Paulo Moreira Escritor

Capítulo 5 OSDD - Entre Nuvens e Árvores

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A noite naquele enorme salão foi diferente de todas as outras. Nas anteriores, os ivirezes haviam se sentido desprotegidos; nessa, sentiam-se mais calmos. As luzes tremeluzentes das tochas clareavam o cômodo, lançando uma fina fumaça para o teto de pedra. Quando Hargot mandara apagar algumas, vários pontos sombrios começaram a espreitá-los no silêncio da noite. Ele, que lhes explicara sobre a ondori, não estava mais ali. Havia saído à noite para proteger os pôneis e agora dormia com eles. O objeto mágico continuava no pescoço de Glaudir qual um amuleto, prendido pela corrente dourada. Possuía uma coloração branca que, em diferentes ângulos, se transformava em um arranjo de azul e cinza. Enquanto Glaudir a observava, Docus tirou o silêncio do salão:

— Se lembra do sonho que tive e lhe contei?

Glaudir tirou o olhar da ondori e estranhou a pergunta, sem esperar por ela naquele momento. Sem que precisasse responder, o issacerez continuou: — Acho que o sol branco que aparecia na Cachoeira Ant é a ondori. Só falta Lúminar aparecer.

Docus percebeu que Glaudir estava pensativo e resolveu não incomodá-lo. Estavam sentados no chão, cobertos apenas por um lençol, preparados para dormirem. Virou-se para Tick para falar-lhe algo, mas se decepcionou; o outro continuava de cabeça abaixada, repleta de pensamentos. Ele sequer abrira a boca para falar uma vez depois que Hargot contara que os andarilhos sombrios haviam matado vários ivirezes. Docus notou o medo e a tristeza na face do companheiro.

— Meu irmão costumava dizer que, quando mais pensamos, mais difícil é de falar o que se pensa. — Os outros o olharam, porém continuaram sem pronunciar uma palavra. — Parece que eu sou o único motivado a ir.

— Eu sei que vou — disse Glaudir. — O problema é que tenho medo de me arrepender depois. E meu pai pode estar em perigo. Me preocupo ao saber que aquelas criaturas desse tal Sireyg…

No mesmo instante, o jovem prendeu a respiração. Uma sombra engoliu a caverna, apagando todas as tochas ao mesmo tempo. Um vento frio arrepiou os cabelos dos ivirezes. A escuridão era espantosa. A única coisa vista era a joia no pescoço de Glaudir, brilhando imóvel e fraca. Logo as tochas acenderam-se como mágica, uma por uma, mas isso não arrancou o medo. Decididos a não conversar mais sobre aquilo, dormiram com o rosto voltado ao teto rochoso e às poucas rachaduras que o cortavam.

Já estavam acordados quando Hargot apareceu dentro do cômodo no início da manhã. Faziam uma pequena refeição na mesa de pedra, bem à frente da estátua de Lúminar. O ivirez parecia descansado. As olheiras que marcavam abaixo dos seus olhos haviam sumido, e, aparentemente, estava disposto para a viagem.

— Precisamos cavalgar rápidos em direção à Floresta das Grandes Árvores — disse ele. — Meu plano é irmos um pouco mais ao sul, escondidos pelas montanhas. Assim, não corremos o risco de encontrarmos os uriarques mais uma vez.

Tick lançou um olhar triste para Glaudir e depois para Hargot: — Desculpe-me senhor, mas eu não vou. Decidi que vou voltar para Havis.

— O que está dizendo? — perguntou Glaudir, surpreso com o que o amigo falava.

— Eu sinto muito, mas eu não posso ir, e não quero. Pode ficar com o meu pônei, Hargot, e levá-lo consigo. Além do mais, sou muito conhecido aqui e nem sou experiente em viagens. Prefiro ficar. Darei minha espada a Glaudir, pois sei que ele precisará melhor do que eu.

— Não, não, não, Tick. Por favor, venha conosco — implorou Glaudir. — Preciso da sua ajuda, da sua companhia.

— Eu sei disso, mas eu não consigo ir. É muito difícil, eu só lhe trarei atrasos. Por favor, Glaudir, respeite a minha decisão. Sabe que não fui feito para essas coisas.

— Respeitamos a sua decisão, Tick — disse Hargot, pousando a mão sobre seu ombro. — Mas é estranho você não ir. As inscrições nessa caverna dizem que quatro ivirezes sairão juntos e, sem você, somos três.

— Não me importo com o que a caverna diz. Eu não vou.

Glaudir fixou os olhos no amigo, e Tick não conseguiu voltar o rosto para ele, envergonhado pelo medo que possuía.

— E você, issacerez?

— Vou — respondeu Docus, somente uma palavra, porém a mais necessária no momento.

— Fico feliz por não ter mudado de opinião. Tick, embora não ajude Glaudir a cumprir sua missão, você ainda pode ter uma tarefa. Disse para vocês que o Inimigo está caçando os Guerreiros Iluminados e não vou deixar que meu amigo, Glaucor, seja encontrado. Mande-lhe a mensagem de que partirmos para destruir a ondori como ele queria e leve-o para Umilzend. Lá ele estará seguro.

— Por que Umilzend? — indagou Tick.

— Porque seus donos vão protegê-lo. Edrina e o Velho Coris vão nos ajudar, defendendo-o.

— Quer dizer que eles também são Guerreiros Iluminados? — perguntou Glaudir ao perceber que toda a sua família parecia pertencer àquela ordem.

— São, são. Bem, já que você não vai Tick, não precisaremos dos pôneis. Tenho algo que pode nos levar bastante rápidos e protegidos. Ela está nos esperando lá fora. Arrumem as mochilas e saiam. Vamos partir bem velozes para as Grandes Árvores. Acredito que em quatro dias, vamos bater na porta do viajante.

— O que? Está brincando, não está? — retrucou Docus. — Normalmente, daqui para lá gastaríamos no mínimo dez dias se não parássemos e só para chegarmos no começo da floresta!

— Já disse que não vamos de pôneis. Depois que acabarem de arrumar as mochilas, vão lá fora. Estarei lhes esperando.

Hargot saiu vagaroso para a entrada do salão, mas logo desapareceu no túnel. Sem pressa, os três arrumaram as mochilas. Os alimentos já estavam começando a escassear, no entanto, a água continuava em boa quantidade, pois, em todo o percurso feito, havia a presença de um rio. Apenas nove dias se passara desde que haviam saído de Havis, porém, diante de tantos acontecimentos, pareciam um mês inteiro. Nesses nove dias, Glaudir fora mandado para a Cachoeira Ant, descobrira que possuía parentes em Umilzend, enfrentara uriarques os quais morreram misteriosamente logo em seguida, desvendara os segredos do pai, Glaucor, e agora, tinha uma missão esquisita. Todos esses conhecimentos eram difíceis de entrar na mente do ivirez, mas, ao saber que Tick levaria Glaucor a Umilzend, onde estaria seguro, foi capaz de tirar uma das muitas preocupações da cabeça.

Quando todos tinham acabado, Tick tirou a bainha prendida ao cinto e colocou-a em cima da mesa, bem à frente de Glaudir. O amigo o olhou nos olhos, porém, como antes, Tick não conseguiu enfrentar seu olhar: — Me desculpe, Glaudir, por favor.

— Eu desculpo você — disse Glaudir. — Proteger meu pai e mantê-lo a salvo é uma grande prova de amizade para mim. Meu pai significa muito. Mas, em relação à espada, acho que não é bom eu ficar com ela. Os Selvagens estão por perto e você talvez os encontre.

— Eu sei disso, mas sua missão é mais perigosa que a minha. Use-a, vai precisar.

— Não. Se acontecer alguma coisa com você por causa de eu ter ficado com ela, jamais me perdoaria. Não tente me forçar, porque não vai conseguir.

— Se é assim que quer, assim será feito — disse Tick, segurando a espada embainhada e prendendo-a de volta no cinto.

Enquanto Glaudir colocava a mochila nas costas, Docus se aproximou do outro e lhe pediu uma tarefa.

— Tente encontrar meu irmão Dándus. Por favor, diga a ele que estou viajando e que vou ficar bem. Que não é preciso se preocupar.

— Claro! Vamos agora?

Os ivirezes caminharam em direção à passagem. As luzes apagavam-se conforme andavam e as sombras voltavam a aparecer nos cantos das paredes. Ao chegar ao túnel, Glaudir deu uma última olhada à estátua de Lúminar, imóvel no fim do salão com a escuridão à sua volta. Respirou fundo e, decidido, seguiu o trajeto no meio dos companheiros. Não foi difícil abrir a porta e nem precisaram falar a frase que Hargot havia dito, sendo ela necessária apenas quando desejassem entrar. Para sair, era preciso apenas o cachimbo.

Ao ouvir o barulho alto da Cachoeira Ant, o vento repleto de pingos frios veio ao seu encontro. Os degraus molhados desciam sinuosos para sumirem na escuridão. Se para Glaudir o ruim era subir, o pior era descer. O conselho dado a quem tem medo de altura é sempre “não olhe para baixo”, mas como não olhar se é para lá que você vai quando está descendo? Ao seu lado, um precipício rochoso cobria-se com as finas linhas de água vindas da cascata. A parede negra como carvão se erguia monstruosa, e Glaudir andou apoiando-se a ela, embora fosse difícil segurá-la devido à terra molhada. Quanto mais se aproximavam do fim dos degraus, mais estes ficavam escorregadios e gelados. O chiado da água caindo com toda a sua força no rio abaixo era alto e irritante. Podiam gritar ali dentro e ninguém os ouviria lá fora.

— Será que os Guerreiros Iluminados não poderiam escolher um esconderijo melhor? — resmungou Glaudir, com os cabelos completamente molhados.

— Melhor do que esse, só embaixo d'água! — gritou Docus.

Mas, enfim, conseguiram chegar nos últimos degraus e saltar para a beirada do rio sem nenhum ferimento. Correram para mais perto de Hargot ao vê-lo ao lado dos pôneis. Após ele olhar brevemente para a espada de Tick, Glaudir esclareceu seus pensamentos: — Decidi que não vou usá-la, pois Tick precisará mais por causa dos uriarques.

Hargot desviou o rumo da conversa: — Somos três. A carga vai ser meio pesada para ela, mesmo assim, ela concordou em nos ajudar. Se Tick fosse conosco, não iríamos chegar na floresta tão rápido.

— Ela? Quem é ela? — indagou Docus, com uma sobrancelha mais alta que a outra.

— Lúminar, a monveran iluminada — respondeu Hargot sem demonstrar espanto, como se aquilo se tratasse de algo comum e sem importância.

— Então, ela está aqui mesmo? — perguntou o issacerez, sem poder acreditar.

— Claro. Quem mais poderia nos levar voando às Grandes Árvores? — “Voando”? — ganiu Glaudir, recuando dois passos para trás.

— Por que? Tem alguma coisa contra?

— Não. Claro que não. A palavra só me pegou de surpresa — respondeu o ivirez, decidido a não demonstrar medo diante dos outros, mesmo sabendo que Tick sabia sobre isso e que Docus poderia estar desconfiado desde a Ponte de Varadrin.

O amigo aproveitou o momento para uma de suas piadinhas e lhe sussurrou: — O segredo é só fechar os olhos e não imaginar que está caindo do céu, onde não há nada em que se segurar. E também, só não se esquecer que sempre há um chão lá em baixo, esperando você a cada segundo.

— Muito obrigado pelo conselho — resmungou o ivirez. — Vou fazer bom uso dele, tenho certeza.

Inesperadamente, um grito agudo cortou o ar à sua volta. Glaudir jurava que era semelhante àquele que haviam ouvido na noite dos uriarques. Batidas fortes e rápidas foram trazidas pelo vento frio das montanhas. Um ser alado começou a aparecer dentre a Cordilheira de Andrus. Os ivirezes levantaram as cabeças e ficaram boquiabertos. As asas brancas da criatura emitiam o leve brilho do sol enquanto ela voava bailando pelos montes, sem que esses prejudicassem seu trajeto. Nuvens prateadas e velozes a ocultavam de vez em quando, semelhantes a uma névoa densa e comprida a esconder um barco nas águas do mar.

Não demorou muito para que Docus corresse admirado, os olhos arregalados em sua direção, parando de repente ao perceber que poderia cair no meio do rio.

— Lúminar! Lúminar! Você retornou a Haldom!

Ao pousar veloz no chão, bem próximo a eles, a monveran causou um pequenino tremor e uma onda de vento que balançou os cabelos dos ivirezes. Parecida com a estátua, Lúminar não fazia menção de esconder suas garras sujas e afiadas. As asas desceram rapidamente, e a monveran tremeu ao sentir o toque gelado dos pingos da Cachoeira Ant. Virou-se para Docus com um olhar curioso, deixando-o ver seus olhos azulados e brilhantes em sua face esbranquiçada. As orelhas pontudas tinham a forma de pequenos cifres cinzentos. Uma marca em seu pescoço se destacava, semelhante a um colar fino e ondulado, com pedras azuis iguais a seus olhos. No mesmo instante no qual as asas se fecharam, suas pernas traseiras seguraram a terra e a cauda pontuda relaxou, encurvando-se sobre o chão.

Todos pararam à frente da monveran e observaram a criatura com um olhar temeroso. Docus se aproximou do rosto de Lúminar e tocou em sua testa rugosa e pálida, fechando os olhos em seguida e sussurrando algo que os outros não foram capazes de ouvir. O ser alado se esquivou para o lado num movimento brusco, fazendo o issacerez escorregar de medo e cair no chão. Lúminar seguiu na direção de Hargot, que retribuiu a chegada com uma carícia em seu dorso elevado. Quando Docus levantou-se, estava com o rosto tão confuso…

— Não estou entendendo — disse ele. — Perguntei para Lúminar se eu era seu vandoriel e ela ficou com raiva de mim.

Hargot soltou uma gargalhada: — O que lhe fez pensar isso?

— Eu tive um sonho que falava onde ela estava. Pensamos que a mente dos vandorieth e dos monverath estão de alguma forma em sincronia, o que me fez pensar que eu era um deles.

— Desculpe-me por lhe dizer isso, mas… — Hargot aparentou não querer prosseguir. — Sou eu o vandoriel de Lúminar. Sou seu cavaleiro-celeste. É esse o motivo para ela querer nos ajudar. Quando fugi dos andarilhos sombrios, ela me ajudou a chegar aqui. Na noite anterior à noite passada, Lúminar atacou os uriarques, me deixando para que eu acompanhasse vocês.

— Por isso eles estavam atirando para o céu! — exclamou Docus.

Lúminar esticou o pescoço para Glaudir, o qual, sem esconder o medo, recuou mais uma vez. Ela parecia olhar atentamente para o colar que prendia a ondori.

— Está dizendo para escondê-la — disse Hargot. — Coloque o objeto em baixo da camisa para que não tenhamos problemas. Aliás, quando chegarmos na casa do viajante, não a mostre até que eu dê a ordem para mostrá-la. Temos que tomar o máximo de cuidados e, se pudermos, não seguir estradas, pois nelas é mais fácil de o Inimigo nos encontrar.

Glaudir obedeceu.

Hargot mexeu a bolsa pendida no ombro e, com um salto, sentou-se no dorso quente de Lúminar, bem perto do pescoço comprido. As asas se esticaram um pouco, mas logo voltaram a se encolher.

— O peso não é muito grande? — questionou Docus, decidido a tomar todas as precauções antes do esperado voo.

— Sim. Mas sei que Lúminar vai conseguir. Venha, suba!

Hargot lhe passou a mão e, com esforço, puxou Docus para as costas de Lúminar. O monveran se abaixou e ergueu-se novamente, movimentando as asas brancas e molhadas pelos respingos da cascata. Glaudir seguiu para mais perto de Tick e deu-lhe um abraço bem apertado.

— Proteja meu pai — sussurrou ele.

— Vou protegê-lo.

O ivirez olhou no fundo dos olhos do companheiro e mostrou um pequeno sorriso, enquanto seus próprios olhos brilhavam e quase se enchiam de lágrimas. — Que Lúminar lhe ilumine, meu grande amigo.

— Desejo-lhe o mesmo, embora eu tenha certeza que ela vai, não é mesmo? — brincou Tick. — Depois me conte como é a sensação de voar em um monveran. Lúminar abaixou as costas mais uma vez, encolhendo as pernas, e Glaudir subiu, claro que com dificuldade. Ficando próximo da cauda, teve que segurar com uma mão a bengala de Glaucor e com a outra a mochila de Docus, para ganhar apoio.

— Podemos ir? — perguntou Hargot, apressado.

O ivirez respirou fundo e observou uma última vez Tick, seu grande amigo de sempre.

— Adeus, Tick.

— Adeus…

Poderia escrever mais algumas falas de despedida, se realmente houvessem falado algo após aquilo. Gostaria de dizer que Tick desistira de desistir e que, de um salto, fora junto deles em sua empreitada. Gostaria de escrever também que, em nenhum instante, Glaucor ficara desprotegido. Mas Lúminar apagou minhas palavras ao erguer rapidamente as asas e subir aos céus com grande velocidade, lançando uma rajada de vento sobre Tick, o rapaz que observava o voo enquanto seus cabelos sacudiam-se rebeldes.

Tudo isso ocorreu em pouco tempo. A monveran voava como uma flecha sobre o reflexo trêmulo do rio. Ao dar uma rasante, as águas salpicaram em resposta, pequenos cristais gelados se despedindo. O sol brilhava sobre sua pele pálida e jogava os raios da manhã, bastante aquecedores se comparados aos ventos frios das montanhas a se chocar contra seus corpos. Sem que o monveran se preocupasse com eles, montes altos pintados pelo sol passaram velozes ao seu redor. Quando desejava planar, a criatura esticava as asas, mas quando almejava velocidade, as batia com ímpeto e furor.

A Cachoeira Ant sumiu nas montanhas e a Cordilheira de Andrus logo foi chegando ao fim. Nenhum sinal de Tick era visto mais, como se houvesse sido soprado, silencioso e sozinho, para longe deles.


Com os olhos cerrados, Glaudir não queria ver nada. Suas sensações já eram horríveis o suficiente para que não pudesse abri-los. Um frio imenso na barriga, uma vontade de apertar a mochila de Docus até os dedos sangrarem, um desequilíbrio horroroso e, a maior e pior sensação, uma tontura que rodava a sua cabeça. No entanto, uma frase dita por Hargot para o issacerez o fez pensar em abri-los.

— Admire a paisagem. Incrível, não?

— Talvez incrível não seja a palavra. Maravilhoso, espetacular, emocionante. Acho que não há palavras.

Glaudir arrumou coragem e esticou um dos olhos. Sob as asas de Lúminar que se movimentavam em uníssono, nuvens espessas e enevoadas surgiam como ondas espumantes do mar. O medo desapareceu de repente ao abrir o outro olho. O brilho matutino nas bordas das nuvens corava-se de branco, transformando-as num aglomerado de algodão. Fino qual uma corda, ou melhor, qual uma serpente esguia, o rio prosseguia com seu ritmo ao sul em meio a colinas verdejantes. O ar da primavera agitava os campos compridos lá embaixo e suas aves miúdas voavam em harmonia, admirando com tímidas canções a paisagem encantadora. Glaudir não sabia como era possível escutar aquelas cantorias tão distantes, mas não se importava. Sangue aventureiro começou a correr nas veias do ivirez e seu coração pulsou mais alegre.

— Lindo. Acho que a palavra é lindo — disse ele, superando o medo e respirando o ar que a estação lhe trazia.

Lúminar, a Luz, parou várias vezes para descansar por causa do peso carregado, no entanto, isso não a deixava indisposta. Obedecia às ordens que o cavaleiro-celeste lhe dava, principalmente em voar alto para que as pessoas lá em baixo não conseguissem notá-la ou, se conseguissem, pensassem se tratar apenas de uma ave rara e enorme. O crepúsculo já estava próximo quando pararam para dormir em campo aberto. O sol descia vermelho no horizonte, transformando as montanhas da Cordilheira de Andrus em sombras distantes. O rio que passava ao lado de Umilzend não estava tão longe, pois tinham o sobrevoado há pouco tempo.

Lúminar abaixou-se para dormir, encolheu as asas compridas e deitou-se no solo coberto por pequeninas plantas e gravetos. Hargot tirou um lençol fino de sua bolsa e cobriu o chão. Os outros dois fizeram o mesmo. Quando nenhum brilho do sol conseguiu transpassar as montanhas, Hargot se aproximou de Docus e Glaudir. Este último, por ter conhecido os ubarezes, pensou por um momento que o guia poderia ser um deles por causa de seus olhos. Os outros ivirezes costumavam dizer que os moradores da Floresta Talpek possuíam olhos maiores do que o normal, o que não era de fato verdade. Tinham o hábito de dizerem também que moravam em buracos, informação essa sim em parte verdadeira já que os ubarezes habitavam em casas baixíssimas, onde se entrava quase que pelo telhado. Bom, deixemos as características intrigantes dos ubarezes para depois, sendo esse um assunto para ser tratado nos últimos capítulos — se eu chegar lá, é claro.

— Estamos perto da Cidade Pétrea — informou Hargot. — Amanhã, vou pedir para que Lúminar desvie do local para não sermos vistos. Também vou pedir para que não passe perto da Encruzilhada de Glotis e mantenha distância da Estrada da União, para ficarmos longe da Sociedade dos Issacerezes.

— Para onde vamos mais exatamente nas Grandes Árvores? — perguntou Docus.

— O viajante que falei para vocês mora em um lugar escondido. Apenas uma trilha leva à sua casa. Mas Lúminar sabe onde ela fica, então não se preocupem. Seu nome é Abidel, ele cuidou de mim por muito tempo, como um pai.

— O que houve com o seu pai verdadeiro?

— Não sei. Apenas sei que fui criado por Abidel. Ele não sabe que sou um Guerreiro Iluminado, mas acho que tem conhecimento sobre a ondori. — Glaudir sentiu o frasco frio em seu peito. Por todo o dia, havia se esquecido dela. Ele já conhecia o tal Abidel, um viajante que vagava pelas terras de Aragus cuja moradia ficava na Floresta das Grandes Árvores. Tinha a fama de se declarar ivirez quando, na verdade, e todos sabiam disso, era um humano. Definitivamente, não poderia ser o pai de Hargot. — Vou dar os versos primeiro para ver se ele os entende, e dizer que é sobre a ondori. Acho que depois, se ele souber verdadeiramente o que fazer com ela, vou pedir para ir conosco e Glaudir poderá mostrar o objeto. Tenho certeza de que ele não vai dizer não a isso. Mas até agora uma questão não sai da minha cabeça. Algumas inscrições em hamárinos na Cachoeira Ant descreviam quatro ivirezes, não três. No começo, achei que se tratassem de nós e Tick, no entanto, Tick desistiu. Abidel não pode ser, pois ele é um humano.

— Como você se tornou um Guerreiro Iluminado? — perguntou Glaudir.

— Foi graças a seu pai. Glaucor me encontrou em um dia de viagem quando Abidel havia saído para longe. Eu ainda era jovem, mas sabia que, como era noite, perigos perambulavam pela floresta. O hospedei em minha casa e ele conversou comigo. Descobriu minha habilidade de falar em outros idiomas, Abidel me ensinara desde cedo, e isso lhe interessou. Ficamos amigos com o tempo e ele me falou sobre a ondori, confiando em mim.

— Que coincidência esquisita — exclamou Glaudir. — Você se tornou amigo de meu pai e eu amigo de seu pai sem que soubéssemos disso.

Docus mudou de assunto: — Você disse que ele é um viajante, mas, o que isso tem a ver com saber entender os versos?

— Acredito que é a um lugar que devemos ir, como disse a vocês antes, e um dos versos fala “e o último ‘o levará’ às chamas”, me fazendo pensar que essas “chamas” ficam em algum local específico, e Abidel pode saber onde fica.


Os dias passavam-se rápidos como o voo de Lúminar e a paisagem dali mudava com frequência. Colinas, campos, estradas, trilhas, árvores, uns poucos córregos, ladeiras, rochas e, principalmente, planícies. No céu, nuvens, pássaros grandes, vento forte e, com certeza, sol. A Cidade Pétrea ficou para trás, junto da Oestrada, da Estrada Comprida e de Grane. No quarto dia, não havia nada além de um ermo de poucas encostas lá em baixo. Uma floresta verdíssima surgiu nos limites do sul, cujas copas das árvores eram banhadas pelo sol vespertino.

A monveran diminuiu a velocidade e ficou mais próxima do chão, uma vez que aquele era um campo desolado sem ninguém à vista. Hargot lhe mandara deixá-los um pouco perto da floresta e partir depois para onde quisesse, aconselhando-a a ir de volta à Cordilheira de Andrus ou a outro lugar que a mantivesse protegida. Mais ou menos às duas horas da tarde, Lúminar obedeceu. Pousou e os ivirezes saltaram da criatura com palavras de gratidão. Em seguida, ela ergueu suas asas novamente e voou em direção à floresta, sumindo logo no interior das nuvens cinzentas.

Glaudir havia pensado que Lúminar os deixaria na casa do tal Abidel, entretanto, nem os deixara sequer na mata. Sentir o chão duro de terra em seus pés calçados foi meio difícil, visto que, depois de tanto voar, as pernas bamboleavam, deixando-o tonto. De início, andou desajeitado como se as pernas não quisessem obedecê-lo. O sol brilhava forte, clareando as mais altas árvores enquanto o vento rugia sobre elas. Alcançaram a floresta não à tarde, nem ao crepúsculo, mas sim na escura noite.

Por ser nova, a lua não era vista e as estrelas sumiam de vez em quando nas nuvens sombreadas. Ao adentrarem as árvores, os viajantes seguiram uma trilha fina e velha. Matos e folhas cobriam o difícil percurso, e Hargot recomendou que ninguém parasse até estarem longe da entrada da mata. As sombras da noite dominavam o lugar, mas ainda podiam distinguir árvores enormes, todas sem cor e com folhas negras no alto. Sequoias eram frequentes na Floresta das Grandes Árvores, tomando a forma de gigantes de madeira com os braços erguidos para o céu. Eram várias as raízes que saiam de dentro da terra, geralmente manchadas de musgos, e, em certos lugares, era possível passar por baixo das mesmas sem precisar curvar-se.

Em nenhum momento a trilha foi vista à sua frente devido à terrível sombra da noite, mas sentiam que ela se abria a cada passo que davam. Os vultos gigantes das árvores se esticavam mais e mais, às vezes guerreando contra as outras árvores para ganhar espaço, gritavam através do vento forte e veloz. Ele parecia um monstro a empurrar as copas sem piedade alguma. Mas a mata era mais poderosa e retribuía o empurrão, estalando e grunhindo.

Decidiram parar e acender uma fogueira. Não sabiam que horas eram nem pensavam em qual seriam, pois seus olhares preocupados só se voltavam para a escuridão. Quando Docus acendeu uma fogueira com os fósforos de Glaudir, as sombras correram para longe desesperadas. As folhas amarelaram-se, e tudo ficou visível dentro do círculo de luz. Hargot ficou de vigia enquanto os outros dormiam ao som do vento e do fogo a estalar. As faíscas patinavam no ar até o alto da floresta.

Logo, logo, insetos curiosos foram aparecendo a fim de descobrirem de onde vinha aquela luz cor de ouro. Mariposas pretas e cinzas encheram o local e pernilongos gordos e irritantes zuniram incansáveis nos ouvidos dos ivirezes. Grilos cantavam desafinados, irritando-os com seus gritos agudos. Uma coruja escondida piava nos galhos das árvores bem em cima deles, zombava das tentativas de Docus e Glaudir em dormir e acertar os mosquitos com tapadas. Quando tentavam enxergar a ave, ouviam batidas de asas e os pios passavam a vir de outra direção, ainda sem cessarem. Até Hargot que não podia dormir havia perdido a paciência Resmungava a cada picada dolorida dos insetos e ameaçava-os com um galho queimado e coberto de brasas, tudo em vão.

— Chega! — gritou ele.

Com chutes apressados, jogou terra na fogueira e a escuridão assustadora os cegou em silêncio. As mariposas se foram, os zumbidos dos pernilongos partiram, os grilos calaram-se. Entretanto, a coruja continuava a piar, oculta nas folhas:

— Não dá mais tempo de voltar.


O dia amanheceu. Seu brilho passeava pelas brechas da vegetação e descia em linhas douradas rumo ao solo. A primavera trouxera à floresta flores rasteiras e miúdas, todas de cores fracas ou tingidas de azul. Eram poucas as tílias florescidas, mas, por serem altas, apareciam claramente entre as árvores. Árvores lenhosas como o freixo também eram vistas, bem como as sorveiras, todas elas perdendo espaço para as árvores que davam nome à floresta: as sequoias, que tentavam tocar o céu com sua casca repleta de rugas e memórias. Teias brancas como se fossem feitas de pano penduravam-se nos galhos dos chorões velhos e das árvores secas.

Glaudir desafiou Docus a andar sobre uma das raízes sem apoiar-se em nada. Ele aceitou, e levou um tombo, tendo que aturar as risadas dos companheiros depois. Não era bom em escolher. Havia tantas mais grossas que a sua, e embora estivessem cheias de musgo, conseguiria manter-se por mais tempo sobre elas. Havia também troncos mortos, podres, enfeitados com cogumelos orelhas-de-pau e cupins a roer a madeira. Tudo isso parecia chamar a atenção de Docus, ele até chegou a cutucar um buraco com um graveto para ver o que saía de lá dentro.

Seu desafiante não estava tão interessado assim. Já havia passado por aquela trilha algumas vezes, marcada por seixos brancos mas pequenos para passarem despercebidos pelos estrangeiros. Foram justamente essas pedras que o levaram a conhecer Abidel. Pode-se dizer que, para os ivirezes, a curiosidade tanto é uma benção como também uma maldição. Às vezes, ela guiava a uma fonte de conhecimento ou a uma aventura, e outras vezes a uma armadilha. E talvez esse mesmo conhecimento fosse a armadilha. Como o velho Berind, um amigo de Glaudir que temia confessadamente a bengala de Glaucor, costumava dizer: “Conhecimento sempre é bom, mas em excesso, atrai olhares perigosos.” Por receber a ondori, Glaudir atraíra vários olhares de cobiça para a joia e, por ser seu dono, estava em sério perigo.

A trilha ficara mais limpa. Os matos ao seu redor haviam sido aparados, e o caminho, aberto há pouco tempo, talvez com uma enxada. Sequoias verdíssimas e novas erguiam-se na frente dos três, todas unidas como se formassem um muro. Seus galhos se entrelaçavam e escondiam o cenário adiante. Entre elas, arbustos espinhosos agarravam-se numa cerca-viva. Trepadeiras e cipós espinhosos desciam igual a uma cortina, e tudo dali se abraçava de modo que os espaços deixados não eram muito maiores do que uma simples frecha no telhado.

Docus se perguntou o que haveria depois daquilo, mas sentia que Hargot e Glaudir sabiam de que se tratava. A trilha os levou aos arbustos espinhosos e verdes, alguns com pequeninas flores vermelhas. Glaudir enfiou a cabeça para dentro dos matos e estranhou.

— Quando eu vinha aqui, o caminho não parava. Continuava entre os arbustos.

Hargot clareou seus pensamentos, quero dizer, os confundiu ainda mais. — Os arbustos e cipós se fecham quando Abidel quer. Não lembram que eu disse que sua casa ficava escondida?

— Então, como vamos passar? — questionou Docus, tentando ver a tal casa. — E como eles se fecharam? E como se abrem?

— Você faz muitas perguntas, issacerez. A resposta é apenas uma: mágica. Glaudir virou-se para ele com o olhar espantado, igualmente a Docus: — Pelo que sei, Abidel não é um bruxo e nem um mago.

— Tem razão. Ele não é um bruxo, tampouco um mago. É um mestre sábio. Já devem ter ouvido falar sobre ele. Adraner, O Rubro, é como algumas pessoas o conhecem.

Hargot encheu o peito, orgulhoso.

— Adraner? O Adraner domador-de-pássaros? — perguntou Docus. — O feiticeiro-selvagem?

— Esse mesmo.

Glaudir não entendia o que eles estavam falando. “Mestre sábio. Adraner, O Rubro, domador de pássaros?” Ele não conhecia nada sobre isso. Para ele, Abidel era apenas Abidel.

— Resumindo, quem ou o que ele é? — disse ele.

— É um Mestre da Magia, ora! Docus falou a respeito de dois deles na história da Batalha dos Gritos.

— E o que é um Mestre da Magia? Abidel para mim não aparentava ser um feiticeiro.

— Por causa de seus disfarces — esclareceu Hargot. — É difícil explicar o que é um Mestre da Magia. Julgue-o como um feiticeiro, bruxo ou mago. Ou então como qualquer ser que pratica magia. Mas, perto dele, evite essas palavras. Abidel não gosta de falar sobre eles e nem sobre si mesmo. Apenas vamos ouvi-lo e fazer o mínimo de perguntas.

Docus voltou a falar: — Você disse que vamos abrir o caminho com mágica então, como vamos fazer tal mágica? A não ser que você saiba, eu e Glaudir não temos ideia de como fazer uma.

— Não sei fazer feitiços. Abidel é quem vai fazê-lo. Só precisamos esperar até que ele nos deixe passar. Tenho certeza de que não vai demorar muito tempo. Sempre foi assim, só entra quem tem permissão.

— Mas você disse que Glaucor lhe conheceu na sua casa, então como ele entrou?

— Eu deixei. Os arbustos espinhosos só podem ser abertos por alguém lá de dentro. Ninguém pode ultrapassá-los sem ter falado com ele e este ter permitido a sua entrada, a não ser se Abidel estiver fora. O Mestre tem poder para abri-los por esse lado.

— Então, de qualquer maneira, vamos ter que esperar? — perguntou Docus, aflito.

— Exatamente! Mas, Docus, por favor, não faça perguntas perto dele, embora eu saiba que vai ser difícil, pois você não se cala!

Glaudir riu, inaudível, enquanto Docus resmungava.

Ao rir, a lembrança de Tick, seu amigo distante e sozinho, transbordou em seu coração. Torceu para que ele não fosse atacado pelos Selvagens Uriarques e chegasse em segurança em Havis. Glaudir queria estar com ele e seu pai, mas sabia que não podia.


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