria. Interpretando o que a monveran queria dizer, o ivirez reservou um momento de silêncio para o ser alado. Todo o ermo estava quieto e não havia animais para perturbar o seu sono. Foi no raiar do dia 15 de abril que Húria, A Voadora, deitara-se para nunca mais voar pelos céus.


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