Paulo Moreira Escritor

Capítulo 9 OSDD - As Artes do Mestre

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O dia amanheceu trazendo a luz cintilante do sol a brilhar nas copas das árvores. Já em viagem, os quatro aventureiros adentravam a mata com os troncos gordos das árvores ao redor, como se estivessem num labirinto de pilastras cinzentas. Algumas raízes gigantes saíam de baixo da terra e percorriam o solo, outras produziam um arco e voltavam a se aprofundar no subterrâneo, todas úmidas e cobertas de liquens. O sol da manhã dourava o topo das árvores mais altas com o seu brilho refrescante, e as brechas entre os galhos criavam faixas de luz que desciam até o solo.

Naquela região da Floresta das Grandes Árvores, no oeste, as sequoias haviam desaparecido e agora árvores mais baixas predominavam, mas ainda eram difíceis de escalar. Abidel, sempre com o arco na mão como se fosse um caçador, dissera que, após alcançar o lago Huria, seguiriam o rio que o banhava até a Garganta de Maldok. O trajeto após a garganta, ele não mencionava. Parecia que o destino era apenas esse e não ir à misteriosa Floresta Escura. No entanto, os ivirezes confiavam no feiticeiro, uma vez que ele havia os salvado na caverna.

Ao passarem por clareiras, frequentemente avistavam uma sombra no céu, voando com suas asas salpicadas de pontas pretas enquanto a luz do sol dourava suas plumas. Era um dos guardas de Abidel, o qual os auxiliava ao guiar ao caminho certo e avisar de algum provável inimigo. Glaudir suspeitava que, sem o falcão, o Mestre não teria ideia de para onde ir, pois depositava muita confiança naquele animal.

A passo que o sol subia no céu, descidas íngremes foram aparecendo e as árvores sumiam, cedendo espaço. Glaudir notou que Docus estava agitado, virando o rosto para todos os lados como se desejasse avistar algo ou alguém. Desde a noite do salgueiro assombrado, ele permanecera inquieto e, na noite anterior, não havia dormido direito. Sabendo que uma coisa o perturbava, Glaudir decidiu perguntar:

— Não quer me falar nada? Seria aquele sonho misterioso?

— Não, não é isso. — exclamou o companheiro. — Lembra do rastro de sangue que encontramos na noite dos Servos.

— Sim. Me lembro muito bem.

— E se aquela armadilha tivesse usado Húria, A Voadora, para executar o feitiço. Abidel disse que a criatura usada fugira e aquela voz esquisita falou “A voadora” se não me engano. Os Servos das Sombras estavam à sua procura, não à nossa. Então, ela corre perigo e eu tenho que ajudá-la. — Tem? — disse Glaudir, com uma sobrancelha mais alta do que a outra.

Docus abaixou os olhos e parou de andar. Hargot e Abidel seguiram o rumo, mas Glaudir permaneceu ao lado do issacerez. A luz do sol ultrapassou as folhas e resplandeceu os cabelos loiros do companheiro, fazendo com que seus olhos castanhos ficassem quase transparentes.

— Meu pai… — sussurrou ele, tentando lembrar de velhos acontecimentos não presenciados — Ele morreu em 970 dessa era, no mesmo ano em que nasci. — O que isso tem a ver com Húria? — apressou Glaudir.

— Me deixe continuar. Lembra-se dos Issacerezes de Lúminar? Pois bem, meu pai foi um deles. E também foi um dos que foram assassinados. Minha mãe me contou que os issacerezes haviam lhe capturado, forçando-o a enfrentar o monveran Sorum, O Impiedoso de asas douradas. Eu não estava lá, mas as imagens ainda me atacam nos sonhos como se eu estivesse, tão reais quanto lembranças.

— Por isso seu irmão mudou o nome Themenus para Dándus? — refletiu.

— Sim. Quando Velho Coris perguntou meu segundo nome, eu senti que ele havia conhecido meu pai. Húria o protegeu na luta contra Sorum, mas não foi forte o suficiente para vencê-lo ou amedrontá-lo. Tenho uma dívida de gratidão para com ela, e perceber que ela corre perigo me preocupa.

Glaudir virou os olhos esverdeados para Hargot e Abidel um pouco ao longe, a descerem um barranco. — Vou ajudá-lo a pagar essa dívida. Tenho uma ideia. Venha comigo!

Os dois correram para alcançarem os companheiros. Após descerem o barranco, Glaudir chamou pelo nome de Abidel, o guia, o qual virou-se com a face rígida.

— Precisamos mudar nosso percurso — disse, fitando os olhos negros do feiticeiro.

— Pode me responder por que? — resmungou Abidel, sem demonstrar interesse e voltando a andar pela mata.

Seguindo-o, Glaudir continuou: — Se Húria foi a criatura usada naquele feitiço do salgueiro, ela está ferida e precisamos ajudá-la.

— Isso não está incluído em nossa missão. Além do mais, não temos tempo. Precisamos mesmo é sair da Floresta das Grandes Árvores e desviar dos Servos das Sombras.

— Exatamente! Húria poderia nos ajudar. Ela é A Voadora, que conhece toda a floresta.

Abidel parou o passo e encarou o ivirez, confuso. Por um segundo, o velho se transformou em uma sombra robusta, amedrontando Glaudir, mas era apenas uma ilusão causada pelo sol.

— Onde quer chegar, Glaudir? Temos ajuda do meu falcão-guarda e ele não vai nos abandonar. Está me mostrando o caminho certo.

— É, mis… — O ivirez quase perdeu as palavras, mas logo continuou ao perceber que encontrara a resposta perfeita. — Se os Servos das Sombras estavam à procura dela, então é algo maior que estão planejando. Aliás, por que a procurariam de novo se já tinha a usado para executar a bruxaria? O que ela tem de tão, como posso dizer, especial ou útil a eles?

Abidel ficou sério e pensativo, enquanto Hargot e Docus o olhavam de perto.

— Continue — disse ele, agora interessado.

— E se tem algo útil, não é nosso dever escondê-lo para que o inimigo não o encontre? Quem sabe essa coisa não os tornará mais poderosos?

— Está bem, você está certo — concordou. — Mudança de rumo! — voltou os olhos para cima e viu sua ave de rapina dar giros no ar. — Falcão-guarda!

O pássaro desceu numa rasante apressada e desviou-se dos galhos que se aproximavam. Gritando como se fosse atacar, planou bem próximo do chão e pousou no ombro de Abidel, prendendo as garras na roupa vermelha. Abidel falou algo indecifrável e a ave piscou os olhos aguçados, saltando logo depois para voltar ao céu e atender a ordem do Mestre.

— Mandei-o procurá-la. Enquanto isso, vamos esperar aqui.


A espera não foi longa. O falcão-guarda logo retornou e os levou na direção de onde Húria, A Voadora, estava. Docus, ansioso em vê-la, foi mais à frente, bem ao lado de Abidel que se movia apressado. Ordenara que fossem muito mais rápidos, pois teriam que recuperar o tempo perdido, embora não houvessem feito muitas curvas.

Aos poucos, as árvores foram sumindo e a floresta ficando mais aberta e espaçosa. Como se houvessem atravessado um muro, avistaram o lago Huria com as águas a refletirem o esplendor do sol. As árvores descreviam um círculo ao seu redor e um rio as cortava num certo ponto, engolido pela boca da floresta. O lago de águas calmas parecia um espelho azulado e suas poucas ondas acumulavam pedras na beirada. Sob uma encosta, o cascalho molhado recebia as rochas e gravetos e, ali, uma criatura repousava.

Caída e deitada no meio das rochas negras, a monveran mal se movia, com a face fixa no céu. As asas esticadas e sujas de pedregulhos e areia mostravam cortes e feridas abertas, uma cena horrível de presenciar. Húria parecia haver sido chicoteada e cortada devido àquelas marcas de tortura. Sangue escuro e denso molhava seu corpo, escorria dos ferimentos para avermelhar o cascalho negro. A pele cinza se arroxeara, principalmente na base das asas compridas, e a cabeça ferida mantinha-se esticada, fitava o céu sentindo as ondas suaves do lago que possuía seu nome. Parecia já ter dado seu último suspiro.

Docus correu para acudi-la e os companheiros se apressaram para verem mais de perto. Chegando a ela, o issacerez caiu, amedrontado com as feridas e, especialmente, com a pata esquerda. As garras, os dedos, toda a mão havia sido arrancada e só havia agora uma poça de sangue a cobrir o membro. Mas Húria ainda não havia morrido. Preservava uma respiração lenta, porém forte, que doía em seus pulmões, e não tinha forças para levantar a cabeça. Olhou para Docus ao perceber que era um issacerez.

— Ajude-me, por favor — implorou ela. — Eu preciso da sua ajuda.

— Tudo bem. Farei o possível — respondeu o outro. — Espere um pouco.

Quando Glaudir os alcançou, Docus mandou que tirasse a mochila e a entregasse. O ivirez obedeceu e o companheiro retirou um lençol de dentro. Rasgou um pedaço e fez uma faixa para cobrir a pata decepada e evitar o derramamento de sangue.

— Precisamos de ervas — disse Docus aos outros. — Acho que dá para parar o sangramento.

— Não, não perca tempo com ervas — repreendeu Abidel. — Para salvá-la, o que precisamos mesmo é de raízes brancas. Ali! — apontou para uma grande árvore na beira do lago. Seu tronco avermelhado era rachado e as folhas afiadas e verdíssimas. — Cavem e achem a raiz. Cortem uma parte e aí tragam. É uma árvore-curandeira e sua raiz impede o sangramento. Vão! Não temos muito tempo.

Glaudir e Hargot correram para obedecer. Dispostos a ajudar, cavaram com as próprias mãos à procura da tal raiz branca.

— Docus, coloque água para ferver e faça mais faixas! Temos que sair daqui logo, se não os Servos das Sombras matarão dois coelhos com uma cajadada só.

Docus sentiu vontade de protestar contra sua última frase, mas lembrou que não tinha tempo. Tirou a panela da mochila e encheu-a com a água do lago. Seu olhar preocupado voltou para a monveran. Ela continuava respirando com dificuldade. Após acender uma fogueira, deixou a água ferver, colocando duas pedras em baixo da panela para impedi-la de tocar as brasas. Ao lembrar-se do pai, correu novamente para o lado de Húria.

— Obrigado por tê-lo salvo, quero dizer, tentado salvá-lo.

— Quem? — disse ela, sem forças.

— Meu pai, Dandus, um Issacerez de Lúminar.

— Não, não. Que eu lembre, não salvei nenhum Issacerez de Lúminar. Eu não sei de nada do que está falando. — Ofegante, Húria virou a cabeça para ver o rosto de Docus. — Desculpe, mas não conheço seu rosto, e não me parece familiar.

— Mas, minha mãe me contou que os issacerezes haviam capturado meu pai e o levado para Sorum, a fim de que ele morresse.

— Nunca! Os issacerezes nunca fariam isso. Não são tão cruéis a ponto disso. Pode ter sido outra coisa, mas nunca os issacerezes.

— Como assim? Não estou entendendo.

— Você é um issacerez, por acaso já presenciou uma barbaridade dessa na Sociedade dos Issacerezes?

— Não, mas… — pensou Docus, com a cabeça confusa.

Húria prosseguiu: — Por favor, posso pedir algo para você? Apenas um pedido?

— Claro, qualquer coisa — sorriu Docus, olhando de longe para Glaudir e Hargot que já cortavam um pedaço de raiz branca com a espada.

— Todos os monverath correm grave perigo. Ele está caçando todos nós e não vai desistir até matar todos.

— Quem? Sireyg e os Servos das Sombras?

— Não, não. É um inimigo daqui de Haldom e não de fora. É Havar, A Morte, que está à nossa procura. Ele quer vingança e, agora que escapou…

— Como? Ele não estava preso?

— Sim, sim — murmurou Húria, parecendo impaciente — Mas alguém o ajudou a fugir da prisão mágica, um feiticeiro, um bruxo de longe. E Havar conseguiu encontrar seu vandoriel e quer se vingar de todos os monverath. Está mais poderoso do que nunca! Não sei muito sobre isso, nem sobre você, mas meu pedido é que faça o possível para defender Haldom. Não é só os monverath que correm perigo com essa vingança, mas também todos os ivirezes.

— Fale-me mais, por favor. Quem é seu vandoriel? Onde ele está? — ao mesmo tempo que queria saber os detalhes, Docus almejava distrai-la das dores com as perguntas.

— Não tenho forças. Estou muito fraca. Procure um dos dois Mestres da Magia que o prenderam e obterá respostas. Não este que está entre nós, mas outros. Um deles, o feiticeiro das águas, está aqui em Haldom e pode ser a única esperança de nossa terra. Procure-o! Ele vai lhe ajudar.

— Mas quem libertou Havar? Como isso é possível? — Docus não era capaz de acreditar.

— Por favor, não me pergunte mais. Estou muita cansada para responder. E não fique à noite aqui. Fujam o mais longe possível de mim, porque eles estão perto de me encontrar. No entanto, não se esqueça do feiticeiro das águas, entendeu? Você precisa encontrá-lo e falar tudo o que lhe disse.

Um grito interrompeu uma nova pergunta de Docus. Hargot trazia na mão uma raiz de cor alva e suja de terra para lavar na água do lago, enquanto Abidel lhes ensinava como preparar a cura. — Deixem na água fervente até a casca sair. Feito isso, tirem a panela do fogo e permitam que a água esfrie. Logo depois, molhem as faixas com o líquido e coloquem-nas nos ferimentos mais graves.

— Pode deixar que faço sozinho — disse Hargot, derrubando de leve a espada e, em seguida, a raiz na panela.

Quando Hargot pôs as faixas molhadas e frias nos ferimentos, Húria deu gritos abafados de dor, tentando não chamar atenção, mas depois que as propriedades da raiz começaram a fazer efeito, ela se acalmou. Foi ao colocar a última faixa que a monveran advertiu Docus, o único a entendê-la. — Vão agora. Não podem ficar por muito tempo aqui. A noite com certeza irá trazê-los.

Não demorou muito para Abidel falar o mesmo, porém com outras palavras. Docus deu adeus à criatura cinzenta, desejou que conseguisse sair dali antes da chegada dos Servos das Sombras e que ficasse bem. Mesmo que ela não houvesse tentado salvar seu pai da morte, ele ainda sentia uma dívida para com a monveran.

Foi à noite que, após perambular pela mata, encontraram o rio outra vez. Poderiam ter o seguido desde o lago, mas em suas bordas o trajeto era difícil e perigoso. Como se ele fosse a fronteira da floresta, as árvores não nasciam no outro lado, sendo poucas as que lá haviam. A correnteza do rio era lenta e monótona e suas águas pretas refletiam o brilho da terceira noite de lua crescente, transformando as estrelas do céu em vaga-lumes trêmulos. Aquele era um lugar que Glaudir jamais esperaria ver. Olhando ao leste, onde estava, as árvores da floresta cresciam quanto mais seguiam à sua esquerda. Já se mantivesse o olhar para o oeste, avistava um ermo acinzentado aparentemente sem fim, podia até mesmo sentir seu ar de solidão. Glaudir virou-se e ficou de frente para os amigos; não queria sentir-se sozinho e abandonado — a mesma sensação que aquele ermo lhe trazia.


O fim da Floresta das Grandes Árvores chegou no meio-dia de 12 de abril. O ermo que anteriormente só dominava o outro lado do rio agora engolira a região onde passeavam, deixando-o muito, como posso dizer…, chato. Antes, Glaudir se contentava em olhar as árvores da mata e sempre percebia algo novo: raízes gigantes e úmidas, cavernas e buracos, os rangidos dos troncos e galhos, as diferentes folhagens, os animaizinhos que apareciam de vez em quando… Enfim, sua lista era comprida. No entanto, ali no presente, havia apenas chão, arbustos e, aqui e acolá, algumas pedras.

Sem sombra alguma para se abrigarem, o sol batia forte em suas cabeças, mas, em compensação, nada impedia a força do vento, o qual, por sorte talvez, vinha do norte como uma brisa refrescante. O único fim do ermo que Glaudir podia avistar eram as montanhas ao oeste. Assim, quanto mais andava, o ivirez sentia se aproximando cada vez mais da Cordilheira de Andrus. Ou era ela que se aproximava dele? Não sabia responder.

No fim do segundo dia fora da Floresta das Grandes Árvores, o sol vermelho brilhou na face calada e quieta de Docus. Glaudir olhou para o issacerez. Os cabelos pareciam terem luz própria e clareavam-se ainda mais com o esplendor do sol. O ivirez sabia que Docus havia tido uma conversa com Húria, conversa essa que alterou sua expressão, mas, até agora, o companheiro não dissera nada sobre o que conversara. Notou seu rosto preocupado, a mente imersa em pensamentos. Talvez só estivesse preocupado com Húria ter permanecido na floresta, então, não perguntou nada. Aos vinte e dois dias passados com ele, aprendera que Docus sempre guardava os pensamentos para si por muito tempo, mas depois abria a boca. Glaudir refletiu: sempre quando o companheiro falava algo, era para confundir ainda mais a conversa, e suas perguntas sempre exigiam detalhes. Graças a ele, Glaudir e Hargot souberam de várias coisas, algumas até mesmo inúteis. Foi pensando nele que, de súbito, veio um relâmpago em sua mente. O rosto de Tick surgiu como um clarão e o ivirez, sem motivo algum, sentiu-se só. “Espero que esteja bem, meu amigo.” Tick já devia estar com Glaucor em Umilzend e, ali, estava protegido, mas, mesmo assim, Glaudir guardava uma mágoa no peito.


Em todas as noites que presenciavam, um pensamento amedrontava a cabeça dos ivirezes. Sabiam que os inimigos costumavam aparecer na escuridão, o que os obrigava a ficarem atentos e com os olhos aguçados. Quando mais uma noite ressurgiu, esse pensamento estava mais forte que o habitual, parecendo avisar-lhes de um provável ataque. Não faziam ideia do porquê de aparecerem apenas nas sombras, mas nunca quiseram saber. O importante era que estavam com Abidel, seu guia feiticeiro, que os mantinha seguros. Sua roupa avermelhada já exibia manchas de sujeira e as botas grossas ainda preservavam a lama seca de seis dias atrás. Abidel sentou-se em um tronco ao lado de Hargot, as bordas douradas brilhando à luz da lua crescente. Após mais duas noites, seria cheia, o que tiraria o medo de os Servos das Sombras encontrarem-nos. A luz sempre lhes passava uma sensação de segurança.

Um pequenino bosque à frente observava o lento e cinzento percurso do rio, impedindo que os quatro vissem o trajeto adiante. Glaudir se dirigiu às águas, o cascalho de pedras molhadas chocalhava sobre seus pés. Quando sentiu uma brisa misteriosa vir do norte, quase escorregou. Não estava tão longe dos companheiros, mas ofegou de medo, um medo que o ivirez não sabia a origem. O barulho das águas vagarosas soou mais baixo, e Glaudir se aproximou para escutá-las melhor. Tirou os sapatos a fim de lavar os pés e as ondas frias tocaram seus dedos brancos. Adentrou mais e arrepiou-se.

— Uh…! — suspirou.

O líquido gélido molhou seus pés cansados e sujos, fazendo calafrios em Glaudir. Seguiu ainda mais até parar onde as águas alcançavam os joelhos. Pensou em tomar banho, mas percebeu que seria perigoso. Banhos só ao dia. Tinham que tomar o máximo de cuidado, foi por isso que também não haviam acendido uma fogueira. O seu brilho podia trazer seres inóspitos e era fácil de encontrá-lo num ermo vazio.

Glaudir olhou seu reflexo nas águas sem cor. Parecia um cadáver, branco e magricela. Agitou a água, não queria ver aquela imagem lúgubre. Sabia que o reflexo o enganava, que era apenas uma ilusão do sono traçado em seus olhos verdes, mesmo assim, virou o rosto para observar os três amigos. Ao lado da sua mochila, bem próxima de Docus, a bengala dada pelo pai estava deitada no chão como se dormisse profundamente, sem se importar com a aventura arriscada na qual se metera. Voltando a olhar ao rio, Glaudir notou seu novo reflexo, agora normal, igual a ele. As ondas que produzia tornaram-se imperceptíveis e, se o ivirez continuasse imóvel, continuariam assim. Parado como uma árvore, ele respirou vagarosamente e acalmou-se, esvaziando os pensamentos. As estrelas do céu cintilavam no espelho, enquanto a lua prateada se abaixava em direção à Cordilheira de Andrus.

— Se continuar ai, vai ser o nosso vigia! — gritou alguém.

— Faça silêncio! Não queremos chamar atenção.

Glaudir conhecia as vozes. A primeira, bastante clara e calma, era a de Docus, o issacerez. Já a segunda era um verdadeiro contraste da primeira; grossa e forte, Glaudir ouvia rigidez em suas palavras. Abidel advertira Docus, mas não se manteve em silêncio.

— Ele tem razão.

— Tudo bem — concordou Glaudir. — Vou ser o vigia! Podem ir dormir. O ivirez não se mexeu, permaneceu sem movimento no rio frio. Não se virou para vê-lo, mas ouviu que já deitavam.

Glaudir não queria estragar aquela imagem que presenciava. Um céu em cima, outro em baixo, os dois perfeitamente idênticos. Quando vista pelo rio, a abóbada parecia um manto surreal com as estrelas penduradas em um imenso lustre. Sem ousar ondular o espelho, o ivirez sentia-se flutuando no céu noturno, entre as joias pálidas que rodeavam a lua crescente. As ondas massageavam suas pernas, tão leves e suaves quanto o toque da seda. Glaudir percebeu que estava feliz. Nunca havia notado essas belezas tão simples que o mundo proporcionava. Mas seu sono era muito mais forte do que a admiração e acabou por fechar-lhe os olhos.

Suas pernas flutuaram devagar como se carregadas por um vento diferente de todos os que o ivirez já sentira. Os pés, por um tempo, tocaram objetos redondos e frios, porém, aos poucos, se distanciavam em silêncio com um salto preguiçoso. A cabeça dava voltas, esquecia tudo. Não havia nada, apenas o momento. Os dedos das mãos penetraram uma camada gelada, como se arrombassem um muro de gelo que surgira de uma hora para outra. Algo se chocava contra ele, tão calmo, tão macio, tão bom. Deixou-se ser levado pelo sono e pelas águas e afundou-se no nada.

Um pio o despertou, bastante alto na sua mente quanto uma trombeta avassaladora. Tonto e desnorteado, Glaudir escorregou nas pedras do rio e caiu, sentado no cascalho, com a roupa encharcada.

— As águas são traiçoeiras, pequeno ivirez. Fuja delas e chame seus companheiros. O inimigo não tardará em chegar. Está mais próximo do que pensa!

Era uma voz feminina que o acordara. O ivirez havia dormido em pé, no meio do rio, sem notar que era o vigia dos companheiros. A voz doce o levara de volta ao cascalho, bem ao lado dos sapatos compridos que abandonara. Calçou-os apressado e ficou confuso. Não sabia quem havia falado com ele e muito menos conhecia a voz a despertá-lo. Ali, apenas uma coruja branquíssima o observava com os olhos redondos, e fora ela quem piara de início. Aguardando uma atitude do ivirez que a fitava, a ave cantou novamente. Glaudir lembrou-se dela. Era a mesma da Floresta das Grandes Árvores. Os grandes olhos piscaram e a coruja virou a cabeça para os outros três a descansarem.

Quando Glaudir foi na direção dos amigos, ouviu as batidas das asas da coruja soarem com força. Olhou para trás e viu que ela não estava mais no cascalho. Sumia, voando no céu noturno sem mais nenhum pio.

— Acordem! Precisam acordar! — disse, balançando o ombro de Abidel.

Ao ver que o velho já abria os olhos, correu para sua mochila e colocou-a nas costas. Pegou a bengala e voltou a acordar, dessa vez Hargot. Abidel o interrompeu, sua voz sem nenhuma demonstração de cansaço.

— O que houve? Viu alguém?

— Não, não vi nada. Mas senti. E ouvi. Acho que estão perto.

Um relincho bem próximo ecoou tão nítido que trouxe uma sensação de pânico. Glaudir lembrou-se da moça dizendo que estavam mais próximos do que ele imaginava e, agora, ele tinha certeza disso. Seu coração pulsou mais rápido, batia como tambores frenéticos, e o medo inevitável o atingira como uma flecha. O inimigo parecia sempre trazer essa sensação horrível, mas naquele momento era maior, muito maior. Não haviam esconderijos no ermo cinza, sua única opção era enfrentá-los, pois se fugissem, tinham grande chance de serem acertados pelas costas.

Abidel arregalou os olhos e puxou o arco, já armado com uma flecha. Despertados pelo relincho apavorante, Docus e Hargot correram para junto da última mochila. Hargot a colocou nas costas e virou-se, observando o cenário desértico. Suas sombras se agigantavam em direção ao leste, porém só Docus percebeu que aquilo era um péssimo sinal ao dirigir os olhos para a Cordilheira de Andrus.

— Daqui a pouco serão três horas da madrugada! — suspirou ele, mas os outros não ouviram.


Glaudir ficou ao lado de Abidel. Sabia que estaria mais protegido ao seu lado. A ondori cintilava à luz da lua baixa do oeste; não havia mais motivos para escondê-la, os Servos das Sombras já sabiam que ele a guardava. Três vultos avançavam velozes entre os poucos arbustos da região. Suas capas negras esvoaçavam como asas enormes, carregando consigo uma escuridão tenebrosa.

— Vamos, fujam! — ordenou Abidel — Não olhem para trás.

Os dedos do feiticeiro zuniram. Sua flecha zarpou e desapareceu na escuridão da noite. Apenas o grito da morte ecoou depois, arremessando as pedras do cascalho e tremendo o espelho do rio.

Ashen adren karir shedoro ir!

Glaudir correu, sabendo o que viria após a frase maldita. A engolir todo o local, uma névoa mais negra do que o céu se arrastou apressada como um espírito. O vento ululante partia as águas e jogava as pedras, deixando um rastro de terror. As estrelas foram ocultadas e cinzas insaciáveis devoraram o solo.

À espera do ataque das sombras, Abidel lançou o arco e tirou a espada longa e afiada. A sombra desviou-se dela, espantada, praguejando e rugindo com palavras fúnebres. Em resposta, a arma tiniu e clareou-se qual um relâmpago prateado.

— Vão! Não temos muito tempo!

Docus e Glaudir correram juntos, mas Hargot permaneceu. Desembainhou a espada e ficou ao lado do feiticeiro, abaixado para não ser atingido por uma das raízes negras e enevoadas que a espada ricocheteava. Os outros dois ivirezes pularam no rio e tentaram atravessá-lo a nado.

— Afaste-se, Hargot — disse Abidel e o filho obedeceu, indo para trás de suas costas.

As patadas se aproximaram. O feiticeiro esticou a arma e preparou-se para aniquilar a onda negra e avassaladora.

Envycalma dicílir onthar… — recitou, a voz brava ecoando no ermo. — Dícil onthar! Dícil lëmiden, binikeon, dwenuen liae!

A luz da lua que já se punha se intensificou, e a espada produziu um clarão ofuscante. O feitiço afastou a sombra com o seu brilho pálido. Ela tentou fugir, mas foi completamente consumida. Os cavaleiros pararam e quase caíram dos cavalos, os olhos fundos de raiva. Retiraram as espadas de trevas em uníssono e voltaram a cavalgar velozes para matar os dois, sem temerem o clarão. Mas, quando o clarão sumiu por completo, Hargot e Abidel não estavam mais ali.

Bem perto do bosque, os três corriam lado a lado. O feiticeiro mantinha o arco na mão esquerda e na direita a espada mágica. O rio os separava dos outros amigos que tentavam ficar o mais próximos possível.

— Venham! — gritou Docus. — Podem atravessá-lo!

No entanto, Abidel e Hargot não confiavam nisso. Sabiam que perderiam muito tempo e que o feiticeiro não podia se defender com magia dentro da água. Rápidos como sempre, os Servos das Sombras se aproximavam, seus cavalos golpeavam o chão com seus cascos de pedra. A terra tremia ao seu toque e o vento abria caminho ao se deparar com o inimigo.

Enquanto corria, Hargot voltou os olhos para os outros dois. Desesperados, Glaudir e Docus estavam armados e tentavam procurar um lugar para se esconderem. Foi aí que notou uma sombra alta no outro lado do rio, perseguindo os ivirezes e lançando um ar de terror. Pôde ver sua espada afiada e branca, sem brilho algum, se erguer em assalto.

— Docus e Glaudir estão em perigo! — gritou ele para Abidel.

O feiticeiro fez menção de não ouvi-lo. Estava certo de que não podia fazer nada e pressentia um suposto ataque, do qual não teve tempo de reagir. Um dos Servos puxou Hargot pelo pescoço e arremessou-o para trás, contando que fosse pisoteado pelos outros cavalos. O pescoço da vítima começou a queimar e feridas brotaram em meio às dores causadas pela mão enorme do cavaleiro. Hargot esticou a espada e acertou em cheio a perna de um dos animais esqueléticos. Pareciam cadáveres de cavalos e seu relincho um clamor da morte. Hargot esquivou-se do último e levantou-se; o pescoço ainda a doer e a queimar. Os inimigos pararam e viraram-se em sua direção, seus olhos ardentes e vermelhos ainda furiosos. Um deles gargalhou em um misto de riso e sussurros.

Tu não és nada. Pensais que podeis derrotar-nos? Estais enganados! Nossa terra renascerá e não há ninguém capaz de impedir esse retorno. O Invocador é muito mais poderoso que todos os Bruxos juntos. Não há nada que possas fazer.

Hargot não compreendia. O Servo estava falando com ele ou com Abidel? Diante das palavras, o feiticeiro empalideceu-se, ficou imóvel, sem nenhuma ação. — E mesmo que consigas escapar de nós nesta hora, não haverá mais tempo de salvá-los. E a ondori será tomada pelas trevas.

A sombra saltou com a espada apontada, tão alto como se sua capa fosse mesmo asas. A arma tocou levemente o queixo de Hargot, afiada como um ferrão.

Não há nada que possas fazer — repetiu o espectro.

Mas o ivirez ainda mantinha a espada na mão. Com um forte ataque, desviou o objeto maligno e lançou-o da mão sombria do vulto.

— Ainda há esperança — disse ele.

A frase não era um feitiço, mas pareceu ser. Abidel despertou de seu devaneio e, de olhos arregalados, observou o inimigo que ameaçava matar seu filho de criação. Logo, o espectro soltou um grito de dor, assustando os três cavalos e salpicando as águas do rio. O feiticeiro foi bastante rápido para pegar a espada caída do Servo das Sombras e enfiá-la em suas costas nebulosas. A capa rasgou-se, rangendo e ardendo enquanto a lâmina penetrava o corpo sombrio, formando uma queimadura, uma ferida aberta cheia de brasas em meio ao sangue brilhante da vítima. Pesada, a arma permaneceu no seu dorso quando Abidel se afastou, e envolveu o dono em chamas rubras. O espectro agonizava, sem poder alcançar a espada. As chamas consumiram o fantasma sem vida e, após cair se contorcendo de dor na terra fria, o inimigo desapareceu.

Sem noção do que fariam, agora eram os Servos das Sombras que ficaram pasmos e imóveis diante daquele terrível acontecimento. Hargot e Abidel aproveitaram o momento e escaparam silenciosamente. Sentiram um alívio ao alcançarem as árvores sombreadas do bosque. O local era calmo e lhes passou uma sensação de paz e segurança. Pararam e se esconderam atrás de um tronco grosso o suficiente para ocultá-los.

A vegetação cinza cobria o chão cheio de folhas secas, deixadas pelas plantas velhas e quase mortas dali. Eles respiraram fundo para recuperar o fôlego. Contavam que os inimigos chegassem devagar e que não os vissem no bosque. Abidel embainhou a espada e armou o arco com três flechas compridas e sólidas. Apontou para onde imaginava que viriam os Servos das Sombras. Apavorado, Hargot caiu sentado e exausto no tronco da árvore. Permaneceu abaixado com a arma na mão, escondido e quieto para ninguém vê-lo ou ouvi-lo. Silenciou a respiração e confiou no feiticeiro para defendê-lo.

Quando as árvores escureceram, o ivirez lembrou-se dos companheiros no outro lado do rio. Desejou que houvessem escapado e que estivessem seguros. Glaudir podia usar a ondori, mas e Docus? Mesmo que não existisse esperança, e lá no fundo, ele sentia que não havia, não podia desistir. Havia duas simples opções: lutar ou morrer. Não tinha nada a ganhar se lutasse e sabia que tinha grande chance de morrer caso o fizesse. No fim das contas, não importava. Acabaria morrendo, mas poderia morrer lutando. Ele era um Guerreiro Iluminado, enquanto houvesse luz, lutaria até o fim. E os verdadeiros guerreiros não morriam guerreando?

Logo, as sombras se esticaram e ergueram-se como se quisessem puxá-los. O solo tornou-se negro e o cenário, devorado pelas trevas, ficou profundamente sombrio. Abidel não passava de um vulto, qual uma estátua, e o bosque ficou entregue à escuridão. Toda a luz havia desaparecido em segundos, e Hargot sentiu-se próximo da morte. “Um feitiço!”, pensou ele.

— Não é o que está pensando — disse Abidel, quieto, olhando seus olhos. Qualquer um era capaz de adivinhar os pensamentos de Hargot se observasse sua face assustada. — A lua se escondeu nas montanhas, mas ainda falta muito para a luz retornar.

Sem lua, a escuridão alcançou os locais mais inesperados. O rio transformou-se em um veio negro e as estrelas eram as únicas a cintilarem em sua superfície. Quando ela tocou os cavaleiros espectrais, uma energia sombria e poderosa emanou de seus corpos. Os Servos das Sombras haviam despertado, arremessando uma sensação maléfica que abalou os instintos dos viajantes.

— Depois que eu atirar, Hargot, — disse Abidel, puxando ainda mais a corda do arco. — corra. Irei atrás de você.

O ivirez assentiu e pôs-se de pé. Pressionou as costas contra o tronco áspero para não ser visto. Pensou em como ele acertaria os dois Servos das Sombras ao mesmo tempo, principalmente daquela maneira desajeitada. E a terceira flecha? Para que serviria?


Os inimigos vieram outra vez, as patadas sacudiam o solo e ecoavam em sincronia como se fossem um só. As espadas afiadas nas mãos estavam prontas para o ataque, cortando o ar com a lâmina sem brilho. As árvores do bosque pareciam afastar-se da sua presença.

Mal apareceram, Abidel soltou a corda do arco sem se importar em mirar. As setas se dirigiram para lugares opostos; a do meio permaneceu reta, mas nem passara de raspão em um dos cavaleiros. As pontas das flechas relampejaram num brilho dourado que correu sobre as plantas ao redor dos Servos, transformando-se em um círculo flamejante e clareando todo o bosque. Sua luz trêmula se erguia como um paredão e escondeu totalmente os inimigos, lançando uma fumaça preta e fedida.

Assustado, Hargot correu sem olhar para trás. Abidel permaneceu no tronco por mais um tempo e atirou mais duas flechas. Línguas de fogo dourado saltaram e derrubaram os galhos para devorarem as folhas secas das árvores. Dessa vez, o feiticeiro correu. Brasas ardiam e faiscavam, esquentavam o local com seu clarão trêmulo. A fogueira se estendia por toda a vegetação e transformava em cinzas tudo o que vinha ao seu redor. Serpentes finas e sibilantes caíam como chuva, insaciáveis. Chamuscavam as árvores com suas escamas quentes. Não demorou muito para que o fogaréu chegasse perto do feiticeiro.

Ao sair do bosque e alcançar o filho, sentiu o cheiro de fumo. Hargot virava o rosto e contemplava o enorme relâmpago a destruir completamente o arvoredo velho. O rio ganhara um tom dourado e refletia as chamas mortais. Dessa vez, os Servos das Sombras não escapariam. Sem parar um minuto sequer, Abidel bradou enquanto guardava o arco e retirava a espada. Uma pedra em seu cabo, tão vermelha quanto o rubi, piscava à luz do fogaréu.

— Corujas! E todos os pássaros que estiverem acordados, venham e nos ajudem nessa hora. Cubram as fronteiras do incêndio e não permitam a passagem dos cavaleiros se eles conseguirem escapar das chamas.

A pedra preciosa desenhou um pequenino fulgor, e gritos de aves os alcançaram na velocidade do vento. Uma nuvem sombria cobriu as estrelas pálidas e planou sobre suas cabeças, foi diretamente ao incêndio como Abidel ordenara. Pousaram bem próximo do bosque, os olhos resplandeciam amarelos diante das faíscas que subiam ao céu. O calor fumegante afastou algumas aves, mas permaneceram ali perto, vigiando o inimigo. Parecia que uma colmeia havia sido derrubada; os pássaros eram tantos quanto abelhas, um verdadeiro exército negro e alado.

Abidel e Hargot saltaram dentro do rio congelante. A travessia foi difícil, pois aquela parte do rio era mais funda e a roupa do feiticeiro não lhe deixava nadar com liberdade. Já em Hargot, a mochila pesada o levava para baixo. Felizmente, conseguiram alcançar a outra beirada. Exaustos, pisaram devagar o solo enlameado e torceram para que os Servos das Sombras não conseguissem escapar e que as chamas os transformassem em cinzas.

Abidel largou a espada longa e se apoiou no ombro de Hargot.

— Está tudo bem? — perguntou o ivirez.

O feiticeiro estava ofegante e molhado, e Hargot temia que algo houvesse acontecido enquanto correra sem olhar para trás.

— Sim. Tivemos sorte. O primeiro espectro morto era praticante de magia negra. Foi o mesmo que encontramos na Floresta das Grandes Árvores, o que fizera o feitiço no salgueiro. Sem ele, os outros dois não vão escapar do incêndio.

Abidel arfou e tremeu, se abaixando devagar e pesando a mão no ombro do filho.

— Perguntei sobre você — repreendeu Hargot.

— É só um cansaço por ter praticado os feitiços de luz e de fogo. Controlar os pássaros não enfraquece minhas energias, pois uso uma orbe específica para isso. No entanto, fiquei muito exausto logo após ter enfiado aquela espada maligna nas costas do espectro-bruxo. Logo vai passar, não se preocupe.

Abidel encolheu-se para pegar a espada caída e guardou-a na bainha. Voltou a andar apressado, tropeçando no solo.

— Você precisa descansar, Abidel! — disse Hargot, puxando-o pelo braço. — Não há mais perigo.

O feiticeiro o olhou nos olhos. Respirou fundo com a face molhada refletindo a luz das chamas.

— Ora, Hargot! Não foi você quem disse que Glaudir e Docus estavam em perigo?


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