Paulo Moreira Escritor

Como narrar batalhas compreensíveis? O Bernard Cornwell sabe

Resenha de Crônicas Saxônicas: Senhores do Norte

capa do livro os senhores do norte

Trecho favorito

“Ri, subitamente empolgado com a percepção de que estávamos dentro de Dunholm. Pensei em Hild e imaginei-a rezando em sua capela simples com os mendigos já amontoados diante do portão do convento. Alfredo estaria trabalhando, arruinando os olhos com a leitura de manuscritos à luz fraca do alvorecer. Homens estariam acordando em todas as fortificações da Britânia, bocejando e se espreguiçando. Bois estavam recebendo cangas. Cães se empolgavam, sabendo que a caçada do dia estava para começar, e cá estávamos nós, dentro da fortaleza de Kjartan, e ninguém suspeitava de nossa presença. Estávamos molhados, estávamos com frio, estávamos rígidos e em número inferior, pelo menos numa proporção de vinte para um, mas os deuses se encontravam conosco e eu sabia que iríamos vencer. E senti uma empolgação súbita. O júbilo da batalha vinha chegando e eu sabia que os skalds teriam um grande feito para celebrar.

Ou talvez os skalds fizessem um lamento. Porque então, de repente, tudo deu desastrosamente errado.”

Resenha

Os Senhores do Norte é o terceiro livro de As Crônicas Saxônicas, no qual acompanhamos o jovem Uhtred novamente em sua busca por vingança. Dessa vez, ele está muito mais próximo de realizá-la — mas você sabe, as fiandeiras do destino adoram trollar os mortais.

O livro começa logo após a Batalha de Ethadun, quando o rei Alfredo, com Deus e Uhtred a seu lado, derrotou os dinamarqueses lá no segundo livro. Uhtred deixa o reino de Wessex e parte com Hild para a Nortúmbria, onde está Bebbanburg, seu castelo por direito, e Kjartan, O Cruel, o cara que matou seu pai adotivo e sequestrou sua irmã Thyra. Lembra disso? Eu não lembrava por ter lido cada livro com um intervalo de um ano. Obrigado Bernard por falar esses detalhes no começo do livro em doses moderadas de “conte, não mostre” — por favor, não preguem o “mostre, não conte” muito profundamente em seus escritos. Contar tem suas vantagens também.

Mas a Nortúmbria está um caos. Cidades foram saqueadas, homens e mulheres foram mortos ou vendidos, igrejas foram queimadas. Nesse cenário desolador, Uhtred acaba salvando um grupo de padres escravizados. Entre eles, está um rei: Gudred, que pode encurtar, ou dificultar, o caminho de vingança de Uhtred.

Todo o livro tem um bom ritmo e a narração de Bernard é maravilhosa em sua simplicidade. É curta, visual, sem floreios — afinal, Bernard trabalhou na BBC — , e suas ironias cabem totalmente no personagem. São criativas, mas algumas achei repetitivas.

Embora o livro seja narrado na primeira pessoa, outros personagens também ganham destaque na narrativa, especialmente os que Uhtred despreza, ou nos pontos que Uhtred os despreza, cof cof, Igreja!

Outra vez, a Igreja Católica Medieval é vista com desdém. Seus ritos são duvidosos, seus padres, hipócritas e gananciosos. Normal, o narrador Uhtred continua pagão até a velhice, como ele bem diz. Mas Uhtred começa a reconhecer o poder da Igreja e a inteligência de Alfredo. Alguns dinamarqueses, inclusive, passam a ter medo da magia cristã. Os religiosos Beocca e Hild são mais que meros ajudantes do protagonista. Eles salvam o protagonista da maneira mais humilhante que Uhtred poderia pensar: com o poder da Igreja.

Por falar em Hild, tenho que destacar a forma como Bernard trata as mulheres nesse livro. Elas são pessoas. O que isso significa? Significa que elas conversam sobre política com homens, religião, batalhas e, pasmem, vingança. Sim, mulheres não estão lá pra completar outro personagem masculino. Elas têm suas histórias à parte, seus desafios, seus dilemas — não essencialmente românticos. A maioria busca vingança como Uhtred, e eu acho maravilhoso que Bernard deixou que elas realmente se vingassem, e não os homens por elas.

As mulheres de Os Senhores do Norte são pessoas que vão lutar pra conseguir o que querem. Se ela quer ficar ao lado do amado na batalha, ela vai dar seu jeito. Se ela quer converter pagãos a sua fé, ela vai dar seu jeito. Se ela quer enfiar uma espada na barriga de alguém pra que ele morra lentamente, ela vai dar seu jeito.

Gostei mais deles do que do protagonista. De fato, eu não sou lá muito fã de Uhtred. Entendo-o, mas não gosto do que ele faz. Uhtred é tão violento, sanguinário e vingativo que eu não tenho dúvidas que ele procuraria todos os mosquitos que o picaram numa floresta pra arrancar suas patas uma por uma vagarosamente.

Esse meio ranço vem, em parte, de Vinland Saga, porque em Vinland Saga o personagem vai mudando, aos poucos mas vai, o que me faz gostar do Thorfinn. Em Os Senhores do Norte, isso não chega a acontecer. Uhtred também é escravizado como em Vinland Saga, no entanto, isso parece não afetá-lo tanto assim. Ele continua praticamente o mesmo que o anterior. A diferença é que agora ele quer se vingar de mais uma pessoa.

Eu esperava mais desse momento. Depois percebi que não fazia sentido prolongar tanto. Thorfinn é um navegante e não um guerreiro. Em Vinland Saga, esse prolongamento é necessário para aceitarmos a mudança do personagem. Mas Uhtred é um guerreiro que gosta de matar, se sente realizado na guerra. Ser escravizado não mudaria isso. Então, não faz sentido perder tempo com algo que só vai alongar a narrativa.

O livro também não possui tantas batalhas quanto os anteriores, nem é tão visceral. Seu ponto forte é a recuperação de Dunholm, fortaleza tomada por Kjartan, O Cruel. É aqui que recordamos a forma visual de Bernard em descrever conflitos, principalmente batalhas.

O que aprendi com o olhar de escritor?

Tive um olhar de escritor enquanto lia passagens interessantes, então deixo aqui algumas, não dicas, mas percepções que podem ajudá-lo se você quer escrever batalhas como o Bernard Cornwell.

A principal é: seja claro

Isso significa esquecer os floreios e metáforas que farão o leitor parar pra processar a informação. Elabore tudo visualmente primeiro. Se estiver claro visualmente, está aceitável, está imaginável.

Mostre o terreno e o ambiente primeiro

Vai chover? A batalha vai ocorrer de noite? Quais as dificuldades que o lugar impõe aos guerreiros? Trate o ambiente como um personagem. É um aliado ou um inimigo, ou um pouco dos dois?

Diga o objetivo e como alcançá-lo

A coisa mais frustrante em uma batalha é você não saber por que uma cavalaria está avançando para a esquerda do inimigo, ou um capitão está reunindo forças na sua direita. Aproveite-se de um “conte moderado”. Guerreiros preparados não se movem aleatoriamente. Além disso, é natural que um líder fale seus planos para quem vai executá-lo depois.

Diga ou mostre a capacidade do inimigo e dos aliados também

Com quem estamos lutando? Em Os Senhores do Norte, Gudred sempre está perguntando para Uhtred o que o inimigo pode ou não fazer. Como Uhtred é mais experiente em batalhas, ele pode responder. O narrador frequentemente diz quantos homens estão lutando, seja em lutas de três contra cinco, quanto batalhas de cinquenta contra duzentos.

Batalhas não são só homens brincando de matar

Traga algo pessoal para esse conflito. Uhtred quer vingança e recuperar Bebbanburg. Alfredo quer “pacificar” a Nortúmbria. Ragnar quer saber o que houve com sua irmã. Gudred quer ser rei da Nortúmbria. Pra seus desejos se realizarem, é preciso tomar Dunholm, matar Kjartan e Ivar. Sempre há algo imprevisível numa batalha, mas tem que ser entendível e aceitável

Algo ruim ou bom pode acontecer, tanto para os inimigos quanto para os aliados

Desmoronamentos, deserção, armas quebrarem… Trabalhe o imprevisível, mas isso não quer dizer que as cenas agora serão confusas. Tente continuar com a clareza visual. Alguns acontecimentos também podem ser esperados por dicas na narrativa anterior que foram ignoradas pelos personagens.

Não se esqueça do ritmo de suas sentenças

É fácil sucumbir à maldição de frases longas que floreiam uma batalha, ou de frases curtas que robotizam todas as ações. Intercale esses tamanhos. Uma frase curta pode ser usada para algo imprevisível ou rápido, seguida por uma frase longa que descreve o interior do personagem após esse acontecimento. Não use apenas um tamanho.


Você gosta de analisar batalhas também? Deixo aqui algumas recomendações de outros autores: Conn Iggulden, G. R. R. Martin, Eijo Yoshikawa e John Keegan.

Talvez eu faça uma análise com esses autores em um futuro distante. Talvez.


Texto publicado originalmente no Medium em 17 jul. 2021

#escrita #historia

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