Paulo Moreira Escritor

Aprendendo a mostrar sem ser extremamente descritivo: O que você precisa saber sobre o Show, don't Tell

Se você é um escritor que faz o dever de casa, já deve ter se esbarrado na máxima “Mostre, Não Conte”. Se não, eu explico. É uma técnica simples que torna a leitura mais imaginativa, mais autêntica, mais criativa. Pegue todas (ou quase todas — explico depois) as passagens que você contou algo e mostre esse contar.

Então, se você contou que “O Conselheiro entrou exausto na Torre do Rei”, mostre a cena com: “O Conselheiro parou diante do trono. Tentou respirar um pouco mais e caiu de joelhos, o corpo trêmulo e as roupas encharcadas de suor.”

Se você contou que “Mesmo doente, Melissa foi ao trabalho”, mostre a Melissa doente com: “Com o nariz vermelho e uma caixa cheia de lenços de papel, Melissa sentou-se e gritou para nós: Não é hoje que vocês vão se livrar de mim!”

O processo para um bom mostre é demorado no início. A prática acelera. Mesmo assim, recomendo não se preocupar com ele num primeiro momento. Escreva normal os seus contes, depois você os altera para um mostre. Isso porque a procura de um bom mostre pode acabar te travando.

No entanto, o Show, don’t Tell não é tão milagroso assim. Com ele você pode cair na armadilha de ser extremamente descritivo ou prejudicar o ritmo de uma cena. Tenha cuidado. Então aqui deixo três dicas, em forma de lista, porque a net gosta de listas:

1. Mostre o que precisa ser imaginado. Conte o que não precisa ser imaginado

Se Alfredo vai de A a B, mostre “Alfredo atravessou os pântanos escuros de Garlia, cruzou os mares revoltos da Crássia, cavalgou a longa estrada do rei e entregou a carta nas mãos do Lorde de Garrenhal” apenas se você quer destacar a persistência de Alfredo. Se o mais importante é a carta, basta um “Alfredo veio de muito longe para entregar a carta nas mãos do Lorde”, que é um conte.

2. Uma especificidade vale mais que mil palavras

Mostrar uma característica exclusiva de seu personagem nos faz imaginá-lo melhor, além de ser criativo. Lembra da menina de Desventuras em Série que amarra o cabelo toda vez que tem um plano? Não precisa dizer que ela tem um plano e qual é, seu ato já nos indica isso. Mostre-a amarrando o cabelo e executando o plano.

Em vez de se estender na descrição belíssima e detalhada de um sol nascendo, falando da cor das nuvens, o cantar dos pássaros, você pode mostrar a beleza de forma simples, destacando algo especifico que resume essa beleza: “O sol apareceu sobre uma névoa cor de ouro.” (Umm… Não ficou tão legal assim, mas certamente é mais fácil e rápido de imaginar.) Nesse caso, o foco é a névoa, que pra mim reúne toda a beleza daquele nascer-de-sol.

3. Mostre um cenário se ele mostrar também seu personagem

Difícil, mas não impossível. Você pode mostrar as unhas sujas de terra de uma mulher em vez de nos contar que ela é jardineira. Expandindo para o cenário, mostre o seu jardim. Troque uma cena que pode ter mudança de cenário e insira-a nesse lugar.

O íntimo dos personagens também pode ser revelado com um mostrar de cenário. Veja:

“A luz amarela do abajur iluminava os livros de colorir da estante, as fotos coladas no espelho com adesivos da Hello Kitty, os origamis rosa pendurados no teto, a boneca de pano largada no chão ao pé da cama. Mas tudo estava gelado, as paredes, os móveis, os brinquedos. Todo o calor do quarto escapara pela janela aberta direto para uma noite fria e cinzenta.”

Nesse caso, o colorido dos objetos infantis do quarto é contrastado com o cinzento da noite lá fora. O quarto também está frio, embora costumasse ser quente. O jogo de palavras nos mostra que não foi só o calor a escapar pela janela aberta, mas o causador do calor, talvez a filha do personagem. Assim, todo o cenário é descrito para nos mostrar o que está se passando no interior do pai.

#escrita

- 1 toast